Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Quarta-feira, Agosto 20, 2003

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postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 1:26 PM



Quinta-feira, Agosto 14, 2003

A Palavra: um oceano de palavras!

Há mais de cinco séculos em primeiro lugar na lista dos livros mais impressos, vendidos e comentados do mundo, a Bíblia, livro sagrado do judaísmo e do cristianismo, inaugurou a invenção da imprensa, e desde então já foi impressa em mais de 300 idiomas e suscitou a publicação de milhares de obras de divulgação e interpretação.
Desde os primeiros textos, escritos em rolos de papiro, até às modernas edições comentadas do século XX, a Bíblia manteve uma surpreendente vitalidade e alimentou a fé de muitos povos. Essa força decorre do permanente diálogo entre o livro, que interpela a consciência dos homens, e os homens, que o interrogam em busca de respostas a suas indagações.
A Bíblia, não obstante sua realidade como fenômeno literário e histórico, ultrapassa os limites da literatura, porque o se lê é mais do que palavra, e extrapola as cercas da história, porque o que se conta é bem mais do que acontecimento. Pode-se dizer que a atualidade da Bíblia e sua vitalidade decorrem de sua profundidade.
A Bíblia é como o oceano. Quem o vê pela superfície ou se encanta com o balanço das marés e o barulho das ondas ou se desespera com a quantidade absurda de água. Quem coloca o barco sobre as águas para navegar percebe logo que há muito mais em jogo do que a autonomia do navegante; há os ventos, as correntes marítimas, os recifes e ilhas; há águas quentes e geladas; há, enfim, um mar inteiro pela frente. Ao seu redor, somente o céu. Como já se canta há tempos na música popular: ¿não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar!¿
Quanto mais fundo se mergulha nas águas, mais se encontra beleza. A serenidade da superfície esconde com sutileza um mundo inigualável. Há quem mergulhe por esporte, há quem o faça por profissão. Mas, em qualquer caso, não há como ignorar a grandeza do mar.
Os amadores se encantam com muitas formas desconhecidas, mas correm o risco de enveredar mergulhos suicidas. Os profissionais vêem com olhos de analistas, mas, com freqüência, insensibilizam-se diante do belo.
O som das águas pode acalmar o sono de quem repousa às suas margens, mas as corredeiras impiedosas que descem das tempestades podem assustar e apavorar.
A Bíblia é um oceano. A leitura de suas palavras encanta os ouvidos mais refinados, pois sua poesia é requintadíssima: ¿Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos!¿ Sua cadência é regular como a pluralidade de personalidades dos profetas, desconcertantes e inesperados. Homens e mulheres ardorosos no combate às injustiças e inveterados proclamadores do perdão divino. ¿As vossas mãos estão cheias de sangue!¿, denunciam. ¿Não temas, porque eu estarei contigo!¿, animam.
Ainda que o mergulho nas profundezas da Bíblia possa ser encantador como os turistas que se inebriam sob as águas limpas do mar numa manhã de verão, ou árido e exaustivo como as rígidas e, às vezes, despropositadas investidas exegéticas, a Bíblia não permite que suas palavras sejam mercadorias de consumo.
Como o mar, a Bíblia é senhora de si mesma. Sua autonomia está justamente no fato de abrir-se ao seu leitor. Como o mergulhador que precisa voltar à superfície para renovar seu oxigênio, o leitor da Bíblia necessita respirar os ares de fora dela para ver melhor suas riquezas. Daí a importância dos Estudos Bíblicos, cujas raízes estão firmadas no chão que pisamos, nas ruas que vivemos e nas casas que moramos. No saber que cultivamos! Nas orações que professamos!
Se é verdade que a Bíblia é Palavra de Deus, somente o é porque há o desejo divino pela comunicação. Na Bíblia, Deus sai de si mesmo e, num ato comunicativo, alcança sua criação. Acho que não foi por outra razão que João dizia que ¿o Verbo se fez carne¿.
É indispensável respirar ar puro para renovar as descobertas do mergulho. Quando a Igreja nasceu, sob o impacto desconcertante de Pentecostes, Pedro guardava suas velhas tradições, mas foi constrangido a revê-las. ¿Mata e come!¿ Paulo descobriu-se na mais profunda e insondável riqueza e liberdade, embora estivesse preso e pobre. ¿A minha graça te basta!¿
Penso que é hora de redescobrir a Bíblia. Não como os turistas de verão que colocam só os pés nas águas mornas da costa, nem tampouco como os escafandristas que esquecem de assistir o pôr do sol preocupados com o mergulho da manhã seguinte. Acho que precisamos tomar embarcações e, destemidos, deixar os ventos do mar e suas correntezas nos levar para águas desconhecidas.Manter os olhos naquele ponto adiante onde o céu toca a terra. O horizonte. Quanto mais se navega, mais ele se distancia, mas a sua perseguição é o que nos faz navegar.
As crianças entendem bem disso: ¿Meu barco é pequeno, e grande é o mar. Jesus, segura minha mão!¿
A redescoberta da Bíblia deve deixar de considerá-la como o Livro da Igreja e recolocá-la onde nasceu: na vida concreta das pessoas. Deve humanizá-la a ponto de ser mais fácil enxergar o semblante de Deus.
A jornalista Mirian Leitão escreveu com acerto: ¿Com toda essa beleza estética, com tanta sabedoria, é impressionante que ela continue tão pouco conhecida pela maioria. A Bíblia é tão exuberante que deveria ser conquistada por todos, e cada um, em leitura mansa, calma, reflexiva. Leitura da vida inteira.¿
A Bíblia não é almanaque religioso. Nem tampouco coletânea de teologia acadêmica. A Bíblia transpira vida e como tal deve ser compreendida. Suas correntezas submersas e suas diferentes temperaturas não contradizem sua mensagem essencial, antes a plenificam de humanidade e colocam-na no seio da história.Não se pode, por isso, ignorar o caráter divino da Palavra. Os profetas se defrontaram com ele e ficaram aterrados: ¿Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros!¿
Como bons pescadores, os primeiros discípulos de Jesus intuíram esta dimensão dinâmica da Palavra. E testemunharam o que nunca deve estar perdido na memória: A Bíblia é grande, mas Deus é maior. A Bíblia é palavra de Deus, mas a Palavra transcende as páginas do Livro. Em outras palavras: ¿Jesus caminhou por sobre o mar!¿

