Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Terça-feira, Novembro 08, 2005
Sobre saberes e coisas ¿
Avaliar e valorar são palavras de significado muito aproximado. Em alguns contextos, são sinônimas. Avaliar é fazer um balanço dos prós e contras, por exemplo; e, com base nisso, verificar em que ponto de uma determinada escala encontra-se o objeto avaliado. Valorar é atribuir um valor; um preço, por exemplo.
Em educação, avaliar e valorar devem ser diferentes. Primeiro porque não há o que ser valorado no conhecimento. Segundo porque não é possível fazer balanços de créditos e débitos no processo de humanização que se encerra, dentre outros lugares, na escola.
Tradicionalmente, a avaliação tem por objetivo atribuir um determinado valor ao conjunto dos conteúdos aprendidos. Quanto mais conhecimento apreendido, mais alto é esse valor. Quanto mais acima de uma média estipulada, mais próximo da aprovação está o aluno.
Há equívocos sérios nessa visão. Conhecimento não é mensurável. Conhecimento não se mede por quantidade, nem por qualidade. Não se mede!
Seria possível discernir um valor entre saber de cor as fórmulas matemáticas trigonométricas ou declamar um poema do Fernando Pessoa? Qualquer que sejam os critérios que se usem para estabelecer escala, haveria lacunas profundas a serem preenchidas.
Parece que o problema está, então, no mecanismo usado para adotar essa ou aquela escala para medida. Como poemas, músicas, comidas, amores e gargalhadas não são mensuráveis como análise sintática, acidentes geográficos e episódios da história, a escola preteriu os primeiros em detrimento dos segundos. É melhor avaliar coisas! Assim, no currículo engessado só há espaço para coisas. Saberes que são coisificados para poderem ser mensurados.
De maneira mais progressista, comportam-se pedagogias nascidas nas últimas décadas. Há mais crítica a esse estado de coisas. Há mais propostas. Há mais compreensão do processo como um todo. Aí, avaliar é algo que não se destina exclusivamente a atribuição de valor ao conhecimento do aluno. Avaliar é parte do processo de ensino-apredizagem como um todo. É preciso parar durante a caminhada para que todos se reúnam novamente. Quem ficou mais pra trás é aguardado e incentivado a chegar para junto. Quem avançou demais ajudará a desbravar as trilhas que há pela frente. A parada é boa, inclusive, para verificar se os proventos serão suficientes e se estão de acordo com o gosto de todos.
Nessa visão mais reformada, o objetivo da avaliação é detectar possíveis ruídos na comunicação e fazer com que todos alcancem os objetivos propostos. Se forem necessárias mudanças nas metodologias, essas serão feitas. Tudo com o objetivo de alcançar o fim.
Não há dúvidas de que houve um grande avanço. Quem nos dera houvesse em nosso meio mais escolas assim. Mais professores assim.
Mas há, na minha opinião, um pequeno problema. A concepção de homem que está por trás dessa ou daquela pedagogia são, em essência, a mesma. Há um fim que todos devem atingir. Não há pluralidade. No primeiro caso, há apenas a avaliação por si só. No segundo, a avaliação é meio para melhor se atingir o fim. Mas em ambos os casos, o fim proposto no currículo é a terra prometida almejada por todos.
Aí está o problema. Não vale de nada mudar as lentes dos óculos se continuamos olhando para o mesmo lugar ou se permanecemos mirando desde um mesmo ponto, parados. É preciso girar o pescoço, mexer o corpo e, além disso, procurar novas paisagens a serem vistas.
Certa vez, visitei um museu e estranhei o comportamento dos turistas que passavam aceleradamente por diversas obras de arte famosas. Tinham que correr porque não daria tempo de verem tudo se não andassem naquela velocidade. Percorriam os corredores dos artistas mais conhecidos e fotografavam tudo. Depois entrei por uma galeria menos movimentada e vislumbrei uma jovem diante de uma tela desconhecida. Ela permaneceu ali por minutos muito longos se comparados à esquizofrênica correria dos outros. A questão é que ela estava mergulhada na contemplação daquela obra. Acho que ela viu algo que a cativou. E ela teve coragem de parar e gastar todo o seu tempo só naquela peça.
