Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Quinta-feira, Julho 20, 2006
Tristeza e esperança
Estou triste. Profundamente triste com a decisão do 16o Concílio Geral, realizado entre 10 e 16 de julho, em que a Igreja Metodista decidiu por se retirar de organismos ecumênicos que tenham a presença da Igreja Católica e de grupos não-cristãos. A medida tira os metodistas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).
Estou triste por inúmeras razões, mas não posso simplesmente continuar vivendo como se o que ocorreu não fizesse diferença e se não fosse algo pelo qual se deva reclamar, se faça urgente denunciar.
Minha tristeza é de natureza pessoal. Conheci a Jesus Cristo e sua Palavra na Igreja Metodista, por testemunho e ensinamento de metodistas. Aprendi nessa Igreja que o Evangelho liberta e nos torna pessoas abertas à ação revigoradora do Espírito Santo. Aprendi que, em Cristo, não há grego nem judeu, não há pobres nem ricos. Foi na Igreja Metodista que compreendi o significado da palavra ¿ecumênico¿ e foi nessa Igreja que entendi o que significa ser capaz de dividir o mesmo teto com seres humanos que comungam de modo diferente. Sempre ouvi dizer ¿ nos mais diferentes ambientes ¿ que ¿a Igreja Metodista é uma igreja aberta e ecumênica, preocupada com as questões sociais e política, além de ser uma apaixonada pela evangelização¿. Estou muito triste porque não sei mais o que pensar sobre tudo isso. Estava equivocado?
Minha tristeza é, também, de natureza institucional. Foi na Igreja Metodista que ouvi o chamado de Deus para servi-lo como pastor. Foi nela que cumpri parte de minha educação teológica. Não obstante as diferentes tendências da igreja, sempre enxerguei alternativas e espaços para todos. Cria, verdadeiramente, ser rica a pluralidade teológico-pastoral da Igreja. Sendo a experiência ecumênica algo que cultivo em minha vida devocional, havia tranqüilidade e orgulho em participar dos eventos públicos representando minha denominação e carregando a bandeira do diálogo, oficialmente. Estou triste porque para permanecer fiel ao chamado que ouvi de Deus no tocante ao diálogo e a diversidade, estarei caminhando à revelia ou ¿ pior ¿ desautorizado pela Igreja em que tenho empenhado meu labor e minha dedicação. Será possível ¿ tenho me questionado ¿ ser metodista não-ecumênico? Como experimentarei minha fé (que é, sempre, ecumênica) nessa Igreja?
Minha tristeza tem, ainda, o aspecto teológico. Entendo a teologia como instrumento de atualização da fé e da Revelação. Só consigo enxergar doutrinas e costumes e os reconhecer como legítimos se forem fundados minimamente numa reflexão teológica séria e consistente. Que seriedade há em recolher-se ao isolamento? Que consistência há em julgar a fé alheia? Onde há razoabilidade em dividir o mundo entre certos e errados, santos e pecadores? O que há por trás de uma decisão como essa é o mais arraigado e atrasado fundamentalismo bíblico-teológico, que considera um determinado grupo como superior, como central, como proprietário da verdade em detrimento de qualquer um que pense e aja diferentemente.
Creio que o que o fundamenta uma postura sectária e intolerante como essa decisão é, por um lado, o sentimento de inferioridade que as igrejas evangélicas cultivam a respeito de si em comparação com a Igreja Católica. Por outro lado, a responsabilidade está numa pastoral proselitista irresponsável que considera qualquer um não-evangélico como membro em potencial para uma igreja local. Em ambas as razões está o que há de mais execrável numa vivência religiosa: o falso messianismo, que se considera sempre como perseguido e que considera os demais como alvos a serem alcançados.
O que menos me interessa são as mazelas do Movimento Ecumênico instituído oficialmente nos diversos organismos conhecidos. Como na Igreja, há também nesses órgãos descaminhos absurdos e intoleráveis. Importa-me, isso sim, fidelidade ao Evangelho de Cristo que me exigi sair de mim mesmo em favor do encontro com o diferente de mim.
Estou triste. Profundamente triste. Acato a decisão conciliar por força da lei que um dia prometi zelar como presbítero da Igreja, mas não posso me calar por força do Evangelho que no mesmo dia prometi seguir.