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:09 PM



A Igreja e seus Modismos
Uma reflexão sobre o mal e suas aplicações eclesiais


Recentemente, tive uma experiência inquietante. Em visita a um casal de paroquianos, fui argüido a respeito de um relógio de parede, cuja moldura continha uma gravura de Charles Chaplin, encenando uma de suas personagens: o Carlitos. O casal questionava-me se era ¿permitido¿ usar em sua sala um ornamento como aquele, visto que um pastor havia dito que Chaplin fizera um pacto com o diabo para obter sua fama e, por essa razão, todo material relacionado a Chaplin era condenável, pois poderia ser veículo da ação demoníaca dentro do lar. Situação complicada: o relógio foi presente que o filho (já falecido) dera aos pais; tratava-se de um objeto de valor sentimental e que, de repente, fora considerado instrumento da ação satânica.
Sem dúvida, as lideranças na Igreja já se encontraram diante desses questionamentos. São gnomos pelos jardins, discos de cantores famosos que se tocados em rotação inversa trazem mensagens diabólicas, desenhos animados (Disney, Telletubies, Rei Leão etc) com presença satânica que atua sobre os telespectadores, além de outros modismos bastante intrigantes. Creio que, por falta de preparo, fugimos às respostas e não esclarecemos quanto à ilegitimidade dessas ¿doutrinas¿.
Nesse artigo, a questão será tratada do ponto de vista da teologia, sem, entretanto, preocupar-se com os pormenores dessas crendices. Buscaremos uma abordagem a respeito da presença do Mal na vida humana, suas origens e seu alcance.

I ¿ O problema em si

A questão é séria: equivoca a compreensão da fé, aliena a relação igreja-sociedade, desvirtua a comunhão com Deus, além de basear-se num falso alicerce doutrinário que concorrerá em discutíveis práticas e comportamentos.
Acreditar que o diabo utiliza objetos para atingir as pessoas e, com isso, realizar seus planos de matar, roubar e destruir é, em princípio, algo que deve ser questionado para não cairmos em crendices e superstições (sim, superstições evangélicas!).

