Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Sábado, Maio 12, 2007

Quem (não) cola não sai da escola!

Um dos assuntos que mais preocupam professores é a questão da avaliação. Nesse tema, a cola é problema universal. Primeiro porque revela possíveis descaminhos do próprio instrumento de avaliação. Segundo porque pode indicar desvios de natureza ética, que apelam para perguntas sobre o papel formador do sistema educacional e seus mecanismos internos.
Cola é o processo pelo qual um aluno toma como seu conhecimento alheio. Sem saber sobre uma questão, com ou sem o consentimento do colega, assume o raciocínio e as respostas desse outro.
Há que se pensar, inicialmente, sobre o porquê da cola. Se colar é copiar respostas dos outros é porque professores fazem perguntas para as quais há poucas ¿ ou, mais precisamente, uma só ¿ resposta(s). Caso existisse a possibilidade de respostas alternativas, a necessidade da cola cairia drasticamente. Quem não se lembra das perguntas que exigiam respostas completas? Parte da resposta deve ser idêntica à pergunta, talvez para dar o mínimo de chance a criatividade discente. A cola existe porque não existem estímulos a novas perguntas. As provas reproduzem saber ¿ muitas vezes, já caduco ¿ e não estimulam qualquer tipo de raciocínio criativo.
Basta pensar no vocábulo prova para se ter idéia do problema. Prova é instrumento para aferir capacidades. Por isso, os corredores correm a prova dos 100 metros ou dos 200. O objetivo é saber quem chega na frente dos demais. Escola não deveria ser lugar de provas, de competições. Escola deveria ser espaço de cooperação e companheirismo. Saber não é moeda de aferição de capacidade. Saber só faz sentido se for para aproximar os seres humanos uns dos outros.
Se nos concursos e vestibulares ¿ que nada têm a ver com educação ¿ as provas imperam, a escola não deve se submeter a esses ditames. Nessas experiências, a cola é uma alternativa ¿ espúria, é claro ¿ de alcançar resultados que humanamente parecem impossíveis. Imagine uma avaliação de competências em que há centenas de perguntas sobre dezenas de assuntos, cada um mais sofisticado que o outro, com fórmulas, datas, regras, exceções etc que exigem mais do que o cérebro é capaz de suportar. Costumo dizer que para se sair bem em determinados concursos a melhor fórmula é emburrecer. Deve se esquecer de tudo o mais de importante na vida para se dedicar a estudar cegamente uma única forma de saber. Emburrecendo-se de tudo, aprovar-se-á nisso ou naquilo.
O mais grave é que essa lógica nasce na escola. De certa maneira, a prática desprezível da cola e da mentira intelectual surge na medida que a escola não suscita perguntas novas e criativas e, em lugar disso, reforça a repetição desprovida de sentido das respostas batidas.
Certa vez ouvi de um professor querido e saudoso o que me pareceu um non sense naquele momento. Depois o tempo me mostraria sua genialidade. Quando perguntado sobre a resposta a uma questão proposta em sua avaliação ele respondera que ¿se soubesse da resposta não estaria perguntando, porque ninguém, em sã consciência, pergunta sobre o que já sabe!¿ É verdade: só se pergunta o que não se sabe. A não ser que se queira arrogantemente, depois de um erro, revelar os segredos da resposta certa.
Se na escola houvesse mais tempo para pensar coisas novas, as avaliações cederiam seu espaço à pesquisa. O tempo das provas seria muito mais bem utilizado com espaços de laboratório, pesquisa, leitura, diálogo, pensamento etc. Quando a escola redescobrir sua vocação, as provas cairão em desuso e, em lugar delas, o diálogo saudável entre mestres e discípulos construirá pontes novas entre o lugar que estamos e os infinitos lugares para onde podemos viajar com a cultura e a ciência.
O ditado ¿quem não cola não sai da escola¿ é, por tudo isso, absolutamente verdadeiro. Para sair dessa escola de provas de competição, lamentavelmente, um dos poucos recursos existentes é a partilha ilegítima de saberes. O que uns poucos parecem saber, os demais se apropriam para vencer mais um obstáculo pela frente.
Acredito, mais do que isso, que quem cola não sai da escola. A prática da cola, por vezes estimulada pela própria estrutura escolar, faz com que, mesmo depois de diplomados, mantenhamo-nos enclausurados na roda-viva das competições. É como se permanecêssemos com a necessidade da cola pelo resto da vida. Nossas opiniões sobre as coisas mais elementares não são nossas de fato. Colamo-nas dos outros.
Está claro que já passou da hora de repensarmos nossos instrumentos de avaliação. Se avaliar é indispensável para sabermos onde estamos e como podemos continuar caminhando, os instrumentos para tal empreendimento devem exigir maturidade, criatividade e, sobretudo, honestidade. Honestidade moral de quem abdica dos caminhos fáceis e da apropriação indevida de saberes e honestidade intelectual de quem reconhece o saber mais do que como uma coisa a ser checada e sim como um salto no escuro. Perigoso e arriscado, mas repleto de possibilidades!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM




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