Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Quarta-feira, Abril 29, 2009

Vestibular – Tudo (de) novo!

Vestibular é um jeito brasileiro de se nomear a bateria de testes que em Portugal costuma ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular. O exame vestibular, de tão conhecido e temido por gerações de estudantes brasileiros, acabou se tornando, somente, vestibular.
Vestíbulo (do latim, vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que significa pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma antessala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta de entrada e o corpo principal de uma casa, apartamento, palácio ou prédio público. A ideia por traz de “exame vestibular” é a de que o exame em questão seleciona quem fica por fora e quem é capaz de entrar numa Universidade.
Nos últimos dias, o Ministério de Educação lançou uma série de propostas para mudar o formato do exame. A ideia matriz é que as Universidades possam utilizar o ENEM como sua forma de seleção dos estudantes. O documento Termo de Referência – Novo Enem e Sistema de Seleção Unificada, assinado em 08/04/2009 pela Secretaria de Educação Superior (MEC) expressa que “a modificação do formato do Exame Nacional do Ensino Médio (novo ENEM) – com a realização das provas de Linguagens (incluindo redação); Ciências Humanas; Ciências da Natureza e Matemática – e a consequente valorização dos conteúdos acadêmicos próprios do ensino médio, gera a possibilidade de utilização dos resultados desse exame para a seleção dos ingressantes no ensino superior. A opção pela utilização do novo ENEM não implica abdicar de outros mecanismos de seleção, (...), observado, naturalmente, o total de vagas regularmente oferecidas pela Instituição de Educação Superior (IES)”.
Para o MEC, no mesmo documento, “essa utilização pode se dar de duas formas. A primeira, mediante simples informação, pelo INEP, à IES, dos boletins de resultados dos candidatos que tiverem realizado o novo ENEM, adotado como prova de seleção (...). A segunda forma de utilização do novo ENEM consiste na adesão ao Sistema de Seleção Unificada, sistema informatizado do Ministério da Educação apto a processar o registro das vagas especificamente oferecidas pelas IES, em confronto com as listas ordenadas de candidatos, em ordem decrescente, por curso, segundo a pontuação no Exame. O pressuposto da adesão ao Sistema de Seleção Unificado é a utilização do novo ENEM como fase única, sem prejuízo de eventual realização de exame de aptidão para áreas específicas”.
O ENEM nasceu com o objetivo de diagnosticar habilidades gerais do jovem estudante. Segundo o INEP, “para a elaboração da prova do Enem, constituída de uma parte objetiva e uma redação, é utilizada uma matriz de competências. Neste caso, a palavra competência está ligada à capacidade do estudante, entre outras coisas, em dominar a norma culta da Língua Portuguesa, compreender fenômenos naturais, enfrentar situações-problema, construir argumentações consistentes e elaborar propostas que atentem para as questões sociais. A cada competência corresponde um conjunto de “habilidades”, que seriam a demonstração prática dessas competências”.
Ao que tudo indica, o ENEM – que não nasceu para ser exame de seleção, e sim com o mérito de estimular raciocínio, competências e habilidades, alem de promover uma mudança de mentalidade nas propostas pedagógicas das escolas, já que prescinde da velha “decoreba” – será transformado em exame vestibular.
Segundo o MEC, tal exame cobrará do aluno o conteúdo das matérias do Ensino Médio que são pré-requisito para se conseguir acompanhar o Ensino Superior. Isso era e é a função do vestibular. Fazer o ENEM cumprir essa função é perder o ENEM como mecanismo de averiguação para o qual ele foi criado, e é dar sinais, de uma vez por todas, de que não há interesse em modificar o Ensino Médio. Em outras palavras: antes tínhamos o ENEM e o vestibular, cada qual com a sua função, de agora em diante teremos somente o vestibular, com nome de ENEM.
Na prática, o que está para ocorrer são dois erros, com duas conseqüências graves: uma primeira é o da perda do próprio ENEM; a segunda é que a escola brasileira de ensino médio ainda não sabe bem (e será que saberá?) o que ensinar claramente!
Acredito que três reflexões precisam ser feitas nesse momento:
1. Está claro que o vestibular tem limitações imensas. Sua forma mais exclui que inclui. O que se estuda para uma classificação razoável é, além de incrivelmente volumoso, suspeito de desnecessário, enfadonho e superado. Para se dar conta da “matéria”, professores têm que criar “musiquinhas”, macetes, fórmulas de “decoreba” etc. É a perfeita banalização! E mais sério: numa etapa tão crucial na vida escolar – momento da adolescência psicológica e da consolidação de valores e habilidades – a escola resume-se a se debruçar sobre banalidades. Mas não se pode perder de vista que estudar é algo que requer disciplina, empenho, renúncias! Nesse sentido, os preparativos para o vestibular podem criar um clima propício para o bom estudo e, consequentemente, para o bom crescimento intelectual. É uma pena que isso aconteça apenas ao final da etapa básica da Educação. Talvez as escolas devam se empenhar mais na construção da disciplina de estudo desde as sérias iniciais do Ensino Fundamental. Crianças e jovens devem ter claro os limites entre brincar e estudar. É lamentável que alguns jovens só encontrem a primeira frustração acadêmica quando se deparam com o vestibular, mesmo não tendo levado à sério seus estudos pregressos.
2. O atual Enem é uma avaliação diferente da maioria dos vestibulares. Isso porque as 63 questões do Exame não favorecem a decoreba, não oferecem pegadinhas, nem exigem macetes.
A prova do Enem é interdisciplinar, ou seja, procura reunir conhecimentos de diversas áreas em uma mesma questão, relacionando-os. O Exame avalia a sua capacidade em resolver situações-problema. O que conta é o conhecimento adquirido na vida escolar e no dia-a-dia. A proposta de redação do Enem é baseada em diferentes textos e linguagens que tratam de temas atuais e nacionais. Estes textos estimulam a reflexão e a avaliação a respeito dos argumentos, informações, fatos e opiniões que apresentam. A partir dessa análise, o participante do Enem deve criar um novo texto argumentativo-dissertativo, onde apresente seu ponto de vista. Utilizar esse tipo de exame para selecionar somente os mais bem classificados é correr o risco de se perder a essência que lhe é específica.
3. Uma questão final tem a ver com uma frase quase despercebida pela maioria dos leitores das novas orientações do MEC. Depois de expressar-se sobre o novo formato do ENEM, o termo de referência salienta que: “observado, naturalmente, o total de vagas regularmente oferecidas pela Instituição de Educação Superior”. Eis o nó! Por que os vestibulares são tão concorridos? Porque não há vagas em número razoável. Para se ter uma ideia do problema, na USP, a relação candidato-vaga no curso de Medicina foi, em 2003, de 31,07. Ou seja, para cada vaga disputada, havia mais de trinta concorrentes! Os vestibulares são cada vez mais “difíceis” porque somente assim é possível eliminar 30 em cada grupo de 31 jovens lutando por uma vaga. O problema não é passar no vestibular! Estudantes com 70%, 80% ou 90% de acerto – que claramente estão aptos – não conseguem a classificação. O problema não é educacional, é político! Faltam vagas! E isso não parece ser contemplado na mudança no formato do sistema de exames para ingresso nas Universidades. Pode-se modificar tudo, mas enquanto não se ampliarem as vagas, nada mudará! O Ensino Médio continuará a ser uma etapa de triagem dos mais afeitos aos macetes e melhor condicionados à decoreba em detrimento dos que, talvez, estejam mais bem preparados efetivamente para a educação superior.
Em suma, vestibular ainda não é problema de educação. É uma questão política! Depois que houver mais vagas e a relação candidato-vaga for humanamente justa, os educadores poderão honestamente se debruçar sobre a questão e pensar um exame que mescle a competitividade dos atuais vestibulares com as estimulantes propostas do ENEM para formatar um exame de seleção que cumpra dois ricos propósitos: primeiro, pautar a educação básica em formar pessoas verdadeiramente estudiosas, compenetradas, conscientes dos seus objetivos; segundo, selecionar os estudantes que objetivamente se adequam às carreiras universitárias pretendidas!
Enquanto não houver vagas na Universidade pública que atendam as demandas da sociedade brasileira, haverá espaço fecundo para os cursinhos encontrarem caminhos criativos (nem sempre louváveis) para os jovens aprenderem a se acotovelar na multidão e conseguirem um lugar ao sol. E pior: as mais profundas marcas de desigualdade social permanecerão: os mais ricos conseguirão, os mais pobres permanecerão como tal!
É lamentável, no Brasil tudo se muda, para nada mudar!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 9:16 AM



Terça-feira, Agosto 26, 2008

Pessoas e postes ...

Nesse tempo de campanha eleitoral, há muito que se observar. Mais importante do que as campanhas explícitas dos candidatos, creio sejam as atitudes que norteiam os passos e as palavras dos mesmos.
É inegável que a lei eleitoral inibiu satisfatoriamente, por exemplo, os exageros irresponsáveis das campanhas. Já não se vê – como antes – ruas sujas por “santinhos”, paredes pintadas e coladas, placas espalhadas por todos os cantos. A poluição visual de uma campanha eleitoral diminuiu significativamente!
Mas tenho me incomodado com algo aparentemente sem importância para muitos. Fico constrangido com tanta gente segurando placas nos semáforos e nas esquinas da cidade. Foi uma maneira de não violar a lei e continuar nos submetendo ao massacre da publicidade desprovida de inteligência.
Se me provarem que são partidários que se interessam por política, acreditam em seus candidatos e trabalham para elegê-los, ficarei menos incomodado. Mas me parecem pessoas pagas para tal ocupação. Pior: parecem-me jovens e idosos (em sua maioria) desempregados que vêem na campanha a chance de ganhar uns trocados para a sobrevivência.
Não há nada de indigno nisso, se visto pelo lado de quem precisa trabalhar e não encontra chance no mercado. Mas se contemplado pelo ângulo de quem almeja um cargo político, a mim diz muita coisa.
Diz, por exemplo, o que pensa esse candidato sobre emprego e trabalho. Se, em campanha, que em geral se maqueia a realidade, o candidato é capaz de expôr um ser humano a horas ininterruptas segurando uma foto sua, imagine o que fará com uma caneta na mão para assinar contratos e acordos que redundem em realidade para a vida das pessoas.
Não posso crer que uma pessoa que usa adolescentes para balançar bandeiras de campanha (sem sequer um sorriso no rosto) seja uma pessoa que verdadeiramente respeite o ser humano!
Não posso concordar que uma campanha dependa de fotos e cartazes para eleger alguém. Campanha publicitária se faz para vender produtos e serviços e para tornar conhecida uma marca. Candidatos devem ser votados por “já” serem conhecidos e acreditados por sua comunidade. Candidatos não são marcas a serem escolhidas. Candidatos são pessoas nas quais acreditamos ou não!
Fico triste em saber que vivo num país em que pessoas têm de se submeter a hastear com seus corpos peças publicitárias. Lamento, porque isso diminui as pessoas e as leva ao lugar aonde trabalho não é sinônimo de produção, de serviço ou de doação. Trabalho passa a ser uma pena!
Preferiria votar em quem me mostrasse em campanha o valor que realmente dá ao trabalho humano, já que essa é uma área que, de modo consistente, pode mudar a vida e a sorte das famílias.
Preferiria votar em quem me convencesse que quer romper com o ciclo de sub-empregos e trabalhos indignos a que tem de ser submetida a maior parcela da população brasileira.
Se tivesse que escolher, preferiria votar em quem usasse postes em lugar de seres humanos!
Aos que precisam dessa ocupação, espero que tenham mais sorte em encontrar uma atividade segura que lhes dê trabalho e renda de forma mais duradoura.
Aos que julgam precisar dessa forma de propaganda para se elegerem, profiro, publicamente, meu lamento e minha indignação!