II ¿ Examinando

Vejamos o exemplo de Gn 2 e 3. Adão e Eva são criados por Deus e colocados num jardim para terem sustento e vida abundante. Havia apenas a restrição que não se comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus habitava com os seres humanos e não havia impedimento que os afastasse. No capítulo 3, uma serpente dialoga com Eva e convence-a de que comer o fruto seria conhecer o bem o e mal como Deus conhecia e, assim, ser como Ele. Eles comem do fruto e escondem-se um do outro, fogem da presença de Deus e saem do jardim.
Essa história é clara: a desobediência e a responsabilidade pelos males decorrentes são exclusivamente humanas. Adão e Eva não foram obrigados pela serpente; foram eles que, em sua liberdade irrestrita, decidiram seus destinos. Para o AT, Deus nos fez livres, e são nossos atos, opções e decisões que, individual e coletivamente, norteiam nossos caminhos. O homem, em suas relações fundamentais - consigo mesmo, com o semelhante, com a natureza e com Deus -, é chamado a ser ético. Tudo que fizer ¿ bem ou mal - de alguma forma, retorna como conseqüência embutida nas próprias ações.
Em outras palavras: a ação satânica por meio da serpente (Ap.12,9) em Adão e Eva não foi automática; houve o consentimento e a adesão humana na concretização do mal. Foi necessária a desobediência humana aos preceitos divinos para que se prevalecesse o mal.
Não devemos, no entanto, ser reducionistas: há males que estão além de nossa decisão; existem a despeito de nós.

III ¿ Aprofundando

Vejamos outro exemplo: Jó, um homem justo e fiel a Deus é tocado pelo mal sem, no entanto, haver em sua conduta razão que gerasse os sofrimentos. Nessa história, a sabedoria judaica mergulha profundo na compreensão da condição humana. Há males que acontecem a despeito de nossa vontade e de nosso comportamento. Somente uma profunda reflexão dialogal com nosso semelhantes (Jó 3 ss.) e uma intensa experiência com Deus (Jó 42,5: ¿Conhecia-Te só de ouvidos, mas agora viram-Te os meus olhos.¿) fazem-nos compreender o que não tem razão de ser.
Nessa ótica, é razoável fazer uma outra leitura do Gênesis. Deus criara o homem, como fez com os animais, no sexto dia da criação. O homem é criado no mesmo dia que os animais, mas há uma diferença: ¿façamos o homem, à nossa imagem, conforme à nossa semelhança¿ (Gn 1,26).
Como os demais seres do reino animal, nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos. Mas isso não nos basta, temos sede de algo maior. Diferente dos animais, nossa pele não é nosso limite, somos transcendentes. Embora estejamos intrinsecamente ligados à condição animal, ela não dá conta de nos explicar; somos maiores, portamos algo que nos aproxima do Criador, a criatividade e a espiritualidade.
Mas é inegável que tal criatividade, por vezes, é utilizada de maneira lastimável. As mesmas mãos capazes de acariciar uma criança são capazes de fabricar uma bomba nuclear. Isso quer dizer que nossa condição humana está marcada pela ambigüidade. Somos bons e maus ao mesmo tempo e, por conseqüência, assim também é o nosso mundo, uma mescla desequilibrada de bem e mal. Para além de qualquer dicotomia, trata-se da dinâmica inerente à condição criatural.
Por isso, comeu-se aquele fruto. Nossa semelhança do Criador não nos permitia estagnarmos como animal, vivendo inerte no jardim, ao lado dos animais e de Deus. Para sermos humanos, deveríamos dar um salto, transcender aos animais, correndo o risco, no entanto, de afastar-se de Deus.

