Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco
docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo
e-mail: ricardo@lengruber.com
Sábado, Novembro 03, 2007
Sobre brincar e estudar …
As últimas décadas experimentaram um fenômeno curioso nos ramos de educação e entretenimento: a emergência cada vez mais numerosa de brinquedos e jogos educativos. As prateleiras de lojas (não necessariamente especializadas) estão repletas de brinquedos que estimulam o raciocínio ou coisas semelhantes; há, inclusive, classificação etária. A idéia é que se aprenda brincando. O objetivo é tornar as brincadeiras infantis uma oportunidade de enriquecimento intelectual.
Suspeito, contudo, que parte da insatisfação dos jovens colegiais em dedicarem-se aos estudos se deve a uma espécie de efeito colateral de tais “recursos” pedagógicos.
Tal suspeita se deve ao fato de entender que brincadeira e estudo são atividades distintas. Primeiro, por causa de seus fundamentos; segundo, por conta de seus objetivos.
Brincadeiras são, por excelência, experiências imaginativas. Brincamos sem intenções. Brincamos gratuitamente. Brincadeiras existem por si mesmas. Brincar não é meio para isso ou aquilo, antes é um fim em si mesmo. A riqueza do brincar está no fato de criar possibilidades realmente inviáveis. No reino da fantasia, a brincadeira gera mundos, personagens, experiências que, doutro modo, não seria possível experimentar.
Estudar é o conjunto de ações dirigidas com um fim preciso: aprender, transformar, criar. Aprendemos o que já está posto; transformamos o existente; criamos novidades. A ciência tem por finalidade ser ferramenta de (re)construção do mundo. O modo que encontramos – civilizatoriamente – de existirmos culturalmente passa expressivamente pela ciência e as tecnologias dela decorrentes. O estudo é precisamente o caminho pelo qual mergulhamos nesse mundo.
Está correto que é possível estudar com prazer e, também, brincar aprendendo. Mas – que fique claro – os esforços didático-pedagógicos por tornar a sala de aula e as experiências de aprendizado algo prazeroso não podem ser confundidos com infantilização do ato de estudar, tampouco confundir estudo com brincadeira. Por outro lado, qualquer aprendizado decorrente das brincadeiras é efeito “espontâneo” da postura lúdica, mas nunca resposta esperada e controlada por pedagogos/projetistas de “brinquedos educativos”.
Suspeito que, na medida em que as crianças são introduzidas ao mundo do estudo por meio de brincadeiras promovidas por tais “recursos”, criam a falsa idéia que aprender e estudar são atos de absoluto prazer que sempre promovem bem-estar e satisfação. Isso não é verdade. Estudar é um esforço! É preciso compreender que estudo e conhecimento exigem dedicação, trabalho, disciplina e rigor. Isso não se aprende brincando; se aprende com exercício e cultivo da perseverança.
Tornar a brincadeira um recurso para aprender a estudar é esvaziá-la de sua gratuidade e torná-la enfadonha e superficial. Se concordamos que lugar de criança é na escola, é porque devemos concordar também que a escola deve promover – especialmente nos primeiros anos de vida (na educação infantil de até 5 ou 6 anos de idade) – espaços verdadeiramente livres para a brincadeira. As letras e os números virão depois, quando o cérebro estiver realmente preparado para tais estímulos. Somente nesse momento o estudo propriamente dito emergirá como necessidade e conseqüência. Aí, sim, é momento de estimulá-lo radicalmente, ajudando os meninos a se concentrarem, se esforçarem e vencerem as barreiras que encontrarão pela caminhada.
Antecipar tal empreendimento é, primeiramente, esvaziar a brincadeira de sua significação mais plena: a gratuidade e a imaginação. Além disso, tal afobamento é comprometer o sucesso da carreira acadêmica e intelectual dos indivíduos que confundirão estudo com brincadeira e, quando despertarem para a realidade diferente, simplesmente o rejeitarão, consciente ou inconscientemente.
