Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Quarta-feira, Janeiro 24, 2007
Incomoda-me o fato de que ¿ após, no mínimo, 12 anos de estudo ¿ os concluintes da Educação Básica, em geral, escrevem mal. Não conseguem, de maneira satisfatória, expressarem-se por escrito. Pesquisas divulgadas por agências recrutadoras de profissionais ingressantes no mercado de trabalho revelam que, de cada dez candidatos recém-formados, sete não sabem a ortografia do vocábulo ¿ascensão¿, e cinco desconhecem as regras de concordância do verbo haver no sentido de existir; daí ¿haverem¿ tantos problemas na escrita! Mais de oitenta por cento dos postulantes às vagas, cada vez mais escassas, são eliminados logo no primeiro parágrafo da redação solicitada como parte da avaliação.
Estuda-se muito, não há dúvidas! Um jovem consome cerca de vinte e cinco por cento de seu tempo escolar dedicando-se à Língua pátria. Aprende-se, porém, muito pouco. Os professores que recebem alunos nas Universidades, por exemplo, escandalizam-se com a péssima qualidade dos textos por eles desenvolvidos. Daí a necessidade de disciplinas dedicadas à produção de textos, assunto que já devia estar mais do que resolvido a essa altura da vida acadêmica. Não é diferente com a Matemática. Os jovens que optam pelas carreiras tecnológicas e exatas, via de regra, são ¿convidados¿ a cursarem Cálculo ¿0¿. O que devia estar pronto da Educação Básica tem de ser revisto no Ensino Superior. Língua Portuguesa e Matemática correspondem à metade da carga horária escolar. Surpreendentemente, o que se propõem a ensinar, não ensinam bem. Há que se perguntar sobre as razões de tal discrepância.
Acredito que, no caso da Língua, o problema esteja relacionado a três fatores principais.
Em primeiro lugar, há uma questão de natureza ontológica; relacionada às raízes mais profundas das coisas e dos seres. Língua não é matéria a ser aprendida. Língua é diferente de Gramática. Essa é o conjunto de regras que um bom manual resolve. Aquela é resultado da capacidade ¿ exclusiva ¿ dos seres humanos de se comunicarem de maneira sofisticada e, a cada novo instante, inédita. Nunca se diz uma mesma coisa de uma mesma maneira. Diferente dos demais animais, os humanos se comunicam ¿ segundo Noam Chomsky ¿ de forma computacional. Isto é, o discurso é resultado de um conjunto limitado de instrumentos lingüísticos (gramática) que podem ser elaborados ilimitadamente (literatura). Não há um discurso. Há discursos. Sempre que se confundir Língua com Gramática reduzir-se-á a capacidade humana de elaborar novos discursos a um estreito universo de regras gramaticais que enclausuram e impedem a verdadeira comunicação. Penso que o estudo da Gramática deva abandonar os manuais do ¿certo e errado¿ e ajudar nossos alunos a enxergar o dinamismo desconcertante que há por trás da história evolutiva dos homens e das línguas, da capacidade humana da linguagem, do estudo comparativo dos idiomas, do processo rico e criativo da formação das palavras etc. Talvez devamos abandonar as ¿técnicas de produção de textos¿ e permitir que o gênio humano que nos identifica tome esse lugar. O texto somos nós mesmos. É importante que a escola ajude a nos expressarmos! Não há técnica para isso.