IV ¿ Compreendendo

Dessa forma, é impossível pensar a possessão demoníaca em objetos e a influência negativa que os objetos poderiam exercer sobre as pessoas. Além de um desafio à lógica, seria atribuir ao diabo um poder que ele não tem e reduzir a vida humana a uma marionete, sem liberdade.
No AT, p. ex., Satan é um termo utilizado para designar o adversário. Não se trata de um ser espiritual maligno. Em 1 Cr 21,1, o termo é empregado para substituir a expressão ¿ira de Deus¿ que aparece em 2 Sm 24,1. Em Zc 3,2, Satan é um membro da corte celeste (cf. Jó 1-2). Interessante é o caso de 1 Sm 29,4 onde os príncipes filisteus exclamam com relação a Davi: ¿que ele não se torne contra nós (satan) no combate¿. Mais esclarecedor ainda é o exemplo de Nm 22,32 onde termo satan é usado para designar uma ação do anjo de Deus (ou seja, o próprio Deus) no caminho de Balaão. ¿Eis que eu saí como teu adversário (satan) ...¿
No NT, nunca encontramos possessão demoníaca em objetos e/ou por meio deles. Os casos de possessão em pessoas são sinais para salientar o poder de Cristo sobre todas as coisas, bem como são os milagres: sinais visíveis do Reino.
Quer acreditemos em demônios como seres pessoais sobrenaturais, quer pensemos neles como personificação mítica do mal , em nenhum dos casos é adequado atribuir-lhes qualquer atividade sobre a vida humana sem a devida permissão. Me lembro de Agostinho: ¿Se o diabo, em sua iniciativa, pudesse qualquer coisa, não restaria sequer um homem sobre a face da terra.¿

Concluindo

Diante das evidências bíblicas que nos garantem a inoperância diabólica de maneira autônoma sobre a vida humana, resta-nos, então, perguntar-nos sobre as raízes de uma pregação firmada na divulgação das ações demoníacas.
Em primeiro lugar, deve-se destacar a má formação bíblico-doutrinária que alimenta a espiritualidade crente nesse tipo de superstição.
Em segundo lugar, salientamos as raízes fundamentalistas dessas orientações religiosas. Nos EUA, p.ex., o boicote que a Igreja Batista fez para com a DisneyWorld (em virtude do parque ter destinado um dia para visita exclusiva de homossexuais) chegou no Brasil disfarçado pela crença em demônios que infestam as personagens Disney.
Por fim, não podemos esquecer a manipulação religiosa que está por trás de uma ¿evangelização¿ baseada no medo do demônio. Ao invés de se proporcionar a convicção pessoal na soberania de Deus, geramos uma espiritualidade fundada sobre o medo, cujas expressões estão presentes em práticas como desencantamentos, orações fortes, correntes etc.
Deus nos criou à sua imagem, à sua semelhança. Mas, a diferença dEle, somos radicalmente ambíguos e contraditórios. No entanto, aspiramos por um mundo melhor, lutamos, vivemos e morremos por isso. Na morte e ressurreição de Cristo, está evidente: se enfrentamos as agruras da vida e não deixamos de observar a vocação do Reino de Deus, seremos vencedores. Não se trata de viver acima do bem e do mal, ao contrário, é uma questão de olhar para frente e vislumbrar o Reino, utopia possível da caminhada. Lembro-me de uma frase que ouvi e não sei citar sua fonte: ¿Devemos agir como se tudo dependesse somente de nós e devemos esperar como se tudo dependesse somente de Deus.¿

Ricardo Lengruber Lobosco

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:01 PM



(Des)arrumações ...