Em quem vou votar ...

Antes de começar o alarido da campanha municipal, já estou me preparando psicologicamente para decidir meu voto. Por causa disso, passo a refletir sobre o que segue.
Votei quase tantas vezes para presidente quanto minha mãe ou meu pai. Significa dizer que minha geração é bem mais experiente em termos eleitorais do que qualquer outra precedente, que ainda viva! Isso faz ver duas questões complexas: primeiro, a experiência político-eleitoral é muito recente no país; segundo, os vícios das ditaduras são, ainda, perceptíveis.
Daí a urgência de uma reflexão sobre decisões a serem tomadas no próximo pleito. Não que alimente a ilusão de uma mudança expressiva, já que as pessoas que concorrerão aos cargos, ainda que sem saber, carregam as marcas de uma ou duas gerações estragadas politicamente pelos anos de ferro dos governos militares; almejo, somente, cultivar a esperança de dias melhores.
Não desejo entregar meu voto a quem almeja a política como meio de vida. Não gostaria de ser governado ou de ter sobre meus ombros leis propostas por legisladores que galgaram suas colocações por meio de uma “carreira política”. O que significa que quero olhar para a história do meu candidato: no que trabalha? Em que é reconhecidamente bom no que faz? Como é seu nome na praça? Por que acreditar em alguém que só tem como currículo uma “carreira política”? Carreiras se fazem à base de trabalho. Política não é trabalho, é serviço!
Mas não quero confiar meu voto, por outro lado, a quem seja aventureiro na política. Simplesmente porque é “muito conhecido” saiu candidato dada sua popularidade, ou por conta de sua expressividade numa ou noutra área. A história brasileira está eivada de nomes assim; pessoas que vieram à tona graças a um feito de repercussão pública, mas ao se tornarem eleitos, repetem sistematicamente a rotina desoladora da tal “carreira política”.
Meu voto não será dado a quem continuar na postura tão recorrente no país de fazer do palanque eleitoral uma tribuna de acusação da vida e das propostas alheias. Estou cansado da política de competição e de tão pouca proposição. Quero ouvir propostas sérias e consistentes. Quero decidir pelo candidato que me convença argumentativamente. Que me mostre uma análise de estrutura do município capaz de revelar seus entraves; que me esclareça sobre um plano de ação claro e, sobretudo, exeqüível.
Não entregarei meu único voto a quem fizer alianças simplesmente com vistas à eleição. A história recente me mostrou que isso não funciona! O Estado não pode ser mais visto como loteamento político. Não posso mais conviver com a realidade de ver os recursos oriundos dos impostos pagos por mim serem utilizados em pastas governamentais administradas por pessoas incapacitadas para os respectivos cargos. Não posso mais concordar que o que importa é estar no governo. O que importa, na verdade, é ter condições para governar.
Quero empenhar meu voto e minha confiança em quem mostre o rosto de verdade. Em quem me diga a que veio; em nome de quem veio; com que objetivos veio; até onde quer caminhar; o que quer dar de continuidade do que aí está; o que quer deixar de rastro para seu sucessor dar prosseguimento. Não posso mais acreditar em messianismos ingênuos e oportunistas. Não acredito em “salvadores da pátria”!
Quero que meu candidato me diga porque está no seu partido. Primeiro, quero saber que partido é esse: é simplesmente uma legenda para essa eleição? Depois, quero saber quem é esse sujeito na história dessa agremiação política. É claro que no Brasil isso é muito relativo, mas não posso mais votar em pessoas isoladamente; preciso conectar meu voto a quem está com ela e quem ela representa efetivamente. Não posso deixar de investigar os “amigos ocultos” do meu candidato.
Preciso ter a certeza de que meu candidato fará de seu mandato um compromisso com seus eleitores. Permanecerá no cargo até o fim, ou o fará de trampolim para a eleição seguinte? Não posso compactuar, por meio de meu voto, com esquemas para êxitos pessoais ou para ascenção na “carreira política”.
Gostaria de saber quanto meu candidato vai gastar em sua campanha. Se, em campanha, não tiver clareza sobre o uso dos recursos, porque teria confiança em que isso acontecerá depois de eleito? Para decidir com tranqüilidade meu voto, quero saber de onde vêm esses recursos. Quem são seus colaboradores? Por que estão tão interessados em sua eleição? Não posso comungar meu voto com quem não comungo alguns outros valores que considero vitais.
Meu candidato não precisa dominar tudo, mas exijo que ele me convença de que sabe sobre o que está falando, especialmente em termos de administração pública, de saúde e de educação. Não quero mais negociar essas premissas básicas.
Quero ver no meu candidato um engajamento sócio-ambiental sério; que contemple seriamente questões de natureza eco-ambientais. Alguém que saiba do que fala, sem repetir o discurso cansativo dos ambientalistas de plantão!
Vou votar em quem me mostrar que Estado é capaz de dar oportunidades verdadeiras a quem mendiga o pão de cada dia, a quem está por fora da economia; votarei em quem me mostrar que a classe média terá paz para trabalhar.
Não vou votar em quem fizer uma campanha de ruas sujas. Não quero ver o rosto do meu candidato estampado em carros, postes e janelas. Quero me convencer que as pessoas o conhecem e decidiram por votar nele por estarem grávidas de confiança e não porque foram consumidas por sua propaganda.
Parece demais, mas estranho é que tenhamos que reivindicar ainda em 2008 essas premissas básicas de um candidato. Isso deveria ser imposição de lei!
No momento em que escrevo este texto, ainda não sei quem serão os candidatos, por isso escrevo sem medo de tocar em ninguém, mas basicamente meu voto em 2008 exigirá: a) saber em quem estou votando; b) conhecer claramente sua proposta efetiva de trabalho; c) confiar em sua honestidade e d) acreditar que fará algo realmente diferente!

Espero ter em quem votar, realmente!


postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 7:02 PM



Quarta-feira, Abril 23, 2008

Quero me aposentar!

Há uma questão que, seguramente, atormenta jovens da classe média brasileira: por volta dos seus 17 anos, são pressionados a sair de casa e escolher uma carreira universitária com vistas à formação profissional daí decorrente.
É como se o período escolar básico se organizasse de modo a formar os alicerces necessários à educação superior e essa, por sua vez, se modelasse para assegurar subsídios técnicos e teóricos para a profissionalização.
A idéia é relativamente simples: até os 18 anos, se estuda para “ter base”; dos 18 aos 22 (23), se estuda para “ser alguma coisa”; depois se envereda no “mercado de trabalho”, até a aposentadoria.
Do ponto de vista de um planejamento, a linearidade do processo parece, mais que necessária, o ideal. O problema é que a vida não obedece a linhas retas e direcionadas a um único ponto. A vida é teimosa e impertinente!
Primeiro porque jovens em idade escolar não devem ser submetidos tão precocemente a uma escolha que – de alguma forma – imprimirá a direção de toda uma vida. Segundo, porque a Universidade não pode ser reduzida ao espaço para formação profissional. Terceiro, porque o trabalho é muito mais do que meio de subsistência. Por último, porque o sentido e o anseio da vida não são, simplesmente, a aposentadoria!
Parece-me absurda a pressão irresponsável que família, escola e sociedade exercem sobre os adolescentes. Escolher uma carreira aos 17/18 anos de idade é, no mínimo, um contra-senso. Até porque as experiências na vida escolar pregressa são circunscritas quase que exclusivamente ao universo das carreiras tradicionais que – já não sem tempo – não dizem muito aos jovens, tampouco às demandas reais da sociedade. Esperar que a escolha seja acertada é contar demais com a sorte. Todavia, exatamente por causa da limitação que envolve uma escolha tão precoce, a escola deve olhar mais para fora de si em busca de alternativas verdadeiramente contemporâneas.
É lamentável que, no Brasil, a Universidade tenha raízes ainda tão superficiais. Convivemos com uma crise constante: do espaço privilegiadamente dedicado à pesquisa e a construção do saber novo e instigante se espera que haja formação profissional técnica e voltada a fazer girar a economia nacional. Se radicalizarmos as experiências de faculdades como “cursos preparatórios” para uma função profissional e, com isso, se perdermos a chance de preservar o espaço universitário como oportunidade de fomento à pesquisa, talvez tenhamos sérias dificuldades em encontrar, historicamente, espaço que o substitua. Formação profissional e pesquisa não são, entre si, excludentes, mas seguem caminhos próprios, que devem ser preservados, sob pena de, empobrecendo a pesquisa, estrangular, em breve espaço de tempo, a formação profissional qualificada.
Por outro lado, é curioso que o trabalho profissional em si seja tão penoso para muitas pessoas. É raro encontrar quem seja, realmente, feliz na sua ocupação profissional; alguém que consiga compartilhar a alegria de fazer o que ama e, dessa atividade cheia de realização pessoal, conseguir subsidiar com dignidade os proventos indispensáveis à vida. Parece que a escolha precoce induz, quase que necessariamente, a erros graves no início da jornada; um curso superior mal escolhido concorrerá numa carreira profissional infeliz; e, por fim, como tal carreira foi forjada num curso meramente “profissionalizante”, a chance de repensá-lo será praticamente nula; daí, só restará, infelizmente, esperar com ansiedade o tempo para a aposentadoria! A beleza do trabalho humano e todas as suas implicações na própria dignidade do ser humano ficam, por causa de tudo isso, ofuscadas. O trabalho deixa de ser componente intrínseco à vida e assume papel de ocupação passageira.
Ao fim de tudo, estará a aposentadoria. O problema é que, quando ela chegar, trará consigo um mar de frustrações e decepções. No fim, o balanço da vida será triste. Se aposentar é se recolher no aposento; e se aposento é onde temos a chance de pousar e descansar; aposentar é, em algum sentido, voltar para casa, estar em casa. Assim, ao fim, não estará a verdadeira aposentadoria, antes uma espécie de prisão dentro de si mesmo. Estar em casa é ter a liberdade de encontrar-se consigo mesmo e, desse movimento para dentro, jorrar uma extrema sede de diálogo com quem nos cerca. Algo que não ocorre depois de uma vida inteira, mas que deve ser descoberto a cada dia.
Por isso, parece-me que a tarefa mais urgente da escola não é ajudar a escolher a profissão certa, mas contribuir para que nossos jovens encontrem nos estudos seu aposento, e ousem fazer dele um trabalho, que, por força da transformação dele decorrente, imprima rumos próprios à experiência de cada indivíduo. Nesses termos, estudo e trabalho são correlatos, interdependentes.
É por força dessas convicções que quero, sim, me aposentar. Quero, hoje, ter a certeza de que amo o que faço, porque o produto do meu trabalho é, antes de tudo, algo que enche de brilho o meu olhar e ajuda-me a encontrar o sentido da minha existência. Ainda que distante, quero conseguir me sentir em casa todos os dias.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:32 PM



Sonhar não custa nada ...

