Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Sábado, Julho 14, 2007
Agradecimento ao Papa
Quero, sinceramente, expressar minha gratidão ao Papa Bento XVI pelas últimas declarações sobre a Igreja. Por muito tempo persegui tal verdade, mas agora entendo ter encontrado-a, finalmente!
O Vaticano publicou um documento reiterando que a única Igreja de Cristo é a Igreja Católica e, com isso, confirma a declaração “Dominus Iesus” do ano 2000, que suscitou fortes polêmicas no mundo cristão. O texto volta a afirmar que a Igreja de Cristo está “realmente e unicamente na Igreja Católica”. O objetivo é combater "o relativismo eclesiológico", condenado pelo papa Bento XVI e alas extremamente conservadoras da Igreja, segundo o qual todas as igrejas que dizem fazer parte do cristianismo têm o mesmo nível de verdade ou que cada uma delas não tem mais que uma parte dessa verdade.
Antes de se tornar Papa com o nome de Bento XVI, o cardeal Joseph Ratzinger presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, e a declaração "Dominus Iesus" foi divulgada sob sua responsabilidade. A declaração, segundo a qual apenas a Igreja Católica dispõe de todos os meios de salvação, causou comoção em meio às igrejas protestantes, classificadas de simples "comunidades eclesiásticas" pela "Dominus Iesus". A declaração divulgada agora se refere a uma parte do documento "Lumen Gentium", do Concílio Vaticano II, que afirma que a única Igreja de Cristo "subsiste" na Igreja Católica. Embora haja muitas formas de interpretar o verbo, o cardeal Ratzinger preferiu entender, na "Dominus Iesus", que com o emprego de "subsiste" o Concílio queria dizer "existe realmente".
Para ilustrar o raciocínio, vale destacar alguns trechos da “Dominus Iesus”: “Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: ‘Esta é a única Igreja de Cristo [...].” E, sobre outras tradições, assevera: “Não há dúvida que as diversas tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que procedem de Deus (...). Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os corações dos homens a se abrirem à acção de Deus. Não se lhes pode porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos. Por outro lado, não se pode ignorar que certos ritos, enquanto dependentes da superstição ou de outros erros (cf. 1 Cor 10,20-21), são mais propriamente um obstáculo à salvação.”
Por afirmações como essas é que se conclui que, nas últimas décadas, a Igreja Católica esteve marcada por aquilo que Leonardo Boff chamou de “infantilização dos cristãos”. Basta comparar, por exemplo, a luta pela vida e a opção preferencial pelos pobres defendidas pela Teologia da Libertação (tão perseguida pela Cúria Romana) com a explosão carismática experimentada pela Igreja nas últimas décadas. Uma olha visceralmente para a História (e errou muitas vezes por perder sua dimensão espiritual propriamente dita) enquanto a outra perde seu olhar num céu tão distante, temperada por melodiosas canções de louvor, gritos de aleluia e manifestações, no mínimo, estranhas. A Igreja tem nos ensinado – e isso não é prerrogativa exclusiva da Igreja Romana – o que realmente significa ser como criança, advertência evangélica requerida por Cristo!
Minha gratidão ao Papa é de natureza pessoal. Conheci a Jesus Cristo e sua Palavra, por testemunho e ensinamento de pessoas ecumênicas. Aprendi na Igreja que o Evangelho liberta e nos torna pessoas abertas à ação revigoradora do Espírito Santo. Aprendi que, em Cristo, não há grego nem judeu, não há pobres nem ricos. Foi na Igreja que compreendi o significado da palavra “ecumênico” e foi nela que entendi o que significa ser capaz de dividir o mesmo teto com seres humanos que comungam de modo diferente. Estou grato porque as dificuldades que sempre encontrei na lida ecumênica agora têm uma explicação. Não existem outras igrejas; o que há são, simplesmente, comunidades eclesiais, sem qualquer valor! Estava errado quanto ao meu ecumenismo!