Há dias que a vida nos pega e vira tudo de cabeça para baixo. É como se alguém quisesse arrumar a casa e, para tal, jogasse tudo para fora dos cômodos, dos ármarios e das gavetas. Sai muita coisa a ser descartada; outras, no entanto, são revistas e a memória se acende. O problema é quando, nessas arrumações esquizofrênicas, a vida resolve descartar o que parece ainda necessário e marca aquelas peças intocadas até então que guardávamos há tempos nos baús de documentos.
É isso. Parece que a vida é uma casa em arrumação.
Me lembro de uma vez que resolvi arrumar uns guardados e, no afã de organizar melhor as coisas e otimizar o espaço, descartei inúmeros papéis e objetos. Dias depois, levantei-me de uma madorna de depois do almoço e vi perfeitamente na sacola de lixo ¿ que depois tornara-se uma bela fogueira ¿ uma fita VHS com uma apresentação musical que preparei com colegas e que havia talvez apenas aquele registro.
A lembrança da fita VHS só me fez trazer à memória a certeza que o tempo iria apagar gradualmente as imagens daqueles sons. Por outro lado, entretanto, o ato de me lembrar do que já está esquecido na fogueira consumidora do objeto é a única forma que tenho de ouvir novamente aquelas notas musicais.
Na igreja, diz-se que sacramento é ¿um sinal visível de uma graça invisível¿. Discordo: acho justamente o contrário. Sacramentos são os sinais invisíveis pelos quais vemos o inacessível aos olhos e mergulhamos naquele abismo sob a corda bamba da vida.
Quem se dispõe a viver, se coloca numa corda bamba sobre um abismo infinito. Há que se caminhar, porém ... quantos são os medos de quem não é equilibrista?
Só consigo me lembrar com nitidez daquela noite de alegria e música, porque não há nada de palpável para me fazer lembrar dela. Há, apenas, a memória.
Acho que isso me ajuda a entender ou a experimentar melhor minha fé.
Leio muito a Bíblia; estudo-a e não consigo ver através dela nada que meus olhos já não tenham visto. Acho que a religião é um óculos natural com o qual nascemos e vamos aprendendo aos poucos a ajustar suas lentes.
Quando um guardado precisoso das prateleiras é jogado fora e lamentamos o equívoco, apelamos para a religião, para a fé, na busca de uma resposta. Por quê?
Não concordo com a idéia que Deus puna os erros de quem não sabe caminhar na corda bamba. O abismo não é castigo. Pelo contrário, quem cai no abismo está mais perto de Deus. Mergulha o infinito. Penso que somos gente de propósitos infinitos. Por isso, sempre fracassamos. Quem alça o céu, sempre se esborracha na terra. Mas voa ...
Deus não conhece a Matemática e, nem tampouco, o Direito. Deus é Amor. Amar é bem diferente de fazer contas de acertos ou acerto de contas. É bem verdade que o amor está mais para a ditadura do que para a democracia. Mas nada melhor que ser amado ditatorialmente a escolher por quem ser amado e a quem amar.
Não gosto, também, da idéia que Deus, por seu amor, sacode as prateleiras e abre as gavetas da vida para nos forçar a jogar fora os excessos e ensinar-nos seus caminhos. Ora veja, que pedagogia mais estranha! Adestramento!? Pode até ser que se aprenda muito com as lágrimas, mas não é Deus quem nos ensina com elas. Não sei que rosto daria para Deus se fosse um pintor mas só consigo vê-lo sorrindo para mim, comigo, de mim...
Mas, assim, há problemas sérios com minha fé. Sempre me ensinaram que Deus sabe de tudo, pode tudo e está em tudo. Se é verdade, onde estava Deus quando joguei fora o que não devia e com cuja perda não aprendi nada? Por que não impediu? Por que não agiu?
A Teologia tem boas respostas para isso. ¿Deus é onipotente, onisciente e onipresente; mas criou o Homem à sua imagem e lhe concedeu ampla e irrestrita liberdade¿ Ponto.
Tenho minhas dúvidas ...
Sei que sou livre e que meus atos não têm nada que ver com as coisas que sucedem em minha caminahda. Já vi muitos bêbados caminharem pela corda bamba como quem desfila em passarela e já vi muitos artistas de circo que equilibram-se em penhascos caírem numa simples caminhada matinal por um vento mais forte que lhes sobreveio.
¿Cada um colhe o que planta!¿ Oh! Bela mentira!
A vida possui belezas inenarráveis. Como é bom poder sentar e conversar com amantes e amigos sobre as coisas. Só não se pode marcar dia e lugar. Aí, não dá certo. As melhores festas e encontros são casuais e irrepetíveis. Preenchem aquele momento e se esvaem como água por entre os dedos. Não dá para fotografar e guardar. Perdem-se literalmente!
Da mesma maneira, possui a vida tristezas inexplicáveis. Do mesmo jeito que só consigo ver Deus sorrindo comigo nas minhas satisfações, só consigo sentí-lo segurando mais forte minhas mãos quando sofro. Acho que são dele as lágrimas que não sei porque choro diante da irracionalidade de certos males.
O meu Deus é bem diferente, eu acho, do deus das religiões. A minha religião me faz ligado (re-ligare) de novo a mim mesmo. Não há mais ninguém para quem olhar. Me faz ler (re-ligiere), recitar melhor os versos sem redondilhas e métrica que os incômodos das arrumações dos cômodos me fazem acomodar nas fogueiras de lixo.
Descobri que não são lixo. Fizeram-se fumaça para voar. Fracassam, mas voam ...
O meu Deus não é onipresente. Está, apenas, onde estou. Não é onisciente. Sabe, apenas, do que eu sei (que são as únicas coisas que existem). Não é onipotente. Pode, apenas, sorrir e chorar comigo.
Acho que vale a pena arriscar dar mais um passo na corda ...
Ricardo Lengruber Lobosco
Friburgo, inverno de 2003.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:00 PM



Por que é importante aprender as Línguas Bíblicas?