No dia 11 de fevereiro de 2008, reuniram-se docentes de inúmeras instituições privadas de ensino para uma palestra com o Prof. José Pacheco, patrocinada pelo Sindicato das Escolas Particulares do Rio de Janeiro, por intermédio de sua delegacia em Nova Friburgo. O objetivo foi refletir conjuntamente sobre práticas pedagógicas, bem como ampliar os horizontes nas discussões sobre temas relevantes da vida escolar.
O palestrante fez uma afirmação sobre a qual gostaria de refletir mais detidamente. Disse que, consultado por autoridades brasileiras acerca de propostas para melhoria no ensino nacional, sugeriu a extinção do Ministério da Educação, bem como de todas as secretarias estaduais e municipais! Acreditava, dizia o palestrante, que não passavam de desperdício de recursos públicos sem a mínima coerência na utilização dos mesmos.
Não pretendo discutir o assunto sob o ponto de vista da administração pública, mas ensaiar umas idéias muito genéricas sobre possibilidades decorrentes de uma eventual extinção do Ministério.
1. Sem um órgão controlador, as escolas teriam mais liberdade no trato de suas questões internas e prestariam contas à sociedade por sua excelência em qualidade. Pais não matriculariam seus filhos nessa ou naquela escola porque cumpre ou descumpre um programa predeterminado. Matriculariam porque acreditariam numa filosofia de trabalho proposta por essa escola. Haveria escolas dedicadas mais proximamente a questões ecológicas; outras, a assuntos de natureza sócio-econômica; outras ainda, teriam liberdade para manter suas convicções confessionais etc. Sem uma diretriz nacional – que só serve para estreitar horizontes – as escolas teriam autonomia e, com tal liberdade, gozariam de credibilidade junto à sociedade na medida que atuassem com fidedignidade à proposta enunciada por si mesma, bem como pela excelência da educação ali cultivada. Os programas de conteúdos hoje existentes, impostos e desnecessários, cederiam espaço a demandas reais da sociedade adequadas a seu tempo e lugar.
2. Sem um órgão gestor central, as escolas públicas, por exemplo, seriam iniciativas de grupos de profissionais que – ao invés de prestarem um concurso público que lhes garante estabilidade para (às vezes) manterem as coisas exatamente como estão – proporiam projetos de educação afinados com a realidade social, política, econômica, cultural e ambiental que os cerca. Em lugar de buscarem emprego, requisitariam verbas públicas para empreenderem por iniciativa própria tais projetos. Haveria muito mais engajamento profissional numa escola cuja filosofia não tem a ver com esse ou aquele momento político, mas com ideais nascidos do coração de educadores que pisam o chão das salas de aula, e não dos gabinetes refrigerados do planalto central.
3. Sem um ministério, caberia as administrações locais a garantia da qualidade. Nesse caso, os conselhos comunitários (com administradores, docentes, familiares, discentes, representantes dos segmentos da sociedade civil etc) ficariam incumbidos não apenas de propor, mas gerir recursos junto ao poder público e a iniciativa privada para prover seus projetos. Ainda que deva ficar mantida a responsabilidade dos órgãos públicos para providenciar, controlar e fiscalizar recursos, não devem estar restritas ao Estado tais atribuições.
4. As universidades teriam liberdade para admitir seus alunos por critérios mais legítimos do que o famigerado vestibular. Em lugar de uma prova de conhecimentos absolutamente anacrônicos e inúteis, haveria espaço para projetos pessoais. Imagino uma banca de professores universitários investigando memoriais e currículos de estudantes que se candidatam a projetos propostos por cursos e setores das faculdades. As pessoas integrariam grupos de pesquisa não porque passaram numa prova, mas porque seu histórico de interesses e suas habilidades reais se coadunam com o proposto num determinado plano de estudos e pesquisa.
Resumindo: currículo seria sinônimo de horizontes e não de grade; avaliação seria equivalente à oportunidade e não prova; disciplina seria sinônimo de discipulado e não de controle; escolas seriam sinônimo de horizontes, linha em que céu e terra se tocam e nos inspiram a caminhar para mais adiante.
São apenas idéias ... porque, afinal de contas, além de não ser proibido nem nocivo, sonhar não custa nada!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:31 PM



Sábado, Novembro 03, 2007

Sobre brincar e estudar …

As últimas décadas experimentaram um fenômeno curioso nos ramos de educação e entretenimento: a emergência cada vez mais numerosa de brinquedos e jogos educativos. As prateleiras de lojas (não necessariamente especializadas) estão repletas de brinquedos que estimulam o raciocínio ou coisas semelhantes; há, inclusive, classificação etária. A idéia é que se aprenda brincando. O objetivo é tornar as brincadeiras infantis uma oportunidade de enriquecimento intelectual.
Suspeito, contudo, que parte da insatisfação dos jovens colegiais em dedicarem-se aos estudos se deve a uma espécie de efeito colateral de tais “recursos” pedagógicos.
Tal suspeita se deve ao fato de entender que brincadeira e estudo são atividades distintas. Primeiro, por causa de seus fundamentos; segundo, por conta de seus objetivos.
Brincadeiras são, por excelência, experiências imaginativas. Brincamos sem intenções. Brincamos gratuitamente. Brincadeiras existem por si mesmas. Brincar não é meio para isso ou aquilo, antes é um fim em si mesmo. A riqueza do brincar está no fato de criar possibilidades realmente inviáveis. No reino da fantasia, a brincadeira gera mundos, personagens, experiências que, doutro modo, não seria possível experimentar.
Estudar é o conjunto de ações dirigidas com um fim preciso: aprender, transformar, criar. Aprendemos o que já está posto; transformamos o existente; criamos novidades. A ciência tem por finalidade ser ferramenta de (re)construção do mundo. O modo que encontramos – civilizatoriamente – de existirmos culturalmente passa expressivamente pela ciência e as tecnologias dela decorrentes. O estudo é precisamente o caminho pelo qual mergulhamos nesse mundo.
Está correto que é possível estudar com prazer e, também, brincar aprendendo. Mas – que fique claro – os esforços didático-pedagógicos por tornar a sala de aula e as experiências de aprendizado algo prazeroso não podem ser confundidos com infantilização do ato de estudar, tampouco confundir estudo com brincadeira. Por outro lado, qualquer aprendizado decorrente das brincadeiras é efeito “espontâneo” da postura lúdica, mas nunca resposta esperada e controlada por pedagogos/projetistas de “brinquedos educativos”.
Suspeito que, na medida em que as crianças são introduzidas ao mundo do estudo por meio de brincadeiras promovidas por tais “recursos”, criam a falsa idéia que aprender e estudar são atos de absoluto prazer que sempre promovem bem-estar e satisfação. Isso não é verdade. Estudar é um esforço! É preciso compreender que estudo e conhecimento exigem dedicação, trabalho, disciplina e rigor. Isso não se aprende brincando; se aprende com exercício e cultivo da perseverança.
Tornar a brincadeira um recurso para aprender a estudar é esvaziá-la de sua gratuidade e torná-la enfadonha e superficial. Se concordamos que lugar de criança é na escola, é porque devemos concordar também que a escola deve promover – especialmente nos primeiros anos de vida (na educação infantil de até 5 ou 6 anos de idade) – espaços verdadeiramente livres para a brincadeira. As letras e os números virão depois, quando o cérebro estiver realmente preparado para tais estímulos. Somente nesse momento o estudo propriamente dito emergirá como necessidade e conseqüência. Aí, sim, é momento de estimulá-lo radicalmente, ajudando os meninos a se concentrarem, se esforçarem e vencerem as barreiras que encontrarão pela caminhada.
Antecipar tal empreendimento é, primeiramente, esvaziar a brincadeira de sua significação mais plena: a gratuidade e a imaginação. Além disso, tal afobamento é comprometer o sucesso da carreira acadêmica e intelectual dos indivíduos que confundirão estudo com brincadeira e, quando despertarem para a realidade diferente, simplesmente o rejeitarão, consciente ou inconscientemente.
Duas palavras ainda são relevantes. Brinquedos de verdade não são os inspecionados pelo Inmetro, mas os gerados pela criatividade infantil. Mais interessante que a boneca da TV que fala, sorri e age como um robô é a caixa da boneca que pode, por meio da imaginação inventiva da criança, tornar-se tudo! Outra questão: crianças herdeiras dessa geração de “alta tecnologia lúdico-pedagógica” são estranhas! Andam sem equilíbrio, porque não aprenderam a correr e cair; falam sílabas corretamente articuladas, mas não sabem inventar palavras (preferem ficar em silêncio diante do “não-saber”); reconhecem letras e números, mas não sabem dividir biscoitos, nem ousam criar enredos para brincadeiras inéditas; relacionam-se com mais egoísmo do que o normal, porque não foram despertadas para a convivialidade exigida pelas verdadeiras brincadeiras.
Acredito que seja tarefa premente da Educação ajudar nossos pequenos a brincar gratuita e graciosamente, sem objetivos determinados, com vistas, apenas, ao amadurecimento social e humano; além de cooperar para que, quando for o tempo oportuno, saibam se dedicar aos estudos e, por conta dele, crescerem intelectualmente.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM



