Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Segunda-feira, Março 19, 2007
Conservar para avançar.
Poucas instituições existem há tanto tempo e, das que há, nenhuma parece tão conservadora quanto a escola. Dentre as muitas marcas trazidas por ela, poucas foram as que realmente mudaram. O que revela que nem sempre as mudanças são sinônimo de melhoria. Significa, ainda, que estar em conexão com as novas tendências não se traduz em avanço. Num quadro de tantas exigências dirigidas à educação e suas instituições, vale refletir sobre o papel conservador da escola e, em que medida, tal conservadorismo representa o próprio valor da escola.
Em tempos tão profundamente marcados pela evolução tecnológica; tempo de computadores, internet, games eletrônicos, celulares e toda uma parafernália de botões e sensores, a escola tem sido seduzida a tais inovações. Não basta mais o quadro de giz. Agora as salas precisam de projetores, televisores, computadores, quadro interativos etc. Há, inclusive, os que acreditam estar nesses recursos a saída para tantos problemas educacionais. Como se problemas seculares estivessem com os dias contados. Na medida em que os recursos forem se multiplicando, os problemas vão diminuindo até a extinção. Quando todas as salas de aula estiverem equipadas com os mais ¿modernos¿ aparelhos, o êxito da escola estará garantido.
Ledo engano. Os recursos que aí estão, só existem porque foi a escola ¿ nos moldes como a conhecemos hoje ¿ que deram condições para seu desenvolvimento. Foram pesquisas de universidades pelo mundo todo que possibilitaram tais avanços. O mesmo ocorre em outras inúmeras áreas: medicina, biologia, economia, política, administração etc. Todas marcadas pela escola e suas pesquisas. É como se a solução para os problemas da escola estivesse no que ela já faz, no que ela já produz.
Da maneira como vejo, não há recurso nenhum que substitua o professor. Mais do que isso: não há recurso que possa acrescentar um pingo de sucesso ao trabalho docente que esse, por si mesmo, sozinho, não alcançasse. Não que haja contrariedade ao uso e à aplicação de tais recursos. Mas eles não são causa de nada. São conseqüência (dispensável) da colheita de bons frutos na sala de aula.
O que não é prescindível é o professor. O ser humano, com nome e sobrenome. Um indivíduo com opiniões e emoções. Uma pessoa diferente de todas as demais. Um apaixonado por sua profissão. Não há vídeo ou programa de computador capaz de substituir o professor. Não há recurso ¿didático¿ nenhum com a prerrogativa de indispensável ao trabalho docente. Indispensáveis são as pessoas. São os olhares e toques. Os sorrisos e as lágrimas.
Enganam-se os que querem estar em dia com os novos tempos e sucumbem ao lusco-fusco dos data-shows ou à monotonia das lousas, que de interativas só têm o nome. Nossos jovens estão submetidos a essas novidades o tempo todo. Daqui há 2 ou 20 anos existirão outras muito mais atraentes. O que não existirá de mais atraente é o carisma e o afeto de seus professores. Não porque não haja outros profissionais com tal competência, mas porque terá passado o tempo daquele aluno em especial.
Não é possível desperdiçar o tempo de nossos alunos com efeitos especiais na sala de aula ou no laboratório dessa ou daquela ciência. É urgente não deixar morrer o professor!
Mesmo entre os mais abastados economicamente, nossos alunos são carentes. De afeto e de atenção. Mais do que saber e informação, nossa garotada precisa de quem as ouça e quem consiga falar sua língua. Para além dos recursos ¿ que eles, jovens, dominam com maestria se comparados ao mais ¿antenado¿ dos professores ¿, aspiram por referenciais, por exemplos.
O conservadorismo da escola existe e deve mergulhar mais radicalmente a perseguir seus fundamentos. Não se pode perder de vista que recursos são meios. Fins são as pessoas. TVs, vídeos e internet passarão, como passaram flanelógrafos e mimeógrafos. Professores permanecerão. Quem abrir mão de si próprio, quem se auto-substituir por um bom filme, ou quem se acomodar com documentários recentes, passará sem deixar vestígios pela vida de seus alunos.
Permanecerão os que se revelarem diante de sua sala de aula. Os que disserem o que pensam. Os que defenderem suas idéias. Os que respeitarem os posicionamentos de seus alunos. Os que souberem amar, tocar, sorrir ... Os que ficarem, enfim, na memória e no coração dos seus alunos.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 8:50 AM