Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Terça-feira, Setembro 13, 2005
A escola que desejo para o meu filho
Educação é, para muitos, sinônimo de trabalho escolar, de aulas e de recursos bem elaborados. Penso diferente. Educação é o que torna o ser humano o que ele deve ser. Somos humanos porque transcendemos o universo da natureza e mergulhamos no mundo dos sonhos. Sim, somos humanos porque sonhamos, porque imaginamos, porque conseguimos construir mundos inteiros sem dar um passo. O que nos difere dos animais não é, simplesmente, é a capacidade racional. É, isto sim, a possibilidade de, pelo uso da razão e dos sentidos, transformar o mundo que nos cerca e fazê-lo nosso, totalmente diferente, segundo nossas necessidades. Isso é cultura. Isso é educação.
Educação é, por causa disso, o conjunto de ações que favorecem o despertamento dessa qualidade exclusiva dos seres humanos, a criatividade. Qualquer coisa que não promova a criação não é educação.
Vale, assim, pensar sobre a educação que usufruímos no cotidiano escolar. Aprendemos Língua Portuguesa porque queremos nos expressar melhor e, por intermédio do que há de mais sofisticado na cultura humana, a linguagem, transformar nosso mundo. Porém, preferimos os substantivos, verbos, orações, regras e ortografias em detrimento da leitura desinteressada. Valorizamos mais procurar ¿o que o autor queria dizer (!!!)¿ do que apreciar Lobato como quem ouve Brahms ou Villa-Lobos.
Aprendemos Matemática e as Ciências porque consideremos razoavelmente importante transitar bem no arraial dos números. Mas mesmo os engenheiros mais bem formados e dedicados visceralmente a sua ciência não usam as ¿equações do segundo grau¿ como fazem os alunos nos bancos escolares, que só usam caneta, papel e memória dilatada para saber fórmulas sofisticadas. Porque são responsáveis e inteligentes usam calculadoras e computadores, que, aliás, são resultado da própria inteligência humana. E não erram. Fico imaginando um projetista de estruturas prediais errando seus cálculos por puro preciosismo acadêmico, em vez de entregar-se aos benefícios da tecnologia moderna.
Aprendemos História e Geografia porque queremos compreender melhor nossa sociedade. Mas parece minimamente estranho saber o nome dos afluentes da margem direita e os da margem esquerda do Amazonas. Ou, por exemplo, saber o ano em que nasceu Tiradentes. Ou, ainda, a diferença de um monte e uma montanha. Prefiro acessar a internet, ou ler enciclopédias, atrás desses conhecimentos acumulados pelo tempo. Esses recursos são mais competentes do que a maioria esmagadora da literatura didática. Na escola do meu filho, prefiro que se desenvolva sua criatividade, ou, ao menos, não atrapalhem-na a florescer. Curiosidades amenas ¿ se assim desejar ¿ ele as busca por conta própria.
Creio que o problema esteja no currículo escolar. O engessamento das disciplinas proíbe qualquer vôo mais ousado. Apesar da boa vontade e criatividade dos bons mestres, fica praticamente impossível permitir às crianças que descubram o prazer que há na construção de mundos novos. Isso porque na escola ¿ tal como ele se nos apresenta ¿ não há essa possibilidade. Ficou proibido construir possibilidades novas que comprometam o cumprimentos dos ¿objetivos propostos no plano de curso¿. Da maneira como pensamos a educação, está decretada a mediocridade humana. Ficaremos a meio caminho da vida como nos foi dada pela natureza e da vida como sonhamos. Permaneceremos estacionados.
O vestibular é a coroação suprema dessa mediocridade. Tudo gira em torno dele e para ele. Mas é preciso lembrar que vestibular não é assunto de educação. Vestibular é problema político. Porque não há vagas para todos nas Universidades, criou-se a perversa necessidade da avaliação.
O problema ¿ ou a vantagem disso tudo - é que o ser humano não se acomoda facilmente. A vida aspira por subir mais alto e por mergulhar mais profundamente. Se não for na escola o lugar em que possamos encontrar tais possibilidades, o faremos fora; na rua, no cinema, na roda de amigos ...
Queria que meu filho estudasse numa escola onde pudesse aprender as línguas dos outros, para compreender melhor seus semelhantes, por mais distantes que estivessem. Gostaria que aprendesse sobre o canto dos pássaros, para respeitar mais o mundo que o cerca e aprender a ouvir música de boa qualidade. Ficaria muito feliz com uma hora de contação de histórias divertidas que o levasse a visitar mundos imaginários. Adoraria saber que ele passou uma tarde inteira brincando enquanto ouvia o Quebra Nozes. Me sentiria tranqüilo ao saber que ele se interessou por culinária ou por jardinagem.