Sobre a morte e o morrer ...
(a propósito de Finados)

A morte é, seguramente, um tema sobre o qual há muita resistência em se discutir. É, por outro lado, uma realidade sobre a qual não há o que se discutir! Todos morremos e, sobre tal verdade, não há possibilidade de qualquer aporia. A questão é como nos relacionamos com tal realidade. Há os que a negam, não aceitando por meio de elaborados discursos ideológicos. Há os que a ignoram, por meio do silêncio.
Está claro que a natureza nos dá fatos e, nos distinguimos dos demais animais, mais do que por consciência, pela capacidade de outorgarmos sentido novo e original para os referidos fatos. No caso da morte, mais do que saber de sua inevitabilidade, ousamos significá-la de modo que habite com um mínimo de conveniência nossos sistemas de pensamento, de valores e de atitudes. Em outras palavras, é porque encaramos a morte e sua inevitabilidade que optamos por assumi-la como uma espécie de companheira de viagem que nos ajuda a encontrar o caminho certo a trilhar!
O cotidiano, porém, nos revela um relacionamento mais traumático com a morte. Violência, injustiça social, fome, enfermidades e tantos outros descaminhos nos fazem crer que seria possível evitar o fim. Obviamente, não está excluída a luta pela vida e pela dignidade dela; mas não nos é possível divagar sobre o foco principal e, de alguma forma, negar ou esconder a realidade. Todos morre(re)mos!
Um elaborado sistema de negação da morte é o discurso científico. A medicina, por exemplo, quando investe todas as suas forças em esticar a vida a todo o custo nos frios CTIs, contribui para o prolongamento dos dias de vida, mas se esquece que o sentido e a qualidade da vida está um pouco distante da quantidade de dias vividos. Preferirei morrer em casa, ao lado dos meus queridos, sentindo o cheiro do meu lar, a dar meus últimos suspiros ouvindo bips e enxergando azulejos brancos, com hora pré-determinada para alguém me tocar.
Outro discurso muito bem elaborado que, por vezes, pode nos levar a negação escamoteada da morte é a religião. Qualquer sistema religioso que se preze não excluí de seu elenco de assuntos a morte. Há, porém, modalidades nesses discursos que nos afastam da realidade e criam um mundo virtual no qual parece estar a verdade. No caso do Cristianismo, por exemplo, a fé na ressurreição, que se coloca como uma bela e profunda consciência sobre a morte e seu significado mais radical, pode transformar-se ideologicamente numa fuga da vida e de suas responsabilidades.
Acredito que tanto a ciência quanto a religião, cada uma a seu modo e no seu lugar, devam nos ajudar a viver e, por conseqüência disso, nos ajudar a morrer, também, com mais coragem e com maior dignidade! Isso porque a morte é conseqüência da vida. Ou, de outra forma, a morte é parte integrante da vida. Vida e morte são uma linha de continuidade. A morte não pode ser encarada como um ponto ao fim da vida. Isso faz dela uma tragédia sobre a qual a vida perde seu significado. A morte, ao contrário, cria a expectativa da realidade. Como não temos todo o tempo ao nosso dispor, e como não sabemos a hora de nossa morte, cada instante de vida adquire um status plenamente original: é o único que dispomos. Ou o gozamos bem, ou corremos o risco de jogar tudo fora!
Assim, morrer é uma tarefa que se constrói vivendo. A exemplo do que ocorre com a natureza – na medida que começamos a morrer no dia que nascemos, dada a provisoriedade dos sistemas vitais do corpo humano – importa-nos afinar nossa conduta de modo que cada dia vivido seja experimentado com a possibilidade de ter sido o último, sem que haja necessidade de um seguinte para corrigir alguma coisa. Quando isso ocorre, a morte ganha uma outra conotação: deixa de ser uma tragédia inevitável que nos toma de surpresa, e passa a ser uma amiga de todos os dias que nos lembra da fragilidade da vida e da importância de sua experiência radical, tanto no aspecto pessoal, como nas questões de natureza convivial.
Nesse sentido, a morte dos outros pode nos ajudar a morrer melhor! Os que amamos e já se foram podem nos servir de alerta sobre a provisoriedade da existência e, dessa forma, contribuir para que ousemos viver com mais radicalidade. Que bom seria se pudéssemos desde bem cedo enxergar a morte dessa forma e com ela nos relacionarmos sem muitos traumas. Seríamos mais sensatos e mais corajosos! Os mortos não podem ser relegados ao esquecimento dos CTIs, dos necrotérios e dos cemitérios. Precisam fazer parte de nós e conosco conviverem. Não numa relação de luto constante que deprime e impede a vida, mas como alimento antropofágico que nos dá força e ressignifica nossa existência.
Por fim, devo resgatar um exemplo bíblico que ilustra com radicalidade o significado profundo da morte. A cruz e a morte experimentada nela por Jesus não foram acidentes de percurso. A morte de Jesus de Nazaré foi conseqüência de sua vida. Sua intransigente opção pelo bem e pelo amor o fizeram ter que encarar as ameaças da cruz. Como não recuou um milímetro em sua opção, a morte levantou-se como inevitável e é exatamente nesse sentido que a morte passou a fazer parte de sua vida; e, mais ainda, a morte deixou de ser fim e passou a ser inauguração de uma nova dimensão da caminhada: a ressurreição. O Cristo ressuscitado é o mesmo Jesus crucificado; carrega as mesmas chagas. A vida, porém, ascendeu a um novo patamar onde as fronteiras entre vida e morte ruíram e um Ser Humano novo, recriado, passou a viver plenamente!
É isso – Tempus Fugit! Carpe diem!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM



Produção acadêmica e conhecimento relevante.

Nos últimos anos, a escola tem sofrido uma pressão instigante, mas, por vezes, injusta e descabida. Com a emergência das novas tecnologias de informação, sobretudo a internet, professores e alunos têm experimentado novos desafios, especialmente o de acompanhar a velocidade com que as informações são produzidas, sem, forçosamente, que essa dinâmica tenha relação com princípios ou valores de natureza ética.
Está claro que a escola anda vagarosamente, se comparada ao ritmo frenético da sociedade de consumo, e, mais claro ainda, que jovens têm maior intimidade com as máquinas que os adultos, dentre os quais, destacam-se professores e professoras. Mas é importante fazer justiça: acionar botões e softwares não significa, necessariamente, competência, sobretudo, se pensarmos em competência acadêmica.
Muito se diz sobre o descompasso existente entre as propostas colocadas pela escola e as demandas reais do mundo contemporâneo. De um lado, a tradição firmada no que já existe e que deve ser, mimeticamente, repetido; de outro, a exigência de uma sociedade sedenta por novidades. Entre os extremos, pessoas: alunos e professores. A escola, lamentavelmente, tem dificuldades profundas com mudança; tem receios imensos com a ousadia. A sociedade hodierna, por seu turno, exige ineditismo todos os dias; daí sua superficialidade. Ambas, porém, carecem de pensar mais seriamente sobre valores.
Um exemplo claro disso é a desenvolvida habilidade dos jovens com os computadores e a atrofiada exigência escolar com relação a esses novos recursos no cotidiano acadêmico. De um lado, a rapidez e perspicácia jovem com os botões e ferramentas virtuais; de outro, a morosidade de uma escola que ainda pensa sobre papel.
Mas uma ressalva importante deve ser feita. Por uma lacuna deixada pela escola – que não se “ligou” nas novas tecnologias e suas potencialidades – e pela responsabilidade da exigência contemporânea por novidades – ainda que superficiais e improdutivas – a relação íntima de jovens, computadores e internet não resulta em pesquisa e aprendizado relevantes. Ao contrário, redundam em mesmices, cópias e, muitas vezes, fraudes.
Qual é o professor que nunca se deparou com cópias inteiras de textos disponíveis na rede? Qual é o docente que nunca se perguntou o que fazer com belos trabalhos escolares, formatados com a beleza das novas ferramentas, mas desprovidos de qualquer lampejo de criatividade e rigor acadêmicos?
Pois bem, o que se desenha é, mais ou menos, o seguinte: jovens hábeis com mouse e teclado; computadores com acesso a um mundo cada vez mais vasto de informações; professores nem sempre competentes com tais ferramentas; trabalhos escolares sem pertinência pedagógica e com discutível valor acadêmico. De uma vastidão de opções, resultam pesquisas, trabalhos, textos e tarefas escolares de valor absolutamente questionável!
Creio que a responsabilidade sobre tal discrepância tenha dois sentidos. De uma ponta, está a inabilidade da escola com a produção de conhecimento. Mas isso não é de hoje. Mesmo nos tempos em que livros e bibliotecas imperavam na hora das pesquisas, a cópia e a repetição de idéias já acontecia. Quem não se lembra de ter visitado uma biblioteca buscando por um assunto e recebeu como orientação um ou dois livros marcados em determinadas páginas onde se encontravam as informações desejadas? Lembro-me, até, de uma biblioteca em que o acesso às prateleiras de livros era vedado aos alunos. Havia funcionários para isso! O que se faz hoje, com a internet, é semelhante. Busca-se por um assunto, recorta-se e cola. Pronto, o “trabalho” está pronto!
Por outro lado, há uma responsabilidade que não deve ser desprezada. A referente às demandas esperadas de todos e por todos com relação a sua produtividade. Mais importante do que a relevância é a quantidade do que se produz e a velocidade com que se realiza. O que resulta em mediocridade e superficialidade. Se isso não é necessariamente responsabilidade da escola, é preciso que essa rompa com esse círculo vicioso e espere mais de seus alunos, do que simplesmente tarefas a serem cumpridas.
O que vejo é bem claro. Temos acesso a tecnologia de informação mais barata e mais eficiente do que em qualquer outro momento da história. Temos condições de pensar os programas escolares e ousar com relação a metodologias como em poucos outros momentos da legislação educacional brasileira. Mas ainda repetimos os erros de sempre, tornando a escola mais um compromisso da vida social de cada indivíduo que se encerrará com um canudo de papel e uma festa com fotografias. Talvez fosse o tempo de coadunar a inteligência jovem “antenada” com as novas tecnologias com exigências de aprendizado e construção de conhecimento verdadeiramente novo que fossem mais pertinentes com aquilo que produz solidariedade, ética e justiça.
Se a escola não conseguir, ao final de seu trabalho, produzir conhecimento que ajude a sociedade contemporânea a ser melhor do que está, ela terá fracassado e será co-responsável pelos descaminhos que temos testemunhado. Não bastam habilidade com computadores e saúde produzida em academias, o que realmente fará nosso mundo mais digno será competência acadêmica que transborde em valores éticos e que consiga nos abrir os olhos para enxergarmos a nós mesmos e aos que nos cercam.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:45 PM