Porém, cultivo a esperança. Creio que a decisão do Concílio trará o tema à tona e as vozes ecumênicas que se mantinham caladas por comodidade ou por tranqüilidade serão conclamadas a pregar o Evangelho da Unidade.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:20 PM
Pessoas e papéis
A escola é, seguramente, o lugar do qual boa parte das pessoas se lembra com mais intensidade. Isso porque é na escola que vivenciamos as experiências germinais de nossa convivialidade. Como somos seres sociais e políticos em essência, na escola vemos despertar nossas inclinações mais genuínas a esse respeito. Se vivêssemos numa sociedade organizada de outra maneira, talvez isso pudesse acontecer em outro lugar. Mas o fato é que valorizamos a escola e, para ela, dedicamos os primeiros anos de nossa caminhada.
O que somos, de certo modo, está condicionado pelo fomos e vivemos na infância. Por isso, a escola ¿ como integrante de nossa história ¿ ocupa espaço tão destacado e, por vezes, tão grave.
Há memórias que nos alegram e nos enchem de esperança e vitalidade; há as que nos deprimem e suscitam medos e sentimentos nocivos. A gravidade da experiência que temos da escola está diretamente ligada aos sentimentos e emoções que as experiências escolares nos provocam. Ocorre, entretanto, que a escola ¿ em si mesma ¿ não é capaz de provocar esse ou aquele sentimento. Como instituição, a escola é impessoal. As memórias, de quaisquer naturezas que sejam, são frutos das relações com pessoas concretas. E é aí, especialmente, que moram as questões mais sérias. O que a escola deixa marcado em nós está relacionado com as pessoas com as quais convivemos.
Num tempo marcado pela sobrecarga de informações, a escola perdeu o monopólio do saber e do fazer. A escola não é único lugar para se aprender. Aprende-se com os livros e com a imprensa; aprende-se na internet e nos computadores; aprende-se, enfim, pelo simples fato de participar de um mundo tão ligado. Se a escola permanece (pre-)ocupada em transmitir e mensurar conhecimento, ela corre o risco de se fazer obsoleta. Sua caducidade est(ar)á numa falsa pretensão de desejar fazer-se conectada com a modernidade. Parece equivocada a tentativa de modernizar a escola para salvá-la, como se fosse condição para sua sobrevivência a afinidade com novas e sedutoras tecnologias do mundo contemporâneo. Não há dúvidas que não se pode parar no tempo e deixar-se engolir, mas não se deve prescindir do essencial em favor do secundário.
O que faz com que a escola seja o que é (ou o que deve ser) está na sua capacidade de colaborar para formar pessoas eticamente responsáveis e emocionalmente equilibradas, pessoas racionalmente competentes, mas gratuitamente generosas. Isso não se aprende; isso se experimenta. Se é discutível a possibilidade de se construir conhecimento como pensam determinadas linhas filosófico-pedagógicas, parece claro que com ética e responsabilidade a situação é diferente. Não se ensinam e se aprendem esses valores; eles devem ser coletivamente erguidos no grupo social do qual fazemos parte, seja na escola ou em casa, na rua ou no círculo de amigos. Daí o valor das memórias que evocamos dos dias vividos na escola. Dos exemplos dos professores e de quem mais com quem convivemos.
Não nos lembraremos das lições de ciências ou de língua, porque daqui a dez ou vinte anos as teorias científicas e a linguagem do cotidiano serão significativamente diferentes. Nossas lembranças relevantes sobre a escola estarão mais relacionadas às pessoas e às experiências do que às lições de geometria ou de história.
Penso que esteja aí a chave com a qual se deva compreender a realidade educacional contemporânea. Nossos jovens não respeitam verdadeiramente a escola porque essa perdeu seu encanto e nela não há mais prazer em se estar. É possível que fora da escola se aprenda mais e com mais relevância do que nela. Daí a urgência de se resgatar a empatia das convivências que se constroem na escola. Não porque seja ¿ simplesmente ¿ necessária a salvação da instituição escolar, mas sobretudo porque é indispensável o reencantamento da vida e da alegria de viver. Não valorizamos mais a escola porque nossos professores ¿ na melhor das hipóteses ¿ puseram o saber e as ferramentas didáticas à frente de si mesmos e esconderam-se. Creio que seja o momento de ¿ como quem assume a docência ¿ reassumir a sedução de nossa tarefa. Pessoas, em detrimento de papéis, devem ser priorizadas. È para o professor que se deve olhar, mais do que para qualquer recurso audiovisual, por exemplo. É o mestre que deve ser mirado, em lugar de qualquer livro ou apostila. É a pessoa quem faz a diferença e é dela que lembraremos sempre, positiva ou negativamente.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:19 PM