Acho que é isso. Ao invés de ser o lugar onde se recebe informações, a escola do meu filho deveria ser a oportunidade de transcendência, de ser ele mesmo.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:07 PM
Ser cristão, metodista e ecumêncio
Quando me apresento como pastor metodista, me perguntam acerca dessa ¿doutrina¿. Pouco se sabe, infelizmente, sobre o tema.
A Igreja Metodista é parte da Igreja Cristã. Nasceu na Inglaterra, no século XVIII, e tomou corpo mais formal nos EUA durante o século XIX. Surgiu como uma reforma da Igreja Anglicana ¿ a Igreja oficial do Reino Unido ¿ e tinha por principais pilares: o reacendimento da vida espiritual e a inclusão dos marginalizados pelo sistema vigente motivada pelo despertamento da igreja para as questões de ordem sócio-econômica.
A Igreja Metodista não nasceu, simplesmente, como uma divisão da Igreja Anglicana. Nasceu como movimento de reforma e releitura dos fundamentos daquela Igreja. Foi, somente, com a independência dos EUA, no final do século XVIII, que o movimento metodista já instalado nas terras americanas, viu-se obrigado a proclamar independência da Igreja inglesa, tal como acontecera com as colônias norte-americanas.
O primeiro dos pilares do movimento metodista foi o reacendimento da vida espiritual dos cristãos. Para os metodistas originários, havia urgência em reviver as experiências mais fundamentais da fé. Experiências de oração, jejum, leitura meditativa da Bíblia e observância mais detida dos mandamentos divinos. Nesse contexto, a Igreja Metodista proporcionou um verdadeiro avivamento religioso na Inglaterra marcada pelas durezas e injustiças sociais da Revolução Industrial. Ser Metodista é, antes de tudo, cultivar uma vida espiritual de humildade, transparência e temor a Deus.
Em segundo lugar, a Igreja Metodista nasceu com a incansável luta pela inclusão dos marginalizados pelo sistema. Com o crescimento urbano originado pela Revolução Industrial e o rápido êxodo rural provocado, as condições de vida tornavam-se cada vez mais desumanas. A jornada de trabalho excedia às 14 horas diárias; crianças trabalhavam indiscriminadamente; os salários sequer correspondiam às necessidades mais elementares de sobrevivência. O movimento metodista surgiu como voz crítica e denunciadora de tais excessos. Foi porta-voz dos mais fracos e, pela via do diálogo e das lutas pacíficas, contribuiu para reformas sociais importantes, tanto nas questões trabalhistas como de assistência social. Foi nas dependências de uma igreja metodista nascente que surgiu a primeira escola destinada a crianças pobres, com o objetivo de ensinar-lhes a ler e escrever. Ser Metodista é, também, ter uma experiência religiosa que transborda os muros da igreja e nos coloca nas ruas, onde os problemas reais estão e para onde devem estar voltados nossos olhos, nossa atenção e, sobretudo, nossa prática. Nas palavras de John Wesley ¿ precursor do movimento metodista ¿ ¿o mundo é a nossa paróquia¿!
Por fim, há que se registrar que a Igreja Metodista é cristã, evangélica, reformada e ecumênica.
É cristã porque reconhece Jesus Cristo, filho de Deus, como único caminho de salvação. Dessa maneira, se une a todos os ramos da Igreja de Cristo espalhada pelo mundo. Desde Católicos Romanos a Ortodoxos gregos, de Episcopais ingleses a Luteranos alemães, de Batistas norte-americanos a Pentecostais latino-americanos.
É evangélica porque reconhece na Bíblia (tanto no Antigo como no Novo Testamento) a Palavra de Deus e vê nos Evangelhos de Jesus Cristo o cerne da Palavra de Deus destinada aos homens. Baseia sua fé nos princípios evangélicos.
É reformada porque é herdeira do movimento protestante nascido no século XVI de releitura dos fundamentos da Igreja Cristã. Reconhece a salvação dos homens única e exclusivamente pela Graça de Deus e, não, pelos méritos ou obras humanas.
É ecumênica porque não se compreende como a única detentora da verdade, mas admite verdade e salvação em outras igrejas irmãs que amam a Deus sobre todas as coisas e reconhecem a Jesus Cristo como filho de Deus, salvador dos homens. Nesse sentido, a Igreja Metodista é membro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), ao lado da Igreja Episcopal Anglicana, da Igreja Católica, da Igreja Ortodoxa Siriana, da Igreja Presbiteriana Unida, da Igreja Luterana e da Igreja Cristã Reformada.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:06 PM