Sábado, Julho 14, 2007

Agradecimento ao Papa

Quero, sinceramente, expressar minha gratidão ao Papa Bento XVI pelas últimas declarações sobre a Igreja. Por muito tempo persegui tal verdade, mas agora entendo ter encontrado-a, finalmente!
O Vaticano publicou um documento reiterando que a única Igreja de Cristo é a Igreja Católica e, com isso, confirma a declaração “Dominus Iesus” do ano 2000, que suscitou fortes polêmicas no mundo cristão. O texto volta a afirmar que a Igreja de Cristo está “realmente e unicamente na Igreja Católica”. O objetivo é combater "o relativismo eclesiológico", condenado pelo papa Bento XVI e alas extremamente conservadoras da Igreja, segundo o qual todas as igrejas que dizem fazer parte do cristianismo têm o mesmo nível de verdade ou que cada uma delas não tem mais que uma parte dessa verdade.
Antes de se tornar Papa com o nome de Bento XVI, o cardeal Joseph Ratzinger presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, e a declaração "Dominus Iesus" foi divulgada sob sua responsabilidade. A declaração, segundo a qual apenas a Igreja Católica dispõe de todos os meios de salvação, causou comoção em meio às igrejas protestantes, classificadas de simples "comunidades eclesiásticas" pela "Dominus Iesus". A declaração divulgada agora se refere a uma parte do documento "Lumen Gentium", do Concílio Vaticano II, que afirma que a única Igreja de Cristo "subsiste" na Igreja Católica. Embora haja muitas formas de interpretar o verbo, o cardeal Ratzinger preferiu entender, na "Dominus Iesus", que com o emprego de "subsiste" o Concílio queria dizer "existe realmente".
Para ilustrar o raciocínio, vale destacar alguns trechos da “Dominus Iesus”: “Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: ‘Esta é a única Igreja de Cristo [...].” E, sobre outras tradições, assevera: “Não há dúvida que as diversas tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que procedem de Deus (...). Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os corações dos homens a se abrirem à acção de Deus. Não se lhes pode porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos. Por outro lado, não se pode ignorar que certos ritos, enquanto dependentes da superstição ou de outros erros (cf. 1 Cor 10,20-21), são mais propriamente um obstáculo à salvação.”
Por afirmações como essas é que se conclui que, nas últimas décadas, a Igreja Católica esteve marcada por aquilo que Leonardo Boff chamou de “infantilização dos cristãos”. Basta comparar, por exemplo, a luta pela vida e a opção preferencial pelos pobres defendidas pela Teologia da Libertação (tão perseguida pela Cúria Romana) com a explosão carismática experimentada pela Igreja nas últimas décadas. Uma olha visceralmente para a História (e errou muitas vezes por perder sua dimensão espiritual propriamente dita) enquanto a outra perde seu olhar num céu tão distante, temperada por melodiosas canções de louvor, gritos de aleluia e manifestações, no mínimo, estranhas. A Igreja tem nos ensinado – e isso não é prerrogativa exclusiva da Igreja Romana – o que realmente significa ser como criança, advertência evangélica requerida por Cristo!
Minha gratidão ao Papa é de natureza pessoal. Conheci a Jesus Cristo e sua Palavra, por testemunho e ensinamento de pessoas ecumênicas. Aprendi na Igreja que o Evangelho liberta e nos torna pessoas abertas à ação revigoradora do Espírito Santo. Aprendi que, em Cristo, não há grego nem judeu, não há pobres nem ricos. Foi na Igreja que compreendi o significado da palavra “ecumênico” e foi nela que entendi o que significa ser capaz de dividir o mesmo teto com seres humanos que comungam de modo diferente. Estou grato porque as dificuldades que sempre encontrei na lida ecumênica agora têm uma explicação. Não existem outras igrejas; o que há são, simplesmente, comunidades eclesiais, sem qualquer valor! Estava errado quanto ao meu ecumenismo!
Minha gratidão é, também, de natureza institucional. Foi na Igreja Metodista que ouvi o chamado de Deus para servi-lo como pastor. Foi nela que cumpri parte de minha educação teológica. Não obstante as diferentes tendências da igreja, sempre enxerguei alternativas e espaços para todos. Cria, verdadeiramente, ser rica a pluralidade teológico-pastoral da Igreja. Sendo a experiência ecumênica algo que cultivo em minha vida devocional, havia tranqüilidade e orgulho em participar dos eventos públicos representando minha denominação e carregando a bandeira do diálogo, oficialmente. Estou grato porque, para permanecer fiel ao chamado que ouvi de Deus no tocante ao diálogo e a diversidade, devo acatar o que pensam as instituições (a minha, inclusive, que optou, em 2006, por deixar de ser signatária de organismos ecumênicos com a presença da Igreja Católica). Para ser cristão, devo deixar de ser ecumênico. Creio que será mais fácil mesmo. Vou olhar para o meu próprio umbigo e fingir que tudo que existe, “subsiste” sob a atenção do meu olhar.
Minha gratidão tem, ainda, o aspecto teológico. Entendo a teologia como instrumento de atualização da fé e da Revelação. Só consigo enxergar doutrinas e costumes e os reconhecer como legítimos se forem fundados minimamente numa reflexão teológica séria e consistente. Agradeço porque descobri que há seriedade sim em recolher-me ao isolamento. Que há consistência teológica sim em julgar a fé alheia. Que há acerto sim em dividir o mundo entre certos e errados, santos e pecadores!
Minha gratidão, na verdade, é apenas peça retórica para não dizer o que realmente penso. Impublicável! O que há por trás de uma decisão como essa é o mais arraigado e atrasado fundamentalismo bíblico-teológico, que considera um determinado grupo como superior, como central, como proprietário da verdade em detrimento de qualquer um que pense e aja diferentemente.
Creio que o que fundamenta uma postura sectária e intolerante como essa é, por um lado, o sentimento de superioridade que a Igreja Romana cultiva a respeito de si. Por outro lado, a responsabilidade está numa pastoral proselitista irresponsável que considera qualquer um não-católico como desviado. Em ambas as razões está o que há de mais execrável numa vivência religiosa: o falso messianismo, que se considera sempre como perseguido e que considera os demais como alvos a serem alcançados.
Estou, na verdade, triste. Profundamente triste. Recebo a publicação de um documento como esse com a triste impressão que, na Igreja (em qualquer uma), não há, de fato, salvação. Os homens e mulheres de boa vontade deverão, por força de sua vocação para o diálogo, buscar essa interação fora da Igreja, lamentavelmente.
Estou, também, com pena da Igreja. Está de costas para o mundo contemporâneo que reclama solidariedade e diálogo. Como acontecera no tempo de Jesus, a salvação não está no templo de Jerusalém (de Roma, ou de qualquer outro centro eclesiástico); está, isto sim, vindo da Galiléia dos gentios, estrangeiros. É preciso olhar para fora da Igreja em busca da salvação!
Cultivo, todavia, esperança. Creio que as vozes ecumênicas que se mantinham caladas por comodidade ou por tranqüilidade serão conclamadas a pregar o Evangelho da Unidade.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 10:18 AM



Sobre saberes e valores.

Nos últimos anos, a escola tem sofrido uma pressão instigante, mas, por vezes, injusta e descabida. Com a emergência das novas tecnologias de informação, sobretudo a internet, professores e alunos têm experimentado novos desafios, especialmente o de acompanhar a velocidade com que as informações são produzidas, sem, forçosamente, que essa dinâmica tenha relação com princípios ou valores de natureza ética.
Está claro que a escola anda vagarosamente, se comparada ao ritmo frenético da sociedade de consumo, e, mais claro ainda, que jovens têm maior intimidade com as máquinas que os adultos, dentre os quais, destacam-se professores e professoras. Mas é importante fazer justiça: acionar botões e softwares não significa, necessariamente, competência, sobretudo, se pensarmos em competência acadêmica.
Muito se diz sobre o descompasso existente entre as propostas colocadas pela escola e as demandas reais do mundo contemporâneo. De um lado, a tradição firmada no que já existe e que deve ser, mimeticamente, repetido; de outro, a exigência de uma sociedade sedenta por novidades. Entre os extremos, pessoas: alunos e professores. A escola, lamentavelmente, tem dificuldades profundas com mudança; tem receios imensos com a ousadia. A sociedade hodierna, por seu turno, exige ineditismo todos os dias; daí sua superficialidade. Ambas, porém, carecem de pensar mais seriamente sobre valores.
Um exemplo claro disso é a desenvolvida habilidade dos jovens com os computadores e a atrofiada exigência escolar com relação a esses novos recursos no cotidiano acadêmico. De um lado, a rapidez e perspicácia jovem com os botões e ferramentas virtuais; de outro, a morosidade de uma escola que ainda pensa sobre papel.
Mas uma ressalva importante deve ser feita. Por uma lacuna deixada pela escola – que não se “ligou” nas novas tecnologias e suas potencialidades – e pela responsabilidade da exigência contemporânea por novidades – ainda que superficiais e improdutivas – a relação íntima de jovens, computadores e internet não resulta em pesquisa e aprendizado relevantes. Ao contrário, redundam em mesmices, cópias e, muitas vezes, fraudes.
Qual é o professor que nunca se deparou com cópias inteiras de textos disponíveis na rede? Qual é o docente que nunca se perguntou o que fazer com belos trabalhos escolares, formatados com a beleza das novas ferramentas, mas desprovidos de qualquer lampejo de criatividade e rigor acadêmicos?
Pois bem, o que se desenha é, mais ou menos, o seguinte: jovens hábeis com mouse e teclado; computadores com acesso a um mundo cada vez mais vasto de informações; professores nem sempre competentes com tais ferramentas; trabalhos escolares sem pertinência pedagógica e com discutível valor acadêmico. De uma vastidão de opções, resultam pesquisas, trabalhos, textos e tarefas escolares de valor absolutamente questionável!
Creio que a responsabilidade sobre tal discrepância tenha dois sentidos. De uma ponta, está a inabilidade da escola com a produção de conhecimento. Mas isso não é de hoje. Mesmo nos tempos em que livros e bibliotecas imperavam na hora das pesquisas, a cópia e a repetição de idéias já acontecia. Quem não se lembra de ter visitado uma biblioteca buscando por um assunto e recebeu como orientação um ou dois livros marcados em determinadas páginas onde se encontravam as informações desejadas? Lembro-me, até, de uma biblioteca em que o acesso às prateleiras de livros era vedado aos alunos. Havia funcionários para isso! O que se faz hoje, com a internet, é semelhante. Busca-se por um assunto, recorta-se e cola. Pronto, o “trabalho” está pronto!
Por outro lado, há uma responsabilidade que não deve ser desprezada. A referente às demandas esperadas de todos e por todos com relação a sua produtividade. Mais importante do que a relevância é a quantidade do que se produz e a velocidade com que se realiza. O que resulta em mediocridade e superficialidade. Se isso não é necessariamente responsabilidade da escola, é preciso que essa rompa com esse círculo vicioso e espere mais de seus alunos, do que simplesmente tarefas a serem cumpridas.
O que vejo é bem claro. Temos acesso a tecnologia de informação mais barata e mais eficiente do que em qualquer outro momento da história. Temos condições de pensar os programas escolares e ousar com relação a metodologias como em poucos outros momentos da legislação educacional brasileira. Mas ainda repetimos os erros de sempre, tornando a escola mais um compromisso da vida social de cada indivíduo que se encerrará com um canudo de papel e uma festa com fotografias. Talvez fosse o tempo de coadunar a inteligência jovem “antenada” com as novas tecnologias com exigências de aprendizado e construção de conhecimento verdadeiramente novo que fossem mais pertinentes com aquilo que produz solidariedade, ética e justiça.
Se a escola não conseguir, ao final de seu trabalho, produzir conhecimento que ajude a sociedade contemporânea a ser melhor do que está, ela terá fracassado e será co-responsável pelos descaminhos que temos testemunhado. Não bastam habilidade com computadores e saúde produzida em academias, o que realmente fará nosso mundo mais digno será competência acadêmica que transborde em valores éticos e que consiga nos abrir os olhos para enxergarmos a nós mesmos e aos que nos cercam.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 10:17 AM