Quando o estudante chega ao Curso de Teologia, uma de suas primeiras experiências é a de conhecer as disciplinas que estudará ao longo do Curso. E, nesse momento, depara-se com o Hebraico e, mais tarde, com o Grego.
Para alguns, é instigante. Imaginem: aprender uma língua completamente diferente de tudo que a maioria das pessoas com quem convivemos sabe. Além disso, trata-se de um desafio intelectual muito provocador.
Outros, de início, terão repulsa e já começarão o processo com uma certa má vontade e com aquela pergunta sempre ecoando: por que estudar essas línguas? A Bíblia já não está traduzida? Será que eu vou ser capaz de fazer traduções e análises melhor do que as que são feitas pelos exegetas profissionais?
Porém, como regra é regra, as aulas iniciam e o encontro com a disciplina acontece. Nesse instante, duas impressões ficam bem registradas.
A primeira tem a ver com a matéria propriamente dita. A primeira lição, em geral, é o Alfabeto. Puxa vida! Que coisa estranha! Será que vou conseguir?
A segunda tem a ver com o(a) professor(a). Sabemos que a empatia à primeira vista entre pessoas antes não conhecidas é determinante para muito do processo que está sendo inaugurado. Houve simpatia? Que bom! Não? Temos mais um problema a atrapalhar a caminhada!
Obviamente que essas impressões ocorrem, mas não são a regra absoluta. Há aqueles que se sentem desafiados de uma maneira tal que a aula parece durar pouco e já percebem a escassez de tempo que têm pela frente! São aqueles que vão estudar apaixonadamente, ainda que sem entender bem exatamente o porquê de todo aquele esforço.
Entendo, no entanto, que quando conhecemos as razões que nos fazem estudar Grego e Hebraico no Curso de Teologia, torna-se mais fácil encarar as dificuldades inerentes ao processo e avançar com mais seriedade e tranqüilidade pelos estudos.
Primeiramente, deve-se apresentar a estrutura do Curso. Há quatro áreas bem definidas: Bíblia, Teologia, História e Pastoral. Se me permitem uma ilustração, pode-se dizer que a Bíblia representa os pés e pernas do Corpo, enquanto a Teologia representa o tronco com seus órgãos essenciais à vida; a História ilustra bem as experiências de vida que este indivíduo carrega nas costas, ao passo que a Pastoral funciona bem como os braços e mãos do sujeito que age e reage.
A tarefa dos estudos na área de Bíblia dividem-se em Introdução, Métodos de Estudos, Exegese e Teologia. Constroem um edifício cuja fachada só será vista em sua plenitude na Teologia do AT ou na Teologia do NT. A Introdução preocupar-se-á com a Bíblia enquanto literatura, sua história de formação e seu processo de redação. Métodos de Estudos e Exegese serão disciplinas voltadas de maneira mais direta às questões de análise dos textos e interpretação. Lá no fim, as Teologias do At e do NT coroarão o processo, mostrando a estreita relação da Bíblia com a Teologia Sistemática e com a Pastoral.
É justamente no início deste longo processo que estão situadas as línguas. Voltando à ilustração do Corpo, se é verdade que a Bíblia constitui pernas e pés, é verdade também que o Hebraico e Grego representam o solo que estes pés pisam. Não é possível estudar a Bíblia e ignorar o fato de que foi escrita em línguas bem diferente da nossa e que essa diferença não se dá só no aspecto gramatical, mas, sobretudo, em questões culturais.
Sabe-se que muito de uma cultura está representado na linguagem de seu povo. As palavras, as expressões idiomáticas, as construções verbais, as gírias, a preferência por determinadas estruturas. Tudo isto é determinante quando se trata de analisar uma cultura e suas produções.
A Bíblia ¿ e sua longa história de mais de um milênio, há mais de dois mil anos atrás ¿ só pode ser verdadeiramente compreendida quando se tem me mente as distâncias que estão entre nós e ela. A primeira a ser considerada é justamente a do idioma.
