Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Educação e Religião

Uma das marcas mais vivíveis no sistema educacional brasileiro é a lacuna existente entre o ensino público e o sistema privado. E, na rede privada, a distinção entre as escolas de caráter confessional e as, simplesmente, laicas. Nesse pormenor, vale o questionamento sobre a pertinência da educação religiosa nos currículos escolares. E aí - para acalorar as discussões ¿ há, por exemplo, iniciativas como as recentes decisões do governo do estado do Rio de Janeiro sobre educação religiosa na rede pública. Decisões atrapalhadas e desprovidas de leitura crítica da realidade.
A história da educação no Brasil sempre atrelou qualidade de ensino à rede privada e, como essa esteve monopolizada durante muitas décadas pelas escolas confessionais, foi natural a equivalência entre ensino confessional e ensino de qualidade.
No entanto, a garantia constitucional pela livre escolha de credo religioso não pode admitir que a escola pública perca tempo e recursos para criar um mínimo de estrutura para oferecer opções religiosas distintas aos jovens que freqüentam os bancos escolares. Tal estrutura é inviável, sobretudo num país em que religião é das áreas mais plurais e multiformes da cultura nacional. Haverá, sempre, a possibilidade de preterir essa ou aquela confissão em favor das que têm mais força política ou penetração social.
Que as famílias optantes pela rede privada escolham uma escola que condiga com suas opiniões e posições religiosas, não há nada de mau; o problema é quando a rede pública inclui educação religiosa em sua estrutura de ensino e não consegue executar tal inclusão de forma plenamente democrática e, mais grave, com profissionais realmente qualificados academicamente para a função.
Escola não é o lugar mais apropriado para educação religiosa. Religião é algo que se aprende em casa, na família. Religião é algo que toca o ser humano de forma radicalmente profunda, o que não pode ser ¿aprendido¿ numa sala de aula.
Talvez fosse mais razoável que a escola se preocupasse com ética, cidadania, arte, justiça social, educação ambiental, literatura etc. Religião, por mais belo e importante que seja ¿ e é ¿ não pode ocupar tempo escolar curricular. Primeiro porque religião não é assunto que caiba em ¿grade¿ curricular e, além disso, porque não é próprio da natureza religiosa a experiência racional que a escola deve explorar na formação dos seus alunos. Religião é algo que cabe nos arraiais da experiência pessoal, intransferível e incomunicável. Os grandes místicos e teólogos chegaram a essa conclusão há muitos séculos; diante do sagrado, o que subsiste é o silêncio.
Pretender ¿ensinar¿ religião é o mesmo que violar o direito supremo da família em cultivar com os seus a beleza do compartilhar valores e comungar alegrias e esperanças. Ficaria mais feliz se a escola se preocupasse em diversificar seus componentes curriculares de modo a oferecer aos jovens de nosso país educação e cultura que façam a diferença na vida das pessoas. Que deixasse religião para o ambiente doméstico da família e para os limites das instituições religiosas. Amém.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:10 AM



Sobre disciplina ...