O currículo escolar é como uma excursão do tipo ¿pacote fechado¿. Há destinos certos, horas marcadas, ritmo estipulado. Não há negociação, nem tampouco liberdade. Avaliar, em qualquer um dos sentidos que mencionei acima, só é possível nesses termos.
O vestibular é a grande excursão da garotada. Fazê-lo é como ir a Disneyworld. É o prêmio que se recebe depois de percorrido o longo percurso do currículo.
Prefiro, ainda, acreditar que é possível aprender sem as amarras dos conteúdos propostos (aliás, impostos). Prefiro crer que uma das características mais marcantes dos homens é a capacidade de olhar para além do óbvio. Prefiro reconhecer que as crianças, de modo especial, nos ensinam que é melhor fazer turismo com liberdade. Concordo que é importante conhecer mundos novos. Concordo que turismo é muito prazeroso. Mas só se for feito com liberdade. Acho que nem todos querem visitar a Disneyworld e pedir um beijo do Mickey. É bem possível que haja jovens entre nós que queiram visitar o agreste nordestino porque se encantaram com as palavras do Graciliano Ramos.
Embora isso possa parecer estranho aos que enclausuram o saber, as pessoas não almejam todas as mesmas coisas!
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 2:10 PM
Ler ou não ler ¿
Ler é uma atividade que, ao mesmo tempo, conjuga racionalidade e emoção. Se fosse apenas razão, para aprender a ler bastaria um curso de introdução ao mundo das letras e suas regras. Seria suficiente uma iniciação filosófica sobre a compreensão da realidade retratada no texto, por exemplo. Mas não é assim. Ler é perceber. Ler é mergulhar num universo distinto daquele ¿do pedestre dia-a-dia¿, nas palavras de Drummond.
De certo modo, a leitura é a ponte que construímos para sair de onde estamos, do que estamos sendo, rumo a um lugar novo, rumo ao que desejamos ser.
Não sei se é exatamente certa a idéia de Paulo Freire de que ¿a leitura do mundo sempre precede a leitura da palavra¿. Não sei se isso deva valer apenas para quem escreve, já que o faz a partir de onde está. Na verdade, o que me parece mais acertado é que o ato da leitura é a atitude pela qual introduzimo-nos no mundo que é somente nosso. Não vivemos no mundo que a natureza nos deu. Construímos um próprio e é justamente nesse universo que habitamos.
A palavra não é obra da natureza. A palavra é criatura dos homens. Palavra é cultura. Por isso, ler e escrever são maneiras que criamos de significar nossa existência. Mais do que partir da realidade, a leitura se volta para esta e a transforma radicalmente. É o mesmo que dizer que a palavra é que constrói a realidade e não o contrário.
Ler não é decodificar textos escritos. Ler é ato de auto-criação. Por isso, defendo a idéia que devemos ler tudo. Toda literatura é lícita e não apenas aquela da academia.
As crianças têm dificuldades em ler não porque não gostem da leitura. Têm dificuldade e resistência porque não admitem que outros criem seus mundos; não concordam com o fato de que outros queiram significar o seu universo.
As crianças e adolescentes gostam mais dos videogames e da internet porque nesses terrenos suas leituras são livres. As instituições que monopolizaram a leitura dos livros ¿ especialmente a escola e a família ¿ não conseguiram ainda engaiolar as novas tecnologias. Aí, nesse novo universo criado pela mundo contemporâneo, os jovens encontram oxigênio para edificar mundos radicalmente seus.
Não concordo muito quando se diz, portanto, que as crianças não gostam de leitura porque, por exemplo, são assediadas diariamente pela TV e por novas tecnologias. Prefiro acreditar que escolheram outros caminhos de leitura porque esgotaram-se as chances das esclerosadas metodologias presentes nas velhas instituições fazerem-se sedutoras.
Só para ilustrar, vale lembrar o prazer de andar de bicicleta. As crianças ainda amam a diversão que as bicicletas proporcionam. Gostam porque são livres com elas. Não se trata de uma nova tecnologia. Bicicletas são seculares.
Os jovens gostam de leitura, sim. O problema é que seus livros prediletos e suas histórias favoritas não são permitidas na academia. Torna-se muito difícil para eles gostar dos clássicos se o acesso a eles está obstruído pela intransigência de um purismo pedagógico.
As instituições da leitura tradicional perderam seu altar porque criaram dogmas que nos impossibilitaram de fazer orações sinceras.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 2:10 PM