Domingo, Junho 17, 2007

Fé na dúvida.

Há muitas marcas que caracterizam o ser humano diferenciando-o dos demais animais. A dúvida é uma delas e talvez figure entre as mais importantes. Duvidar é colocar sob suspeita; é perceber que por trás da realidade há sempre a possibilidade de dubiedade. É ter dificuldades em acreditar, em confiar. Hesitar.
A dúvida foi uma espécie de estopim da reflexão filosófica entre os gregos antigos. Porque não se satisfaziam mais com as respostas dadas pelo senso comum mergulhado na mitologia, passaram a perguntar sobre tudo (natureza, sociedade, moral, linguagem etc). A realidade já não era mais dádiva dos deuses. Passava a ser problema. E problematizar essa mesma realidade tornou-se a tarefa predileta da filosofia recém-nascida.
Não foi muito diferente do ocorrido, por exemplo, na mudança de paradigma experimentada pela civilização ocidental por ocasião da Renascença, do Humanismo, do Racionalismo e de tantas Reformas pelas quais passou a Europa. A autoridade da instituição religiosa não dava mais conta de responder às inúmeras perguntas surgidas. A Bíblia e a Igreja já não dispunham de capital científico para as indagações que represadas permaneceram durante tanto tempo. Os ideais racionalistas e empiristas exigiam respostas nascidas da reflexa e da experiência; não se conformavam mais com os oráculos e as bulas. A máxima cartesiana nasceu justamente como apologia da dúvida, da problematização e da constante busca pela verdade. ¿Penso, logo existo¿; ¿duvido, existo¿.
Experiência inversa, porém, assistimos na história do desenvolvimento infantil. A dúvida está presente no princípio. Aos poucos cede lugar para outras características, dentre as quais a de maior destaque é a acomodação intelectual. As crianças ¿ nos primeiros anos de vida ¿ transbordam ¿por quê(s)¿; com o passar do tempo, descobrem ¿minas¿ onde encontrar (falsos) tesouros. Às perguntas, sobrevêm as respostas (sempre completas).
Responsabilidade destacada sobre todo esse recuo indagativo, problematizador e questionador está, sem dúvida alguma, sob a Escola e sob todos os seus elaborados mecanismos de inibição racional. Isso mesmo, embora pareça estranho, há escolas que em lugar de estimular a razão, fazem-na sucumbir sob alegações antigas, como foram no passado os reclames medievais pela autoridade das Escrituras ou dos Padres. Na escola ¿ e quanto mais elevado o nível de escolaridade, pior é a situação ¿ reina a regra da autoridade; as notas de rodapé, as referências bibliográficas, as citações, muitas vezes, escondem a absoluta esterilidade criativa de quem escreve ou ¿pesquisa¿. É como se houvesse uma proibição ao pensamento novo. Nada poder ser proposto, salvo sob bases sólidas de argumentações já realizadas.
Nada contra o método científico, nem tampouco contra o rigor indispensável ao labor técnico-científico e filosófico. Mas não é possível fechar os olhos perante descalabros que violam o bom senso.
A escola com a qual anseio ter contato todos os dias é aquela que me dê espaço para perguntar, problematizar, duvidar. Não me interessam as respostas já existentes. Elas não têm nada que ver com educação; elas fazem parte de um conjunto de informações que me ajudarão fazer sempre a mesma coisa. Mas há momentos que preciso de algo novo! O que me interessa são as perguntas que insistem em permanecer presente. Não se tratam, necessariamente, de perguntas novas. São ¿velhas¿ às vezes, mas querem respostas novas.
Como instituição, a escola não se moverá. Instituída está. Quem deve se mover são as pessoas. Os professores, as professoras. São os seres humanos com suas mais radicais perguntas que devem se fazer presentes. Duvidando, questionando, desconfiando.
Não sei se a etimologia do verbo confiar é exatamente esta, mas me dá a impressão que con-fiar, é fiar junto; é como se houvesse duas ou mais pessoas fiando conjuntamente. Quem sabe, por exemplo, dois parceiros lançando entre si um carretel de fio de um lado ao outro e, juntos, fiando um tapete ou uma fazenda rústica. Se assim o é, confiar é ter certeza de que se pode lançar o carretel de olhos fechados, porque do outro lado há alguém esperando para segurá-lo. Confiança é o terreno da tranqüilidade.
Acredito, diferentemente, numa educação pela fé, por assim dizer. Sim, pela fé! Se a fé é ¿a certeza do que não se vê¿ , como reza a Bíblia, é exatamente pela fé que desconfiamos. Não há nada que garanta a presença daquele outro do outro lado esperando pelo carretel. O que há é a ousadia de lançar o carretel e deixar o fio desenrolar-se. É a ousadia de perguntar, de duvidar!
É como se pudéssemos ver as coisas invertidamente. A fé é capacidade mais radical da dúvida. Só tem fé, verdadeiramente, o que é capaz de por à prova tudo, inclusive a si mesmo, suas convicções e seus saberes.
Se na Antiguidade Clássica, a Filosofia rompeu com a Mitologia e se na emergência da Modernidade, a Escola precisou se emancipar da Igreja; no começo desse novo século, a escola precisa de mais fé, mais ousadia, mais independência, mais coragem para desconfiar e para duvidar.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:11 AM



Sábado, Maio 12, 2007

Quem (não) cola não sai da escola!

Um dos assuntos que mais preocupam professores é a questão da avaliação. Nesse tema, a cola é problema universal. Primeiro porque revela possíveis descaminhos do próprio instrumento de avaliação. Segundo porque pode indicar desvios de natureza ética, que apelam para perguntas sobre o papel formador do sistema educacional e seus mecanismos internos.
Cola é o processo pelo qual um aluno toma como seu conhecimento alheio. Sem saber sobre uma questão, com ou sem o consentimento do colega, assume o raciocínio e as respostas desse outro.
Há que se pensar, inicialmente, sobre o porquê da cola. Se colar é copiar respostas dos outros é porque professores fazem perguntas para as quais há poucas ¿ ou, mais precisamente, uma só ¿ resposta(s). Caso existisse a possibilidade de respostas alternativas, a necessidade da cola cairia drasticamente. Quem não se lembra das perguntas que exigiam respostas completas? Parte da resposta deve ser idêntica à pergunta, talvez para dar o mínimo de chance a criatividade discente. A cola existe porque não existem estímulos a novas perguntas. As provas reproduzem saber ¿ muitas vezes, já caduco ¿ e não estimulam qualquer tipo de raciocínio criativo.
Basta pensar no vocábulo prova para se ter idéia do problema. Prova é instrumento para aferir capacidades. Por isso, os corredores correm a prova dos 100 metros ou dos 200. O objetivo é saber quem chega na frente dos demais. Escola não deveria ser lugar de provas, de competições. Escola deveria ser espaço de cooperação e companheirismo. Saber não é moeda de aferição de capacidade. Saber só faz sentido se for para aproximar os seres humanos uns dos outros.
Se nos concursos e vestibulares ¿ que nada têm a ver com educação ¿ as provas imperam, a escola não deve se submeter a esses ditames. Nessas experiências, a cola é uma alternativa ¿ espúria, é claro ¿ de alcançar resultados que humanamente parecem impossíveis. Imagine uma avaliação de competências em que há centenas de perguntas sobre dezenas de assuntos, cada um mais sofisticado que o outro, com fórmulas, datas, regras, exceções etc que exigem mais do que o cérebro é capaz de suportar. Costumo dizer que para se sair bem em determinados concursos a melhor fórmula é emburrecer. Deve se esquecer de tudo o mais de importante na vida para se dedicar a estudar cegamente uma única forma de saber. Emburrecendo-se de tudo, aprovar-se-á nisso ou naquilo.
O mais grave é que essa lógica nasce na escola. De certa maneira, a prática desprezível da cola e da mentira intelectual surge na medida que a escola não suscita perguntas novas e criativas e, em lugar disso, reforça a repetição desprovida de sentido das respostas batidas.
Certa vez ouvi de um professor querido e saudoso o que me pareceu um non sense naquele momento. Depois o tempo me mostraria sua genialidade. Quando perguntado sobre a resposta a uma questão proposta em sua avaliação ele respondera que ¿se soubesse da resposta não estaria perguntando, porque ninguém, em sã consciência, pergunta sobre o que já sabe!¿ É verdade: só se pergunta o que não se sabe. A não ser que se queira arrogantemente, depois de um erro, revelar os segredos da resposta certa.
Se na escola houvesse mais tempo para pensar coisas novas, as avaliações cederiam seu espaço à pesquisa. O tempo das provas seria muito mais bem utilizado com espaços de laboratório, pesquisa, leitura, diálogo, pensamento etc. Quando a escola redescobrir sua vocação, as provas cairão em desuso e, em lugar delas, o diálogo saudável entre mestres e discípulos construirá pontes novas entre o lugar que estamos e os infinitos lugares para onde podemos viajar com a cultura e a ciência.
O ditado ¿quem não cola não sai da escola¿ é, por tudo isso, absolutamente verdadeiro. Para sair dessa escola de provas de competição, lamentavelmente, um dos poucos recursos existentes é a partilha ilegítima de saberes. O que uns poucos parecem saber, os demais se apropriam para vencer mais um obstáculo pela frente.
Acredito, mais do que isso, que quem cola não sai da escola. A prática da cola, por vezes estimulada pela própria estrutura escolar, faz com que, mesmo depois de diplomados, mantenhamo-nos enclausurados na roda-viva das competições. É como se permanecêssemos com a necessidade da cola pelo resto da vida. Nossas opiniões sobre as coisas mais elementares não são nossas de fato. Colamo-nas dos outros.
Está claro que já passou da hora de repensarmos nossos instrumentos de avaliação. Se avaliar é indispensável para sabermos onde estamos e como podemos continuar caminhando, os instrumentos para tal empreendimento devem exigir maturidade, criatividade e, sobretudo, honestidade. Honestidade moral de quem abdica dos caminhos fáceis e da apropriação indevida de saberes e honestidade intelectual de quem reconhece o saber mais do que como uma coisa a ser checada e sim como um salto no escuro. Perigoso e arriscado, mas repleto de possibilidades!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM



Segunda-feira, Março 19, 2007

Conservar para avançar.

