Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Domingo, Novembro 05, 2006
Somos todos excepcionais ...
É estranho que temas relevantes sejam colocados na agenda de reflexão da sociedade brasileira simplesmente porque se tornaram argumento de telenovelas. A impressão que dá é que lidamos com os temas reais da vida como se fossem ficção, talvez para minimizar o impacto que provocam sobre nós mesmos.
A questão da inclusão de crianças e jovens especiais nas escolas de ensino regular virou tema de folhetim e, com isso, corre o risco de esvaziar-se de sua profundidade ética. No entanto, é razoável que não deixemos o tema de lado como se não existisse simplesmente.
A primeira reflexão necessária é sobre o que são pessoas especiais. Já foram rotuladas como mongolóides, deficientes, excepcionais, diferencialmente capacitadas, especiais etc. A busca por uma terminologia politicamente correta revela a insegurança e preconceito com o assunto. O fato é: existem pessoas cujas características (ao menos em parte) destoam do conjunto da população e, por causa disso, são consideradas deficientes. O problema, entretanto, é: não há ninguém cujas características correspondam às características alheias; somos todos profundamente diferentes. Somos tentados a olhar as semelhanças porque tememos a pluralidade na qual vivemos mergulhados. Reforçamos o que nos é comum para estabelecer um mínimo de proximidade com os demais. Isso porque não estamos dispostos ao diálogo, ação própria de diferentes. No diálogo (entre diferentes) sempre haverá perdas. Será sempre necessário ceder para que haja encontro e crescimento mútuo. O horror que cultivamos às diferenças é fruto de uma cultura hegemônica que encara a todos e a tudo como massa.
A verdade, creio eu, é outra: somos, sim, diferentes. Somos, por assim dizer, todos excepcionais! O problema com os rotulados excepcionais está no conceito de deficiência. São não-eficientes, porque o que se julga como eficiência é a capacidade de reproduzir o modus vivendi e o status quo; a marginalidade a que são relegados está diretamente ligada ao fato de não produzirem como os demais são capazes. Mas se isso é verdade, os artistas e os idosos deveriam ser também classificados como deficientes. Os ditos excepcionais são o que estão sendo porque lamentavelmente não estão incluídos nem contemplados na organização social que criamos. Existem porque não podemos evitar, mas, se pudéssemos, não existiriam. Por isso, vivem escondidos por suas próprias famílias ou, o que é pior, são invisíveis à insensibilidade dos eficientes. Evitamos vê-los!
Outra reflexão importante é sobre a inclusão dos ditos deficientes nas escolas de educação regular. Embora haja clareza das leis com relação a obrigatoriedade de acolhida dos diferentes, a realidade revela outra experiência. Escolas renomadas e bem conceituadas que não os recebem. É claro que os argumentos são pedagogica e psicologicamente muito bem fundamentados, mas não passam de ideologia nociva ao crescimento humano da sociedade. Há escolas sem disposição para essa acolhida porque fazem parte do esquema de sucesso do mundo competitivo hodierno. Aliás, é justamente esse tipo de educação que forjou essa sociedade selvagem, em que o que vale é a produção, a força, a (mal-compreendida) competência. Os excepcionais não têm lugar porque são deficientes segundos os padrões estabelecidos.
Pelos critérios tacanhos da sociedade de consumo, uma pedra, por exemplo, existe para ser transformada em tijolo, dada sua utilidade eficiente. Mas ¿ a despeito da estreiteza de muitos ¿ os artistas vêem esculturas maravilhosas que sonham nascer das entranhas das pedras. Eis aqui a mais profunda das crueldades do mercado: a vida foi amputada de beleza em benefício da produtividade.
Já passou da hora em que devemos refundar as noções de humanidade e de educação. O que há de humano nos eficientes, há igualmente nos deficientes. Humanidade é diferente de eficiência. Sempre que atrelamos uma coisa a outra esvaziamo-nos de nós mesmos e assumimos o papel de máquinas, sem razão e sem coração. Educar é outra coisa que não preparar mão-de-obra. Se é certo que há esse papel instrutor nas tarefas educacionais é igualmente correto que o papel formador é sobremodo relevante.
Acredito na escola da diferença. Onde haja reais possibilidades de encontro. Onde o diálogo seja mais do que vozes ecoando mutuamente sobre os mesmos valores e repetindo cansativamente as mesmas coisas, sempre. Confio nos professores que ¿ mais do que as lições do livro didático ¿ sejam capazes de enxergar seus alunos como pessoas a quem gratuitamente devem dedicar generosidade.
Estou convicto que parte das dificuldades pelas quais passamos está associada ao modelo fechado e arrogante que criamos para sustentar nossa sociedade. Na medida que abrirmos os olhos e enxergarmos sinceramente os diferentes que convivem conosco diariamente perceberemos alternativas óbvias de construção de um mundo mais justo, menos exclusivista, mais solidário e fraterno.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 10:49 PM