Em geral, as palavras têm uma potência que extrapola os limites do dicionário. Acredito que isso ocorra porque as listas de significados são apenas retratos de um momento estanque de determinado vocábulo. Daí o caráter genérico dos dicionários. Os sentidos verdadeiros de uma palavra estão na sua dinâmica relação com aquilo que criam. As palavras não são meras retratadoras da realidade que, por meio de convenções e simbolismos, apontam os dados e dizem-nos. A palavra é a própria realidade. Antes dessa existe aquela. A realidade é o que está sendo em virtude do poder criador da palavra.
Uma palavra que sempre me causou estranheza, dada sua elasticidade, é disciplina. Serve para se referir ao comportamento adequado esperado num determinado ambiente ou para se indicar um conjunto de conteúdos estudados numa determinada área do saber. Nas escolas, disciplina é o bom comportamento discente, bem como a ¿matéria¿ a ser estudada. Creio que haja mais do que mera coincidência; ou mais do que elasticidade semântica do termo. O que está por trás da palavra é justamente as realidades almejadas por ela.
Disciplina tem a mesma raiz etimológica de discípulo. Ser disciplinado significa ser capaz de seguir orientações do mestre. Por isso, na escola, disciplina é tanto o conjunto de conhecimentos a ser aprendido quanto a prontidão e disponibilidade de comportamento que favorecem a convivência e o aprendizado. O que está em questão é uma modelagem total do caráter, desde os aspectos cognitivos até os sociais e comportamentais. Há uma clara motivação totalizadora. Disciplina é o que torna a criança recém chegada à escola um indivíduo capaz de ser treinado e equipado com conteúdos que favoreçam seu sucesso escolar.
O que é estranho nesse raciocínio é a volta que ele faz. Sai de um ponto e retorna a ele mesmo. À escola, interessa ensinar um conjunto de conhecimentos que lhes são úteis (disciplinas); para que isso seja possível, é necessária uma pré-disposição comportamental (disciplina); havendo a segunda, a primeira é alcançada. É como se pudesse ser dito assim: as disciplinas requerem disciplina! Mas está faltando algo, ou melhor, alguém. Se disciplina é palavra irmã de discípulo, onde está o mestre? Que disciplina seguir? Ser discípulo de quem?
Na resposta a tais questionamentos, há que se ter claro o papel da escola. As escolas existem para reproduzir o status quo? Ou existem para provocar o novo? Creio que haja respostas, bem como escolas, para ambos os fins. Há escolas que, simplesmente, repetem constantemente as fórmulas batidas. Há escolas, porém, que arriscam vôos diferentes. Há, inclusive, as que claudicam realisticamente entre uma e outra!
Nas primeiras, disciplina é imprescindível, porque somente através de treinamento diário, repetições incansáveis e formatações pré-definidas é que será possível manter a situação. Quem assiste um batalhão a desfilar nas paradas cívicas se impressiona com a simetria. O que parece fácil é fruto de doloroso esforço repetitivo para que todos façam a mesma coisa ao mesmo tempo, sempre. Essa é a lógica dos vestibulares, por exemplo.
Diferente dessas, há as escolas que perseguem outra disciplina. Aquela preocupada com seres humanos em busca de referência que os façam ser eles próprios, sem mimetismos. Escolas fundadas sobre verdadeiros mestres que, ao terminarem de trilhar um longo percurso com seus discípulos, dão-lhes a oportunidade de seguir por caminhos nunca antes percorridos, novos. Entre esses mestres, estão os poetas.
Sem perder de vista o fato de que as instituições escolares precisam de referenciais mínimos para sua organização interna, especialmente regras que sejam geradoras de condições de convivência, é razoável que perguntemos porque devemos sempre reproduzir esquemas anteriormente experimentados? Da mesma maneira que a ciência só emerge nova quando velhos saberes cedem ou são demolidos, relações éticas de fraternidade e convivialidade solidária só serão possíveis mediante a ruptura profunda com antigas fórmulas de hierarquia criadas para manter lugares e funções.
Acredito numa escola que esteja descomprometida com a situação. Numa escola que não tenha que responder a essa ou aquela linha filosófico-pedagógica. Numa escola que prefira os riscos do vôo à segurança do chão.
Creio que disciplina é fundamental. Não porque concorde em fomentar batalhões de meninos e meninas desfilando saberes inúteis à vida, mas porque estou convicto que, à frente de nós, é preciso sempre perseguir os passos trilhados por mestres que nos antecederam. Não para pisar sobre suas pegadas. Nem, tampouco, para repetir seus caminhos. Mas, sobretudo, para aprender a caminhar e a voar com eles.
O mais importante no que diz respeito à disciplina que tanto falta nos currículos escolares é o encantamento que os verdadeiros mestres são capazes de gerar em seus discípulos. Manter a identidade do aprendente e apontar o caminho a seguir são os desafios de uma educação verdadeiramente disciplinadora, discipuladora. Os bons mestres são os que ¿ mais do que as respostas já aventadas ¿ nos conseguem estimular perguntas ainda não cogitadas, nem mesmo por eles próprios.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:07 AM




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