Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Terça-feira, Dezembro 05, 2006

As injustiças da Graça

Há palavras que se gastam com o tempo. Significavam algo no passado e deixaram, aos poucos, seus sentidos originários, cedendo espaço a novos entendimentos. Isso ocorre, por exemplo, com a palavra graça.
Graça é equivalente a gratuidade. Algo de graça é aquilo que gratuitamente se doa, ou é dado por alguém. Não tem preço. Não há como pagar. Grátis. Gratuito. Gracioso.
Talvez seja por essa noção embrionária que, quando estamos alegres, dizemos que estamos cheios de graça. Ou quando sorrimos, fazemos porque achamos graça.
Mas é estranho que, ao recebermos algo de graça (como um presente, por exemplo), respondemos com a expressão ¿muito obrigado(a)¿. Será por que associamos gratuidade e obrigação? Parecem realidades opostas entre si. É como se quiséssemos pagar pelo presente quando nos dizemos obrigados a, de alguma forma, retribuir.
Creio que isso ocorra porque não gostamos muito da idéia da gratuidade. Ela não faz parte da lógica de nossas vidas. A graça nos incomoda profundamente porque não aceitamos o fato de que há pessoas, experiências e coisas que, simplesmente, nos são dadas. Não as adquirimos por iniciativa ou por merecimentos. Elas, gratuitamente, se nos deram.
Mas não gostamos disso. Não dormimos tranqüilos se estivermos devendo. A lógica da dádiva não faz parte de nosso esquema de vida. Preferimos as trocas, as negociações, as compras, as vendas. A tudo (e a todos) atribuímos valores. Por isso, nosso idioma aproxima preço e apreço. É como se não pudesse haver apreços gratuitos, sem recompensas. Valoramos tudo para sabermos o que nos será possível adquirir.
A idéia que nos move está condicionada pela justiça. Não deve sobrar nem faltar nada. Justo. Certo. Sem excessos e sem faltas. A proposta da graça é radicalmente diferente. É, por assim dizer, injusta. Não tenho porque mereço, ou porque conquistei pagando seu preço devido. Tenho (ou usufruo) porque me foi dado gratuitamente.
Um dos princípios fundamentais de toda fé cristã é a doutrina da graça. Deus é graça. Sua graça não tem limites. A salvação dos homens e mulheres é fruto, exclusivo, da ação gratuita de Deus. Mas isso nos inquieta tão drasticamente que preferimos teologias mais elaboradas que, de alguma forma, nos acalmem com afirmativas sobre nosso papel em todo esse processo. E, nesse pormenor, as religiões encontraram terreno fértil para desenvolverem-se. Gratuidade e religião não se dão muito bem. São irreconciliáveis.
Lamentavelmente, não compreendemos bem as coisas e perdemos a melhor de todas as oportunidades que a vida nos deu. Etiquetamos tudo com preços e valores. Deixamos escapar a possibilidade de viver gratuitamente.
É como se o Cristianismo, antes mesmo de nascer, experimentasse sua morte. Os discípulos de Jesus não compreenderam muito sobre suas palavras. Queriam saber o que aconteceria depois. Aspiravam pelos ¿porquês¿. Abandonaram-no, todos. Na cruz, só estava a mãe de Jesus. E lá estava, unicamente, pela graça. Não fazia sentido perguntar por nada. Era um filho seu. O amor é graça. Não se ama por causa disso ou daquilo. Simplesmente, ama.
O Natal é a expressão mais bela desse gesto tão fascinante de Deus. Gratuitamente, doou-se. Esvaziou-se. Entregou-se. Como quem está perdidamente apaixonado e se queda nos braços do ser amado. O menino na manjedoura de Belém revela o que há de mais gratuito e simples. Nada semelhante aos cintilantes enfeites das praças e shoppings.
Mas nós não gostamos dessa simplicidade. Preferimos dizer que Deus, em Jesus, pagou um alto preço para nos salvar. Estão aí, de novo, preço e valor.
O que nos salva não é a quantidade de sofrimento. De chicotadas. O que nos salva é, puramente, a graça. Estávamos salvos, desde sempre, pelo simples fato que, desde sempre, o Menino gratuitamente nos amava. Mas prescindimos disso para, em lugar dessa generosa injustiça de gratuidade, construirmos as relações negociadas de tudo e com todos.
Entretanto, apesar de nossa renitente e obstinada opção pela obrigação, Deus permanece gratuitamente nos amando. A despeito de nossa incapacidade de enxergar as coisas simples, o Menino nasce reiteradamente na estrebaria dos animais. Não havia (e ainda não há) lugar para Ele na hospedaria dos homens.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 11:25 AM




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