Poucas instituições existem há tanto tempo e, das que há, nenhuma parece tão conservadora quanto a escola. Dentre as muitas marcas trazidas por ela, poucas foram as que realmente mudaram. O que revela que nem sempre as mudanças são sinônimo de melhoria. Significa, ainda, que estar em conexão com as novas tendências não se traduz em avanço. Num quadro de tantas exigências dirigidas à educação e suas instituições, vale refletir sobre o papel conservador da escola e, em que medida, tal conservadorismo representa o próprio valor da escola.
Em tempos tão profundamente marcados pela evolução tecnológica; tempo de computadores, internet, games eletrônicos, celulares e toda uma parafernália de botões e sensores, a escola tem sido seduzida a tais inovações. Não basta mais o quadro de giz. Agora as salas precisam de projetores, televisores, computadores, quadro interativos etc. Há, inclusive, os que acreditam estar nesses recursos a saída para tantos problemas educacionais. Como se problemas seculares estivessem com os dias contados. Na medida em que os recursos forem se multiplicando, os problemas vão diminuindo até a extinção. Quando todas as salas de aula estiverem equipadas com os mais ¿modernos¿ aparelhos, o êxito da escola estará garantido.
Ledo engano. Os recursos que aí estão, só existem porque foi a escola ¿ nos moldes como a conhecemos hoje ¿ que deram condições para seu desenvolvimento. Foram pesquisas de universidades pelo mundo todo que possibilitaram tais avanços. O mesmo ocorre em outras inúmeras áreas: medicina, biologia, economia, política, administração etc. Todas marcadas pela escola e suas pesquisas. É como se a solução para os problemas da escola estivesse no que ela já faz, no que ela já produz.
Da maneira como vejo, não há recurso nenhum que substitua o professor. Mais do que isso: não há recurso que possa acrescentar um pingo de sucesso ao trabalho docente que esse, por si mesmo, sozinho, não alcançasse. Não que haja contrariedade ao uso e à aplicação de tais recursos. Mas eles não são causa de nada. São conseqüência (dispensável) da colheita de bons frutos na sala de aula.
O que não é prescindível é o professor. O ser humano, com nome e sobrenome. Um indivíduo com opiniões e emoções. Uma pessoa diferente de todas as demais. Um apaixonado por sua profissão. Não há vídeo ou programa de computador capaz de substituir o professor. Não há recurso ¿didático¿ nenhum com a prerrogativa de indispensável ao trabalho docente. Indispensáveis são as pessoas. São os olhares e toques. Os sorrisos e as lágrimas.
Enganam-se os que querem estar em dia com os novos tempos e sucumbem ao lusco-fusco dos data-shows ou à monotonia das lousas, que de interativas só têm o nome. Nossos jovens estão submetidos a essas novidades o tempo todo. Daqui há 2 ou 20 anos existirão outras muito mais atraentes. O que não existirá de mais atraente é o carisma e o afeto de seus professores. Não porque não haja outros profissionais com tal competência, mas porque terá passado o tempo daquele aluno em especial.
Não é possível desperdiçar o tempo de nossos alunos com efeitos especiais na sala de aula ou no laboratório dessa ou daquela ciência. É urgente não deixar morrer o professor!
Mesmo entre os mais abastados economicamente, nossos alunos são carentes. De afeto e de atenção. Mais do que saber e informação, nossa garotada precisa de quem as ouça e quem consiga falar sua língua. Para além dos recursos ¿ que eles, jovens, dominam com maestria se comparados ao mais ¿antenado¿ dos professores ¿, aspiram por referenciais, por exemplos.
O conservadorismo da escola existe e deve mergulhar mais radicalmente a perseguir seus fundamentos. Não se pode perder de vista que recursos são meios. Fins são as pessoas. TVs, vídeos e internet passarão, como passaram flanelógrafos e mimeógrafos. Professores permanecerão. Quem abrir mão de si próprio, quem se auto-substituir por um bom filme, ou quem se acomodar com documentários recentes, passará sem deixar vestígios pela vida de seus alunos.
Permanecerão os que se revelarem diante de sua sala de aula. Os que disserem o que pensam. Os que defenderem suas idéias. Os que respeitarem os posicionamentos de seus alunos. Os que souberem amar, tocar, sorrir ... Os que ficarem, enfim, na memória e no coração dos seus alunos.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 8:50 AM



Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Educação e Religião

Uma das marcas mais vivíveis no sistema educacional brasileiro é a lacuna existente entre o ensino público e o sistema privado. E, na rede privada, a distinção entre as escolas de caráter confessional e as, simplesmente, laicas. Nesse pormenor, vale o questionamento sobre a pertinência da educação religiosa nos currículos escolares. E aí - para acalorar as discussões ¿ há, por exemplo, iniciativas como as recentes decisões do governo do estado do Rio de Janeiro sobre educação religiosa na rede pública. Decisões atrapalhadas e desprovidas de leitura crítica da realidade.
A história da educação no Brasil sempre atrelou qualidade de ensino à rede privada e, como essa esteve monopolizada durante muitas décadas pelas escolas confessionais, foi natural a equivalência entre ensino confessional e ensino de qualidade.
No entanto, a garantia constitucional pela livre escolha de credo religioso não pode admitir que a escola pública perca tempo e recursos para criar um mínimo de estrutura para oferecer opções religiosas distintas aos jovens que freqüentam os bancos escolares. Tal estrutura é inviável, sobretudo num país em que religião é das áreas mais plurais e multiformes da cultura nacional. Haverá, sempre, a possibilidade de preterir essa ou aquela confissão em favor das que têm mais força política ou penetração social.
Que as famílias optantes pela rede privada escolham uma escola que condiga com suas opiniões e posições religiosas, não há nada de mau; o problema é quando a rede pública inclui educação religiosa em sua estrutura de ensino e não consegue executar tal inclusão de forma plenamente democrática e, mais grave, com profissionais realmente qualificados academicamente para a função.
Escola não é o lugar mais apropriado para educação religiosa. Religião é algo que se aprende em casa, na família. Religião é algo que toca o ser humano de forma radicalmente profunda, o que não pode ser ¿aprendido¿ numa sala de aula.
Talvez fosse mais razoável que a escola se preocupasse com ética, cidadania, arte, justiça social, educação ambiental, literatura etc. Religião, por mais belo e importante que seja ¿ e é ¿ não pode ocupar tempo escolar curricular. Primeiro porque religião não é assunto que caiba em ¿grade¿ curricular e, além disso, porque não é próprio da natureza religiosa a experiência racional que a escola deve explorar na formação dos seus alunos. Religião é algo que cabe nos arraiais da experiência pessoal, intransferível e incomunicável. Os grandes místicos e teólogos chegaram a essa conclusão há muitos séculos; diante do sagrado, o que subsiste é o silêncio.
Pretender ¿ensinar¿ religião é o mesmo que violar o direito supremo da família em cultivar com os seus a beleza do compartilhar valores e comungar alegrias e esperanças. Ficaria mais feliz se a escola se preocupasse em diversificar seus componentes curriculares de modo a oferecer aos jovens de nosso país educação e cultura que façam a diferença na vida das pessoas. Que deixasse religião para o ambiente doméstico da família e para os limites das instituições religiosas. Amém.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:10 AM



Sobre disciplina ...

