Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Domingo, Janeiro 09, 2005

Fé e Política

Surgiram muitas perguntas sobre a escolha certa nas últimas eleições. Questões que visitam os cidadãos de boa fé, pois do cenário de candidatos, cada vez mais comum é a presença dos religiosos. São "irmãos", "pastores" e "bispos" que se apresentam como representantes dos evangélicos, mas também não faltam os ditos representantes católicos.
Vivemos numa nação cuja aspiração de sua constituição é instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. A presença de candidatos representantes de um determinado grupo religioso, embora legal, parece não condizente com o estágio político e civil em que queremos nos encontrar. A presença na vida pública deve ser mensurada não pela religião, antes pelo posicionamento ético e pelo comprometimento com os mais fracos. Uma das grandes conquistas da modernidade foi a separação entre religião e política.
Está claro que todos somos movidos pela fé. O que nos move é algo que transcende os limites do simples desejo ou das simples condições. Somos inquietos com nossa condição. Desejamos transcendê-la. Assim, não há quem mergulhe em qualquer carreira que não esteja tocado por uma fagulha mínima de fé. E o mesmo ocorre na vida política. Porém, associar mecanicamente a denominação religiosa à opção eleitoral pode ser um equívoco completo. O melhor candidato não é o que comunga da mesma fé que eu, mas aquele capaz de lidar com a pluralidade, capaz de tratar democraticamente os recursos públicos, capaz de agir justamente mesmo com aqueles cuja religião seja muito diferente da sua.
Os grupos evangélicos envolvidos na política nacional são movidos por uma profunda marca do protestantismo no Brasil - o fundamentalismo; uma espécie de absolutização da fé, para quem nada pode ser tolerado fora dos ditames tradicionais daquela expressão religiosa. Daí, por exemplo, os constantes desafetos entre ciência e fé. A ciência se apresenta como inimiga da fé, pois questiona e critica. O fundamentalismo não é capaz de entender que a fé lida com a realidade de modo metafórico e simbólico, porque pretende sempre transcender. Belo exemplo disso é a coleção de poesias e alegorias encontradas nas páginas da Bíblia. Quem quer ler a Bíblia no seu devido lugar deve compreender seu caráter metafórico, caso contrário, corre o risco de absolutizá-la, colocá-la contra conquistas históricas da humanidade e, mais sério, fazê-la antipática ao mundo moderno.
Parece que a experiência de rejeição sofrida pelo protestantismo recém chegado ao Brasil em fins do século XIX fez emergir uma religião de conflito com a sociedade. Pertencer a uma confissão evangélica é deixar "o mundo"; leia-se "deixar a vida social". O fundamentalismo encontrou terreno fértil em nossos templos evangélicos, pois fornecia armas potentes na luta contra esse ¿mundo¿. Nos últimos anos, o cenário mudou e os evangélicos alcançaram um número significativo de fiéis, mas permanecem contra a cultura nacional e querem representação política na flagrante tentativa de marcar posição numa nação que olha para "os crentes" com um misto de perplexidade, desinformação e preconceito.
De modo semelhante, não posso admitir que, em pleno século XXI, a Igreja Católica ainda queira ditar normas numa sociedade laica e democrática. Por que tanto alarde quando se fala dos inúmeros problemas envolvendo o aborto ou, ainda, o divórcio? Por que tanta obscuridade sobre o tema dos preservativos e dos métodos anticonceptivos, numa sociedade marcada pela má distribuição de renda, pelas famílias abandonadas nas ruas, pelas cifras alarmantes das doenças sexualmente transmissíveis?
Não vejo muita diferença do fundamentalismo evangélico que lê a Bíblia ¿ao pé da letra¿, dessa postura católica de rejeição ao aborto dos fetos sem cérebro, ou da possibilidade do divórcio, ou, ainda, da necessidade de planejamento familiar e prevenção de doenças sexuais. Num país como o nosso, com tanta dificuldade econômica, me parece - no mínimo - estranho que tenhamos tantos feriados e boa parte deles seja de cunho religioso e, pior, de uma única denominação religiosa!
Entendo que as religiões têm o papel de sinalizar um mundo melhor para cada ser humano e apontar caminhos mais dignos para a vida. Reconheço, ainda, o direito das igrejas em pregarem suas doutrinas e suas visões de mundo e fazerem as exigências que lhes aprouver a seus fiéis, mas não posso concordar que essas visões específicas de cada grupo religioso se tornem regra para a sociedade como um todo. Tenho minhas convicções, mas devo respeitar e reconhecer o valor das convicções alheias.
A questão é que todo e qualquer tipo de inflexibilidade religiosa, mais do que assegurar a ¿sã doutrina¿, mutila e afasta os homens e mulheres de boa fé cada vez para mais longe das igrejas.
As preocupações religiosas alojaram-se apenas nos arraiais do assunto ¿espiritual¿ e nada tocam na vida efetiva das pessoas. Criou-se uma redoma isolada de tudo, onde falsas espiritualidades se constroem e absorvem de tal modo as pessoas a ponto de faze-las absolutamente inertes ao seu mundo real. As preocupações restringem-se ao âmbito do moral e desconhecem - não obstante as poucas vozes de sanidade dentro e fora das igrejas - os problemas da vida real das pessoas.
Além disso, há que se lembrar a indiferença que esses grupos fazem no cenário político. Não me lembro de ter lido nada sobre os bons exemplos cristãos e éticos dados pelos políticos religiosos e, ainda mais, creio que nossos problemas sociais não foram minimizados por causa do crescimento evangélico. Essa presença é apenas a representação de mais um grupo da sociedade brasileira nas esferas do poder. Não há - o que seria, ao menos, esperado - diferença do político tradicional e dos novos representantes do "povo de Deus"!
Por isso, não quis fazer da minha fé uma regra universal, incapaz de dialogar, de ouvir e de aprender. Não quis votar nos candidatos simplesmente porque se apresentam como religiosos - não que os considere desonestos ou incompetentes -, mas porque não estou convencido de que ética e honestidade sejam atributos exclusivamente cristãos ou, muito menos, evangélicos; creio que são virtudes humanas universais, que vislumbro em Cristo (fundamento de minha fé), mas também em Buda, em Maomé, em Gandhi e em tantos outros, a despeito de seus coloridos religiosos.
Não votei em ¿religiosos¿ - sejam católicos ou evangélicos - porque estou convencido de que políticos que se prezam não se apresentam como representantes desse ou daquele grupo, mas como homens e mulheres desejosos - pela via do diálogo - de construir um novo mundo!
Estou certo de que as igrejas têm um papel importante na vida social e por isso vivo ecumenicamente minha fé, com profundo respeito por meus irmãos evangélicos, católicos, espíritas etc. Mas não posso me calar quando se faz do altar, palanque eleitoral! A missão fundante da Igreja é o anúncio do amor de Deus pelos homens e sua infinita misericórdia, que perdoa, tolera e acolhe.
Espero que nossas decisões estejam sempre iluminadas pela fé que comungamos a tal ponto de podermos ajudar a transformar nossa nação, nosso mundo; mas, nunca, que essa fé seja razão de separação, de ódio e de guerra. É hora de anunciarmos com bravura a dimensão ecumênica do evangelho de Jesus Cristo.
Não quis votar nem em evangélicos, nem em católicos, nem em espíritas ... Quis votar em homens e mulheres de boa fé!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM




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