Em segundo lugar, há uma questão de natureza estética; relacionada ao fato de que a beleza é pressuposto da boa comunicação. Os publicitários descobriram essa maravilha e nos brindam, vez por outra, com peças de comunicação por via escrita que, de fato, nos desestabilizam positivamente. Sabem que a Língua é como um jogo. Os bons jogadores não são os que melhor conhecem as regras do jogo. São os que mais habilidade têm com as peças do jogo. Não sei se o Garrincha conhecia tão bem as regras do futebol como um árbitro formado em Educação Física. Mas que habilidade genial tinham aquelas pernas tortas! É importante, acredito, libertar a Literatura das amarras do livros de história da Literatura. Mais importante do que conhecer as principais características do Concretismo é ler ¿ e aprender a gostar de ler ¿ os poemas do Ferreira Gullar, por exemplo. Creio que os professores de Literatura fariam um bem inestimável se consumissem seus minutos semanais em sala de aula lendo seus textos prediletos. Eu só aprendi a amar a Filosofia e a Teologia porque me encontrei com professores e professoras apaixonados por elas. Via-se claramente em seus olhos um brilho diferente ao falar de seus assuntos preferidos. Quando descobrirmos que Literatura é arte e não ¿matéria¿ que cabe nos livros didáticos, conseguiremos vislumbrar o mundo livre dos poetas. Conhecer, nesse caso, está mais afinado com a concepção semita do que com a grega. No primeiro caso, conhecer significa ¿ter relação íntima¿, ao passo que no segundo significa ¿pensar sobre¿. Não imagino ser possível ¿conhecer¿ Brahms simplesmente lendo e raciocinando sobre o Romantismo. Nada substituirá ouvir suas sonatas.
Em terceiro lugar, há uma questão de natureza cultural; relacionada ao fato de que nossa educação está profundamente dissociada da maneira como interferimos e transformamos nosso mundo. Cultura é o que nos define como humanos. Educação é o que nos ajuda a perpetuar a Cultura e expandi-la. No Brasil, o mercado literário ¿ além de ser ínfimo se comparado a Europa ou a nossa vizinha Argentina ¿ vende setenta e cinco por cento de seus livros com títulos de auto-ajuda. Aqueles livros que ensinam que a coisa mais importante da vida é a perseverança. Os números revelam dados assustadores: enquanto há mais de 38 milhões de pessoas envolvidas na rede escolar brasileira, o lançamento de um título literário (na melhor das hipóteses) não ultrapassa uma tiragem de cinco ou dez mil exemplares! Os campeões de venda ¿ além dos de auto-ajuda ¿ são os livros didáticos, aqueles que mastigam o saber como se fosse papinha para recém nascidos. Os descalabros são tantos que há títulos, entre os didáticos, de livros ¿construtivistas¿! Até os que advogam ser o conhecimento algo a ser construído com esforço do próprio aluno cederam à sedução das facilidades do livro didático. Educação e Cultura estão divorciadas. Enquanto assim permanecerem seus filhos serão, provavelmente, traumatizados pelo abandono do pai ou da mãe!
Acredito que seja importante pensarmos porque lemos tão pouco e o que mais lemos seja de tão pouca qualidade. A escola tem parte nisso tudo, seguramente. Mas creio, por outro lado, que será por meio dela que as coisas poderão mudar. Precisamos abandonar as ¿auto-ajudas didáticas¿ e estimularmos o gênio inventivo de professores e alunos. Se a escola não o fizer, o farão outras instituições, e a escola caducará. Em países com experiência semelhante aos asiáticos, que têm se levantado agressivamente no mercado contemporâneo, é compreensível que a escola tenha se dedicado quase que exclusivamente ao ensino técnico. Lá, nas ruas e nas casas, respira-se cultura; uma cultura milenar que, querendo ou não, está entranhada em todos, mesmo nos iletrados. Aqui, nos trópicos brasileiros, é diferente. Nossos colonizadores fizeram questão de, sistematicamente, tentar eliminar nossas raízes mais profundas, sob o pretexto da ilustração e do saber erudito clássico. Não conseguiram, é verdade, mas distanciaram perversamente a escola da rua, das danças, do folclore, da fé e das expressões mais genuínas de nós mesmos. Há que aproximar, novamente, a escola de nossa cultura.
Não há dúvidas que, para tudo isso, precisamos de perseverança, mas é fundamental saber se se escreve com ¿s¿ ou com ¿c¿!
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 11:32 PM