Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Domingo, Junho 17, 2007
Fé na dúvida.
Há muitas marcas que caracterizam o ser humano diferenciando-o dos demais animais. A dúvida é uma delas e talvez figure entre as mais importantes. Duvidar é colocar sob suspeita; é perceber que por trás da realidade há sempre a possibilidade de dubiedade. É ter dificuldades em acreditar, em confiar. Hesitar.
A dúvida foi uma espécie de estopim da reflexão filosófica entre os gregos antigos. Porque não se satisfaziam mais com as respostas dadas pelo senso comum mergulhado na mitologia, passaram a perguntar sobre tudo (natureza, sociedade, moral, linguagem etc). A realidade já não era mais dádiva dos deuses. Passava a ser problema. E problematizar essa mesma realidade tornou-se a tarefa predileta da filosofia recém-nascida.
Não foi muito diferente do ocorrido, por exemplo, na mudança de paradigma experimentada pela civilização ocidental por ocasião da Renascença, do Humanismo, do Racionalismo e de tantas Reformas pelas quais passou a Europa. A autoridade da instituição religiosa não dava mais conta de responder às inúmeras perguntas surgidas. A Bíblia e a Igreja já não dispunham de capital científico para as indagações que represadas permaneceram durante tanto tempo. Os ideais racionalistas e empiristas exigiam respostas nascidas da reflexa e da experiência; não se conformavam mais com os oráculos e as bulas. A máxima cartesiana nasceu justamente como apologia da dúvida, da problematização e da constante busca pela verdade. ¿Penso, logo existo¿; ¿duvido, existo¿.
Experiência inversa, porém, assistimos na história do desenvolvimento infantil. A dúvida está presente no princípio. Aos poucos cede lugar para outras características, dentre as quais a de maior destaque é a acomodação intelectual. As crianças ¿ nos primeiros anos de vida ¿ transbordam ¿por quê(s)¿; com o passar do tempo, descobrem ¿minas¿ onde encontrar (falsos) tesouros. Às perguntas, sobrevêm as respostas (sempre completas).
Responsabilidade destacada sobre todo esse recuo indagativo, problematizador e questionador está, sem dúvida alguma, sob a Escola e sob todos os seus elaborados mecanismos de inibição racional. Isso mesmo, embora pareça estranho, há escolas que em lugar de estimular a razão, fazem-na sucumbir sob alegações antigas, como foram no passado os reclames medievais pela autoridade das Escrituras ou dos Padres. Na escola ¿ e quanto mais elevado o nível de escolaridade, pior é a situação ¿ reina a regra da autoridade; as notas de rodapé, as referências bibliográficas, as citações, muitas vezes, escondem a absoluta esterilidade criativa de quem escreve ou ¿pesquisa¿. É como se houvesse uma proibição ao pensamento novo. Nada poder ser proposto, salvo sob bases sólidas de argumentações já realizadas.
Nada contra o método científico, nem tampouco contra o rigor indispensável ao labor técnico-científico e filosófico. Mas não é possível fechar os olhos perante descalabros que violam o bom senso.
A escola com a qual anseio ter contato todos os dias é aquela que me dê espaço para perguntar, problematizar, duvidar. Não me interessam as respostas já existentes. Elas não têm nada que ver com educação; elas fazem parte de um conjunto de informações que me ajudarão fazer sempre a mesma coisa. Mas há momentos que preciso de algo novo! O que me interessa são as perguntas que insistem em permanecer presente. Não se tratam, necessariamente, de perguntas novas. São ¿velhas¿ às vezes, mas querem respostas novas.
Como instituição, a escola não se moverá. Instituída está. Quem deve se mover são as pessoas. Os professores, as professoras. São os seres humanos com suas mais radicais perguntas que devem se fazer presentes. Duvidando, questionando, desconfiando.
Não sei se a etimologia do verbo confiar é exatamente esta, mas me dá a impressão que con-fiar, é fiar junto; é como se houvesse duas ou mais pessoas fiando conjuntamente. Quem sabe, por exemplo, dois parceiros lançando entre si um carretel de fio de um lado ao outro e, juntos, fiando um tapete ou uma fazenda rústica. Se assim o é, confiar é ter certeza de que se pode lançar o carretel de olhos fechados, porque do outro lado há alguém esperando para segurá-lo. Confiança é o terreno da tranqüilidade.
Acredito, diferentemente, numa educação pela fé, por assim dizer. Sim, pela fé! Se a fé é ¿a certeza do que não se vê¿ , como reza a Bíblia, é exatamente pela fé que desconfiamos. Não há nada que garanta a presença daquele outro do outro lado esperando pelo carretel. O que há é a ousadia de lançar o carretel e deixar o fio desenrolar-se. É a ousadia de perguntar, de duvidar!
É como se pudéssemos ver as coisas invertidamente. A fé é capacidade mais radical da dúvida. Só tem fé, verdadeiramente, o que é capaz de por à prova tudo, inclusive a si mesmo, suas convicções e seus saberes.
Se na Antiguidade Clássica, a Filosofia rompeu com a Mitologia e se na emergência da Modernidade, a Escola precisou se emancipar da Igreja; no começo desse novo século, a escola precisa de mais fé, mais ousadia, mais independência, mais coragem para desconfiar e para duvidar.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:11 AM