Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Terça-feira, Agosto 29, 2006

Interditos e violações

Dentre as muitas características que apontam para identidade humana, está a capacidade singular de criar regras e de decidir viver segundo seus ditames. Ao que parece, são os seres humanos ¿ e apenas estes ¿ que autodeterminam sua existência social. O fato de vivermos socialmente é fruto de nossa decisão deliberada com vistas a uma sobrevivência mais rica, com maiores possibilidades de intercâmbio e de criatividade.
Não nascemos sociais e vocacionados para a sociabilidade. Nascemos egocêntricos. A transformação ocorrida durante a vida e a história de cada indivíduo é o resultado de ações voluntárias que buscam socialização e interação. É requerido o abandono dos instintos mais egoístas para uma mínima chance de ter estabelecida a vida familiar e comunitária.
O que chamamos liberdade nada mais é que a linha tênue que separa o indivíduo de sua sociedade, mas que, ao mesmo tempo, une sujeito e meio. Embora paradoxal, é o que denominamos liberdade que nos afasta e nos aproxima dos outros. Pela ação livre é que decidimos o que fazer e o que não fazer. Ser livre é equivalente a ter predisposição de levar o outro em consideração sempre.
Mas é a mesma liberdade que dá capacidade de enxergar a si mesmo de modo mais claro e sincero. Dito de outra forma, ser livre é ter a honestidade do autoconhecimento. Cultivar o conhecimento de si mesmo. Julgar se agimos ou, simplesmente, reagimos. Liberdade é fruto da experiência de autenticidade.
Embora estranho, a execução da liberdade se dá por meio das regras que erigimos para coordenar nossa existência. Os interditos, proibições, leis, mandamentos, estatutos etc só existem porque consideramos ¿ histórica e dialeticamente ¿ a necessidade de, por um lado, inibir os instintos individualistas e abrir espaço para a alteridade; e, por outro lado, existem para coibir os exageros do grupo de convivência e garantir a individualidade. É como se pudesse estabelecer uma complementaridade entre a ex-istência ¿ que nos move para além de nossa individualidade ¿ e a in-sistência de nos mantermo fiéis a nós mesmos.
Sempre que as lei deixa de ser meio para organizar a vida social e passa a ser fim em si mesma, ela perde seu sentido. É justamente nesse momento que surgem as violações. Mesmo parecendo simples descumprimento da norma, a violação pode representar atos profundamente livres. Se é verdade que liberdade é ter predisposição para obedecer, é fato também que a mesma liberdade exige comprometimento das regras a serem observadas com a promoção da vida e da convivialidade harmoniosa.
A crise ética generalizada que vivemos é resultado da mais profunda falta de sentido das leis a que somos submetidos. Como o Evangelho já advertia, ¿o sábado foi feito para o homem e não o contrário¿. As leis existem para que concedam vida e não para serem cumpridas cegamente, como se fossem ¿ elas próprias ¿ a razão de nossa existência. São meios e não fins.
Na escola, por exemplo, o problema que atormenta professores é a (in)disciplina. A própria palavra revela o nível de desgaste do assunto. O que se espera dos alunos não é ética e sim disciplina. Não se cultiva liberdade e autenticidade das posturas. Persegue-se, ao contrário, homogeneidade das reações. Enquanto não estivermos dispostos a encarar a violação das regras como alertas para a ausência de referenciais éticos, continuaremos buscando comportamentos previsíveis e, na sua freqüente ausência, punindo os indisciplinados. É até possível que ¿ dependendo da criatividade dos inspetores disciplinares ¿ se consigam bons resultados do tipo resposta a um estímulo atraente, mas estará completamente ausente a gênese do comportamento humano por excelência: a gratuidade das ações de quem consegue autolimitar-se em nome da harmonia para com seus semelhantes.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:23 PM




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