Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Sexta-feira, Abril 21, 2006
Sobre (in)utilidades ...
Há coisas consideradas úteis. São as que servem para um fim além delas. Há outras ditas inúteis. São as que não servem para nada além delas. Utilidade e inutilidade são pólos excludentes entre si. As coisas úteis regem o ritmo da sociedade contemporânea. As inúteis devem ser evitadas. O mais importante é otimizar. Tornar o tempo e tudo que nele é realizado o mais produtivo possível. Utilidade tornou-se qualidade perseguida.
Útil é o que pode ser utilizado para além de si. É o que ocorre, por exemplo, com um martelo. Sua utilidade está na capacidade de servir a um fim. Ninguém deseja um martelo em si mesmo. Aliás, não há desejos por martelos. Sobre martelos, há, no máximo, necessidade. O que se necessita com um martelo é martelar. As coisas úteis têm seu sentido no verbo (na ação) que delas decorre. Mais valioso que o martelo é o trabalho que ele é capaz de realizar.
Inútil é o que não pode fazer nada. Os martelos sem cabo padecem de inutilidade. O fim para que se prestam não pode ser alcançado. Daí sua inutilidade. De uma outra forma, porém, inútil é o que não pode ser utilizado para além de si. Sua finalidade está em si mesmo. Martelos são úteis porque martelam. Pirulitos são inúteis porque não existe nada (nenhum verbo) que dele decorra. O menino que saboreia um pirulito só quer saber do prazer do sabor. Nada mais.
As coisas úteis servem para além de si. São escravas do que há fora delas mesmas. As inúteis são livres. São fins nelas mesmas. Não apontam para nada. São, simplesmente.
No mundo das utilidades, dos utilitários e das utilizações, nada que exista em si mesmo faz sentido. O sentido está naquilo que há por fora. Sentido e utilidade tornaram-se equivalentes. Daí a esquizofrênica pergunta ¿para quê¿. Só possui legitimidade o que goza de sentido ferramenteiro. De um modo estranho, criou-se um universo de coisas que só apontam para outras. Um mundo de seres e objetos que só existem por causa do que há como resultado de suas ações. Instituiu-se um círculo de utilidades em que nada é algo em si mesmo. Tudo é nada, na verdade. Esvaziou-se de sentido o mundo.
Paralelo a esse mundo, reinam as inutilidades. Vivem os brinquedos. O que é livre das amarras da ferramenta utilitária é que gera alegria. Não se encontra alegria no que é útil. Aí há satisfação, dever cumprido. No útil, há suor. No inútil, há prazer, alegria, sorriso e lágrima.
Se no reino das utilidades vivem a economia e a política, no reino das inutilidades vivem a música e a literatura. Paradoxalmente, o trabalho, a educação e a fé são habitantes de ambos os mundos. Se vistos pelo ângulo de suas utilidades perdem-se enclausurados. O trabalho que vira emprego, a educação que vira vestibular e a fé que se torna milagreira. Se contemplados pelo prisma das inutilidades libertam-se e resignificam a existência. O trabalho que proporciona realização, a educação que nos faz enxergar melhor a nós mesmos e a fé que nos torna nós mesmos.
O rigor da utilidade criou o cidadão moderno, comprometido, trabalhador, competente. Mas insensível. As coisas inúteis podem ser um apelo ao retorno. O sentido da vida está nela mesma. Não está para além dela ou naquilo que com ela realizamos.
Já que é preciso martelar, talvez seja razoável fazê-lo degustando um saboroso pirulito!
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 9:34 PM