Minha gratidão é, também, de natureza institucional. Foi na Igreja Metodista que ouvi o chamado de Deus para servi-lo como pastor. Foi nela que cumpri parte de minha educação teológica. Não obstante as diferentes tendências da igreja, sempre enxerguei alternativas e espaços para todos. Cria, verdadeiramente, ser rica a pluralidade teológico-pastoral da Igreja. Sendo a experiência ecumênica algo que cultivo em minha vida devocional, havia tranqüilidade e orgulho em participar dos eventos públicos representando minha denominação e carregando a bandeira do diálogo, oficialmente. Estou grato porque, para permanecer fiel ao chamado que ouvi de Deus no tocante ao diálogo e a diversidade, devo acatar o que pensam as instituições (a minha, inclusive, que optou, em 2006, por deixar de ser signatária de organismos ecumênicos com a presença da Igreja Católica). Para ser cristão, devo deixar de ser ecumênico. Creio que será mais fácil mesmo. Vou olhar para o meu próprio umbigo e fingir que tudo que existe, “subsiste” sob a atenção do meu olhar.
Minha gratidão tem, ainda, o aspecto teológico. Entendo a teologia como instrumento de atualização da fé e da Revelação. Só consigo enxergar doutrinas e costumes e os reconhecer como legítimos se forem fundados minimamente numa reflexão teológica séria e consistente. Agradeço porque descobri que há seriedade sim em recolher-me ao isolamento. Que há consistência teológica sim em julgar a fé alheia. Que há acerto sim em dividir o mundo entre certos e errados, santos e pecadores!
Minha gratidão, na verdade, é apenas peça retórica para não dizer o que realmente penso. Impublicável! O que há por trás de uma decisão como essa é o mais arraigado e atrasado fundamentalismo bíblico-teológico, que considera um determinado grupo como superior, como central, como proprietário da verdade em detrimento de qualquer um que pense e aja diferentemente.
Creio que o que fundamenta uma postura sectária e intolerante como essa é, por um lado, o sentimento de superioridade que a Igreja Romana cultiva a respeito de si. Por outro lado, a responsabilidade está numa pastoral proselitista irresponsável que considera qualquer um não-católico como desviado. Em ambas as razões está o que há de mais execrável numa vivência religiosa: o falso messianismo, que se considera sempre como perseguido e que considera os demais como alvos a serem alcançados.
Estou, na verdade, triste. Profundamente triste. Recebo a publicação de um documento como esse com a triste impressão que, na Igreja (em qualquer uma), não há, de fato, salvação. Os homens e mulheres de boa vontade deverão, por força de sua vocação para o diálogo, buscar essa interação fora da Igreja, lamentavelmente.
Estou, também, com pena da Igreja. Está de costas para o mundo contemporâneo que reclama solidariedade e diálogo. Como acontecera no tempo de Jesus, a salvação não está no templo de Jerusalém (de Roma, ou de qualquer outro centro eclesiástico); está, isto sim, vindo da Galiléia dos gentios, estrangeiros. É preciso olhar para fora da Igreja em busca da salvação!
Cultivo, todavia, esperança. Creio que as vozes ecumênicas que se mantinham caladas por comodidade ou por tranqüilidade serão conclamadas a pregar o Evangelho da Unidade.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 10:18 AM
Sobre saberes e valores.
Nos últimos anos, a escola tem sofrido uma pressão instigante, mas, por vezes, injusta e descabida. Com a emergência das novas tecnologias de informação, sobretudo a internet, professores e alunos têm experimentado novos desafios, especialmente o de acompanhar a velocidade com que as informações são produzidas, sem, forçosamente, que essa dinâmica tenha relação com princípios ou valores de natureza ética.
Está claro que a escola anda vagarosamente, se comparada ao ritmo frenético da sociedade de consumo, e, mais claro ainda, que jovens têm maior intimidade com as máquinas que os adultos, dentre os quais, destacam-se professores e professoras. Mas é importante fazer justiça: acionar botões e softwares não significa, necessariamente, competência, sobretudo, se pensarmos em competência acadêmica.
Muito se diz sobre o descompasso existente entre as propostas colocadas pela escola e as demandas reais do mundo contemporâneo. De um lado, a tradição firmada no que já existe e que deve ser, mimeticamente, repetido; de outro, a exigência de uma sociedade sedenta por novidades. Entre os extremos, pessoas: alunos e professores. A escola, lamentavelmente, tem dificuldades profundas com mudança; tem receios imensos com a ousadia. A sociedade hodierna, por seu turno, exige ineditismo todos os dias; daí sua superficialidade. Ambas, porém, carecem de pensar mais seriamente sobre valores.