Vale outra comparação. A língua é uma rede que lançamos sobre a realidade para apreendê-la em forma de texto. Quando traduzimos esse texto para um outro idioma, lançamos uma rede diferente, cuja malha não coincidirá com a da primeira rede. Haverá uma forma nova e diferente de abordar a mesma realidade, mas que, ao mesmo tempo, já deixou de ser realidade concreta para quem traduz. Em outras palavras: mais do que enfrentar a mudança de língua, a Bíblia traduzida enfrenta a diferença de cultura, de história, de experiência. Daí a importância e a sofisticação cada vez mais aprofundada dos Estudos Científicos e Pastorais da Bíblia.
O(a) aluno(a) que ingressa no Curso de Teologia deve ter em mente o fato que enveredará por um caminho bem mais amplo no trato da Escritura. Deixará de ser um leitor somente devocional e inaugurará uma etapa de investigação sistemática, regrada e metódica. Tudo isto para elucidar suas dúvidas e de seus ouvintes, bem como para poder navegar sobre as águas, às vezes, turbulentas e agitadas de certas passagens.
O que se espera com o estudo das línguas bíblicas não é o domínio de leitura, escrita, tradução, compreensão e conversação como nos idiomas modernos. Entendemos que duas coisas são inegociáveis: 1. saber consultar as edições críticas do AT e do NT (¿originais¿) e 2. saber fazer uma tradução literal cuja finalidade é defrontá-la com as inúmeras traduções que possuímos, na tentativa de avaliá-las e enriquecê-las com informações que o tradutor é incapaz de exprimir com palavras.
Se ao final do processo de aprendizagem do Hebraico e do Grego, isso for possível, podemos nos dar por satisfeitos!
É tão bom quando, ao preparar um Estudo Bíblico ou uma Pregação, gastamos tempo analisando o texto e descobrimos um pequeno detalhe lingüístico ou semântico que abre uma infinidade de portas para descobrirmos coisas boas e novas sobre o texto.
É gratificante poder abrir um Dicionário Teológico e estudar sobre a palavra que Deuteronômio usa para dizer: ¿Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é um Deus!¿ A palavra utilizada é mais que um ou único; representa a integridade do divino e suas conseqüências para o povo que ouve esse alerta. Ou, quando, por exemplo, Jesus diz no Quarto Evangelho: ¿E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco!¿ Que é que Jesus quer dizer com a palavra ¿parákletos¿?
Não adianta servir-se dos comentários simplesmente. Eles são úteis e indispensáveis, mas não são suficientes. Primeiro porque traduzem as intenções conscientes e inconscientes de seus autores. Segundo porque, em geral, originaram-se em situações histórico-culturais bem diferentes da nossa (a maioria dos bons exegetas são europeus).
O(a) estudante de Teologia, o(a) Teólogo(a) Leigo(a) e o(a) Pastor(a) devem saber em que chão estão pisando. É claro que o tempo vai definir suas melhores aptidões, se para a Teologia Sistemática ou para a História, se para a Bíblia ou para a Pastoral. Mas, em qualquer caso, o mínimo fundamental, o núcleo fundante de cada uma dessas grandes áreas deve ser dominado com tranqüilidade.
Dentre todos(as), alguns decidirão pelo aprofundamento dos Estudos Bíblicos e, quem sabe, seguirão estudos de Pós nesta área. Aí, sim, será indispensável o domínio mais profundo das línguas e das técnicas de exegese. Mas o tempo mostrará. Por hora, vale salientar que estudar as línguas significa conhecer melhor o chão que estamos pisando.
Duas questões para terminar: 1. o chão que pisamos define com precisão o caminho que queremos trilhar. Se não sabemos que chão é o nosso, não temos caminho, enfim, não conseguimos caminhar. Acho que foi Shakespeare quem disse: ¿se não sabemos para onde ir, não importa o caminho a tomar, qualquer um serve¿! 2. falamos de pés, pernas, tronco, braços e mãos. Lembrem-se: Jesus continua sendo o Cabeça!
Um abraço fraterno e bom estudo!


Professor Ricardo Lengruber Lobosco

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 11:58 AM




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