Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Domingo, Março 19, 2006
No princípio criou o Homem a si mesmo!
Uma das características mais marcantes dos seres humanos é a capacidade de fazerem-se a si mesmos. Diferente de outras espécies, o homo sapiens é criador de si mesmo. Embora sejamos filhos da natureza como nossos irmãos animais, não estamos simplesmente condicionados por ela em nossa existência. Nada que a natureza nos legou permanece intacto em nós. Reinventamos tudo. Em outras palavras, somos uma espécie de cultura. Tudo que há entre a concepção e a morte está mergulhado no mundo criado por nós mesmos.
Temos imposições biológicas como a necessidade de alimentação, de procriação, de auto-defesa etc. Mas nenhuma dessas necessidades são simplesmente saciadas e ponto final. Em torno delas, criamos nossa civilização e demos a cada uma delas significados muito mais sofisticados do que suas simples exigências. Comemos ¿ mais do que para saciar fome ¿ para celebrar; somos capazes de comer mais do que precisamos, pelo simples prazer da degustação; ou capazes de sentir fome e morrer dela, em nome de causas que conseguimos considerar mais nobres do que as necessidades da natureza. Relacionamo-nos sexualmente ¿ mais do que para procriação ¿ para encontrar e dar prazer; o sexo entre os seres humanos é ¿ ou, pelo menos, pode ser ¿ instrumento de afeto e de carinho; enquanto nos animais o sexo é determinado pelo ritmo natural do ciclo de procriação, entre nós o sexo é face-a-face, pelo simples prazer do encontro.
Somos filhos da Natureza, mas as inúmeras barreiras que enfrentamos na história evolutiva da espécie nos fizeram criar e inventar alternativas à vida. Dentre as espécies de médio e grande porte sobre o planeta, somos a única a viver em todos os cantos, em todos os climas, em todas as condições. Conseguimos nos adaptar a tudo, não porque tenhamos um organismo biologicamente flexível e plenamente adaptável, antes porque transformamos tão profundamente o mundo que nos cerca até torná-lo uma casa habitável e minimamente hospitaleira. É a nossa atividade cultural ¿ que cria, recria e inventa ¿ que nos torna aptos a praticamente tudo.
Nas civilizações mais antigas, o Mito reinava como forma mais elaborada de compreensão da realidade. Hoje, a Ciência ocupa ¿ apesar de todas as suas limitações ¿ tal espaço. Tanto num como noutro caso, o movimento é muito semelhante: diante dos absurdos desconhecidos no mundo que nos rodeia, precisamos encontrar formas lógicas (ou não) que nos ajudem a compreender e encontrar sentido na vida. A Mitologia fez isso no passado; hoje, é a Ciência que se reveste de linguagem lógica e busca, em certo sentido, respostas para as mesmas perguntas e indagações que sempre fizemos.
Mais importante para nós não são as coisas tal como se nos apresentam. Ao contrário, é o sentido que lhes impomos que nos faz existir. Creio que o mundo que habitamos é ¿ completamente ¿ inventado criativamente por nós. Desde o pão de cada manhã às orações de cada noite, não há nada que escape ao gênio criador humano.
Somos o que somos, tanto positiva quanto negativamente, porque a Natureza nos brindou com limitações tais que nos obrigaram a sair do lugar comum e alçar vôo para horizontes novos. É uma circularidade interessante: a Natureza nos dotou de inteligência, essa por sua vez voltou-se a transformar a própria Natureza que, em contrapartida, nos convida constantemente a reinventarmo-nos.
Creio que se conseguirmos olhar para nós mesmos como autores e protagonistas da Vida, ficará mais razoável nossa relação com os meios elementares para a sobrevivência. Como fomos amedrontados pelas forças irracionais da natureza, tratamos de domá-la e, com isso, destruí-la. Passamos a construir um mundo só nosso, ao nosso dispor, porque sempre precisamos de domínio sobre tudo. Das duas, uma opção prevalecerá: ou continuamos a dominar de tal modo que extinguiremos implacavelmente tudo; ou, então, reinventamos nossa maneira de dominar e passaremos e reconstruir o que gradativamente fomos aniquilando.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:23 PM