Em geral, as palavras têm uma potência que extrapola os limites do dicionário. Acredito que isso ocorra porque as listas de significados são apenas retratos de um momento estanque de determinado vocábulo. Daí o caráter genérico dos dicionários. Os sentidos verdadeiros de uma palavra estão na sua dinâmica relação com aquilo que criam. As palavras não são meras retratadoras da realidade que, por meio de convenções e simbolismos, apontam os dados e dizem-nos. A palavra é a própria realidade. Antes dessa existe aquela. A realidade é o que está sendo em virtude do poder criador da palavra.
Uma palavra que sempre me causou estranheza, dada sua elasticidade, é disciplina. Serve para se referir ao comportamento adequado esperado num determinado ambiente ou para se indicar um conjunto de conteúdos estudados numa determinada área do saber. Nas escolas, disciplina é o bom comportamento discente, bem como a ¿matéria¿ a ser estudada. Creio que haja mais do que mera coincidência; ou mais do que elasticidade semântica do termo. O que está por trás da palavra é justamente as realidades almejadas por ela.
Disciplina tem a mesma raiz etimológica de discípulo. Ser disciplinado significa ser capaz de seguir orientações do mestre. Por isso, na escola, disciplina é tanto o conjunto de conhecimentos a ser aprendido quanto a prontidão e disponibilidade de comportamento que favorecem a convivência e o aprendizado. O que está em questão é uma modelagem total do caráter, desde os aspectos cognitivos até os sociais e comportamentais. Há uma clara motivação totalizadora. Disciplina é o que torna a criança recém chegada à escola um indivíduo capaz de ser treinado e equipado com conteúdos que favoreçam seu sucesso escolar.
O que é estranho nesse raciocínio é a volta que ele faz. Sai de um ponto e retorna a ele mesmo. À escola, interessa ensinar um conjunto de conhecimentos que lhes são úteis (disciplinas); para que isso seja possível, é necessária uma pré-disposição comportamental (disciplina); havendo a segunda, a primeira é alcançada. É como se pudesse ser dito assim: as disciplinas requerem disciplina! Mas está faltando algo, ou melhor, alguém. Se disciplina é palavra irmã de discípulo, onde está o mestre? Que disciplina seguir? Ser discípulo de quem?
Na resposta a tais questionamentos, há que se ter claro o papel da escola. As escolas existem para reproduzir o status quo? Ou existem para provocar o novo? Creio que haja respostas, bem como escolas, para ambos os fins. Há escolas que, simplesmente, repetem constantemente as fórmulas batidas. Há escolas, porém, que arriscam vôos diferentes. Há, inclusive, as que claudicam realisticamente entre uma e outra!
Nas primeiras, disciplina é imprescindível, porque somente através de treinamento diário, repetições incansáveis e formatações pré-definidas é que será possível manter a situação. Quem assiste um batalhão a desfilar nas paradas cívicas se impressiona com a simetria. O que parece fácil é fruto de doloroso esforço repetitivo para que todos façam a mesma coisa ao mesmo tempo, sempre. Essa é a lógica dos vestibulares, por exemplo.
Diferente dessas, há as escolas que perseguem outra disciplina. Aquela preocupada com seres humanos em busca de referência que os façam ser eles próprios, sem mimetismos. Escolas fundadas sobre verdadeiros mestres que, ao terminarem de trilhar um longo percurso com seus discípulos, dão-lhes a oportunidade de seguir por caminhos nunca antes percorridos, novos. Entre esses mestres, estão os poetas.
Sem perder de vista o fato de que as instituições escolares precisam de referenciais mínimos para sua organização interna, especialmente regras que sejam geradoras de condições de convivência, é razoável que perguntemos porque devemos sempre reproduzir esquemas anteriormente experimentados? Da mesma maneira que a ciência só emerge nova quando velhos saberes cedem ou são demolidos, relações éticas de fraternidade e convivialidade solidária só serão possíveis mediante a ruptura profunda com antigas fórmulas de hierarquia criadas para manter lugares e funções.
Acredito numa escola que esteja descomprometida com a situação. Numa escola que não tenha que responder a essa ou aquela linha filosófico-pedagógica. Numa escola que prefira os riscos do vôo à segurança do chão.
Creio que disciplina é fundamental. Não porque concorde em fomentar batalhões de meninos e meninas desfilando saberes inúteis à vida, mas porque estou convicto que, à frente de nós, é preciso sempre perseguir os passos trilhados por mestres que nos antecederam. Não para pisar sobre suas pegadas. Nem, tampouco, para repetir seus caminhos. Mas, sobretudo, para aprender a caminhar e a voar com eles.
O mais importante no que diz respeito à disciplina que tanto falta nos currículos escolares é o encantamento que os verdadeiros mestres são capazes de gerar em seus discípulos. Manter a identidade do aprendente e apontar o caminho a seguir são os desafios de uma educação verdadeiramente disciplinadora, discipuladora. Os bons mestres são os que ¿ mais do que as respostas já aventadas ¿ nos conseguem estimular perguntas ainda não cogitadas, nem mesmo por eles próprios.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:07 AM



Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Educação versus Cultura
Um divórcio de filhos analfabetos

Incomoda-me o fato de que ¿ após, no mínimo, 12 anos de estudo ¿ os concluintes da Educação Básica, em geral, escrevem mal. Não conseguem, de maneira satisfatória, expressarem-se por escrito. Pesquisas divulgadas por agências recrutadoras de profissionais ingressantes no mercado de trabalho revelam que, de cada dez candidatos recém-formados, sete não sabem a ortografia do vocábulo ¿ascensão¿, e cinco desconhecem as regras de concordância do verbo haver no sentido de existir; daí ¿haverem¿ tantos problemas na escrita! Mais de oitenta por cento dos postulantes às vagas, cada vez mais escassas, são eliminados logo no primeiro parágrafo da redação solicitada como parte da avaliação.
Estuda-se muito, não há dúvidas! Um jovem consome cerca de vinte e cinco por cento de seu tempo escolar dedicando-se à Língua pátria. Aprende-se, porém, muito pouco. Os professores que recebem alunos nas Universidades, por exemplo, escandalizam-se com a péssima qualidade dos textos por eles desenvolvidos. Daí a necessidade de disciplinas dedicadas à produção de textos, assunto que já devia estar mais do que resolvido a essa altura da vida acadêmica. Não é diferente com a Matemática. Os jovens que optam pelas carreiras tecnológicas e exatas, via de regra, são ¿convidados¿ a cursarem Cálculo ¿0¿. O que devia estar pronto da Educação Básica tem de ser revisto no Ensino Superior. Língua Portuguesa e Matemática correspondem à metade da carga horária escolar. Surpreendentemente, o que se propõem a ensinar, não ensinam bem. Há que se perguntar sobre as razões de tal discrepância.
Acredito que, no caso da Língua, o problema esteja relacionado a três fatores principais.
Em primeiro lugar, há uma questão de natureza ontológica; relacionada às raízes mais profundas das coisas e dos seres. Língua não é matéria a ser aprendida. Língua é diferente de Gramática. Essa é o conjunto de regras que um bom manual resolve. Aquela é resultado da capacidade ¿ exclusiva ¿ dos seres humanos de se comunicarem de maneira sofisticada e, a cada novo instante, inédita. Nunca se diz uma mesma coisa de uma mesma maneira. Diferente dos demais animais, os humanos se comunicam ¿ segundo Noam Chomsky ¿ de forma computacional. Isto é, o discurso é resultado de um conjunto limitado de instrumentos lingüísticos (gramática) que podem ser elaborados ilimitadamente (literatura). Não há um discurso. Há discursos. Sempre que se confundir Língua com Gramática reduzir-se-á a capacidade humana de elaborar novos discursos a um estreito universo de regras gramaticais que enclausuram e impedem a verdadeira comunicação. Penso que o estudo da Gramática deva abandonar os manuais do ¿certo e errado¿ e ajudar nossos alunos a enxergar o dinamismo desconcertante que há por trás da história evolutiva dos homens e das línguas, da capacidade humana da linguagem, do estudo comparativo dos idiomas, do processo rico e criativo da formação das palavras etc. Talvez devamos abandonar as ¿técnicas de produção de textos¿ e permitir que o gênio humano que nos identifica tome esse lugar. O texto somos nós mesmos. É importante que a escola ajude a nos expressarmos! Não há técnica para isso.
Em segundo lugar, há uma questão de natureza estética; relacionada ao fato de que a beleza é pressuposto da boa comunicação. Os publicitários descobriram essa maravilha e nos brindam, vez por outra, com peças de comunicação por via escrita que, de fato, nos desestabilizam positivamente. Sabem que a Língua é como um jogo. Os bons jogadores não são os que melhor conhecem as regras do jogo. São os que mais habilidade têm com as peças do jogo. Não sei se o Garrincha conhecia tão bem as regras do futebol como um árbitro formado em Educação Física. Mas que habilidade genial tinham aquelas pernas tortas! É importante, acredito, libertar a Literatura das amarras do livros de história da Literatura. Mais importante do que conhecer as principais características do Concretismo é ler ¿ e aprender a gostar de ler ¿ os poemas do Ferreira Gullar, por exemplo. Creio que os professores de Literatura fariam um bem inestimável se consumissem seus minutos semanais em sala de aula lendo seus textos prediletos. Eu só aprendi a amar a Filosofia e a Teologia porque me encontrei com professores e professoras apaixonados por elas. Via-se claramente em seus olhos um brilho diferente ao falar de seus assuntos preferidos. Quando descobrirmos que Literatura é arte e não ¿matéria¿ que cabe nos livros didáticos, conseguiremos vislumbrar o mundo livre dos poetas. Conhecer, nesse caso, está mais afinado com a concepção semita do que com a grega. No primeiro caso, conhecer significa ¿ter relação íntima¿, ao passo que no segundo significa ¿pensar sobre¿. Não imagino ser possível ¿conhecer¿ Brahms simplesmente lendo e raciocinando sobre o Romantismo. Nada substituirá ouvir suas sonatas.
Em terceiro lugar, há uma questão de natureza cultural; relacionada ao fato de que nossa educação está profundamente dissociada da maneira como interferimos e transformamos nosso mundo. Cultura é o que nos define como humanos. Educação é o que nos ajuda a perpetuar a Cultura e expandi-la. No Brasil, o mercado literário ¿ além de ser ínfimo se comparado a Europa ou a nossa vizinha Argentina ¿ vende setenta e cinco por cento de seus livros com títulos de auto-ajuda. Aqueles livros que ensinam que a coisa mais importante da vida é a perseverança. Os números revelam dados assustadores: enquanto há mais de 38 milhões de pessoas envolvidas na rede escolar brasileira, o lançamento de um título literário (na melhor das hipóteses) não ultrapassa uma tiragem de cinco ou dez mil exemplares! Os campeões de venda ¿ além dos de auto-ajuda ¿ são os livros didáticos, aqueles que mastigam o saber como se fosse papinha para recém nascidos. Os descalabros são tantos que há títulos, entre os didáticos, de livros ¿construtivistas¿! Até os que advogam ser o conhecimento algo a ser construído com esforço do próprio aluno cederam à sedução das facilidades do livro didático. Educação e Cultura estão divorciadas. Enquanto assim permanecerem seus filhos serão, provavelmente, traumatizados pelo abandono do pai ou da mãe!
Acredito que seja importante pensarmos porque lemos tão pouco e o que mais lemos seja de tão pouca qualidade. A escola tem parte nisso tudo, seguramente. Mas creio, por outro lado, que será por meio dela que as coisas poderão mudar. Precisamos abandonar as ¿auto-ajudas didáticas¿ e estimularmos o gênio inventivo de professores e alunos. Se a escola não o fizer, o farão outras instituições, e a escola caducará. Em países com experiência semelhante aos asiáticos, que têm se levantado agressivamente no mercado contemporâneo, é compreensível que a escola tenha se dedicado quase que exclusivamente ao ensino técnico. Lá, nas ruas e nas casas, respira-se cultura; uma cultura milenar que, querendo ou não, está entranhada em todos, mesmo nos iletrados. Aqui, nos trópicos brasileiros, é diferente. Nossos colonizadores fizeram questão de, sistematicamente, tentar eliminar nossas raízes mais profundas, sob o pretexto da ilustração e do saber erudito clássico. Não conseguiram, é verdade, mas distanciaram perversamente a escola da rua, das danças, do folclore, da fé e das expressões mais genuínas de nós mesmos. Há que aproximar, novamente, a escola de nossa cultura.
Não há dúvidas que, para tudo isso, precisamos de perseverança, mas é fundamental saber se se escreve com ¿s¿ ou com ¿c¿!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 11:32 PM




arquivo