Um exemplo claro disso é a desenvolvida habilidade dos jovens com os computadores e a atrofiada exigência escolar com relação a esses novos recursos no cotidiano acadêmico. De um lado, a rapidez e perspicácia jovem com os botões e ferramentas virtuais; de outro, a morosidade de uma escola que ainda pensa sobre papel.
Mas uma ressalva importante deve ser feita. Por uma lacuna deixada pela escola – que não se “ligou” nas novas tecnologias e suas potencialidades – e pela responsabilidade da exigência contemporânea por novidades – ainda que superficiais e improdutivas – a relação íntima de jovens, computadores e internet não resulta em pesquisa e aprendizado relevantes. Ao contrário, redundam em mesmices, cópias e, muitas vezes, fraudes.
Qual é o professor que nunca se deparou com cópias inteiras de textos disponíveis na rede? Qual é o docente que nunca se perguntou o que fazer com belos trabalhos escolares, formatados com a beleza das novas ferramentas, mas desprovidos de qualquer lampejo de criatividade e rigor acadêmicos?
Pois bem, o que se desenha é, mais ou menos, o seguinte: jovens hábeis com mouse e teclado; computadores com acesso a um mundo cada vez mais vasto de informações; professores nem sempre competentes com tais ferramentas; trabalhos escolares sem pertinência pedagógica e com discutível valor acadêmico. De uma vastidão de opções, resultam pesquisas, trabalhos, textos e tarefas escolares de valor absolutamente questionável!
Creio que a responsabilidade sobre tal discrepância tenha dois sentidos. De uma ponta, está a inabilidade da escola com a produção de conhecimento. Mas isso não é de hoje. Mesmo nos tempos em que livros e bibliotecas imperavam na hora das pesquisas, a cópia e a repetição de idéias já acontecia. Quem não se lembra de ter visitado uma biblioteca buscando por um assunto e recebeu como orientação um ou dois livros marcados em determinadas páginas onde se encontravam as informações desejadas? Lembro-me, até, de uma biblioteca em que o acesso às prateleiras de livros era vedado aos alunos. Havia funcionários para isso! O que se faz hoje, com a internet, é semelhante. Busca-se por um assunto, recorta-se e cola. Pronto, o “trabalho” está pronto!
Por outro lado, há uma responsabilidade que não deve ser desprezada. A referente às demandas esperadas de todos e por todos com relação a sua produtividade. Mais importante do que a relevância é a quantidade do que se produz e a velocidade com que se realiza. O que resulta em mediocridade e superficialidade. Se isso não é necessariamente responsabilidade da escola, é preciso que essa rompa com esse círculo vicioso e espere mais de seus alunos, do que simplesmente tarefas a serem cumpridas.
O que vejo é bem claro. Temos acesso a tecnologia de informação mais barata e mais eficiente do que em qualquer outro momento da história. Temos condições de pensar os programas escolares e ousar com relação a metodologias como em poucos outros momentos da legislação educacional brasileira. Mas ainda repetimos os erros de sempre, tornando a escola mais um compromisso da vida social de cada indivíduo que se encerrará com um canudo de papel e uma festa com fotografias. Talvez fosse o tempo de coadunar a inteligência jovem “antenada” com as novas tecnologias com exigências de aprendizado e construção de conhecimento verdadeiramente novo que fossem mais pertinentes com aquilo que produz solidariedade, ética e justiça.
Se a escola não conseguir, ao final de seu trabalho, produzir conhecimento que ajude a sociedade contemporânea a ser melhor do que está, ela terá fracassado e será co-responsável pelos descaminhos que temos testemunhado. Não bastam habilidade com computadores e saúde produzida em academias, o que realmente fará nosso mundo mais digno será competência acadêmica que transborde em valores éticos e que consiga nos abrir os olhos para enxergarmos a nós mesmos e aos que nos cercam.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 10:17 AM