Duas palavras ainda são relevantes. Brinquedos de verdade não são os inspecionados pelo Inmetro, mas os gerados pela criatividade infantil. Mais interessante que a boneca da TV que fala, sorri e age como um robô é a caixa da boneca que pode, por meio da imaginação inventiva da criança, tornar-se tudo! Outra questão: crianças herdeiras dessa geração de “alta tecnologia lúdico-pedagógica” são estranhas! Andam sem equilíbrio, porque não aprenderam a correr e cair; falam sílabas corretamente articuladas, mas não sabem inventar palavras (preferem ficar em silêncio diante do “não-saber”); reconhecem letras e números, mas não sabem dividir biscoitos, nem ousam criar enredos para brincadeiras inéditas; relacionam-se com mais egoísmo do que o normal, porque não foram despertadas para a convivialidade exigida pelas verdadeiras brincadeiras.
Acredito que seja tarefa premente da Educação ajudar nossos pequenos a brincar gratuita e graciosamente, sem objetivos determinados, com vistas, apenas, ao amadurecimento social e humano; além de cooperar para que, quando for o tempo oportuno, saibam se dedicar aos estudos e, por conta dele, crescerem intelectualmente.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM
Sobre a morte e o morrer ...
(a propósito de Finados)
A morte é, seguramente, um tema sobre o qual há muita resistência em se discutir. É, por outro lado, uma realidade sobre a qual não há o que se discutir! Todos morremos e, sobre tal verdade, não há possibilidade de qualquer aporia. A questão é como nos relacionamos com tal realidade. Há os que a negam, não aceitando por meio de elaborados discursos ideológicos. Há os que a ignoram, por meio do silêncio.
Está claro que a natureza nos dá fatos e, nos distinguimos dos demais animais, mais do que por consciência, pela capacidade de outorgarmos sentido novo e original para os referidos fatos. No caso da morte, mais do que saber de sua inevitabilidade, ousamos significá-la de modo que habite com um mínimo de conveniência nossos sistemas de pensamento, de valores e de atitudes. Em outras palavras, é porque encaramos a morte e sua inevitabilidade que optamos por assumi-la como uma espécie de companheira de viagem que nos ajuda a encontrar o caminho certo a trilhar!
O cotidiano, porém, nos revela um relacionamento mais traumático com a morte. Violência, injustiça social, fome, enfermidades e tantos outros descaminhos nos fazem crer que seria possível evitar o fim. Obviamente, não está excluída a luta pela vida e pela dignidade dela; mas não nos é possível divagar sobre o foco principal e, de alguma forma, negar ou esconder a realidade. Todos morre(re)mos!
Um elaborado sistema de negação da morte é o discurso científico. A medicina, por exemplo, quando investe todas as suas forças em esticar a vida a todo o custo nos frios CTIs, contribui para o prolongamento dos dias de vida, mas se esquece que o sentido e a qualidade da vida está um pouco distante da quantidade de dias vividos. Preferirei morrer em casa, ao lado dos meus queridos, sentindo o cheiro do meu lar, a dar meus últimos suspiros ouvindo bips e enxergando azulejos brancos, com hora pré-determinada para alguém me tocar.
Outro discurso muito bem elaborado que, por vezes, pode nos levar a negação escamoteada da morte é a religião. Qualquer sistema religioso que se preze não excluí de seu elenco de assuntos a morte. Há, porém, modalidades nesses discursos que nos afastam da realidade e criam um mundo virtual no qual parece estar a verdade. No caso do Cristianismo, por exemplo, a fé na ressurreição, que se coloca como uma bela e profunda consciência sobre a morte e seu significado mais radical, pode transformar-se ideologicamente numa fuga da vida e de suas responsabilidades.
Acredito que tanto a ciência quanto a religião, cada uma a seu modo e no seu lugar, devam nos ajudar a viver e, por conseqüência disso, nos ajudar a morrer, também, com mais coragem e com maior dignidade! Isso porque a morte é conseqüência da vida. Ou, de outra forma, a morte é parte integrante da vida. Vida e morte são uma linha de continuidade. A morte não pode ser encarada como um ponto ao fim da vida. Isso faz dela uma tragédia sobre a qual a vida perde seu significado. A morte, ao contrário, cria a expectativa da realidade. Como não temos todo o tempo ao nosso dispor, e como não sabemos a hora de nossa morte, cada instante de vida adquire um status plenamente original: é o único que dispomos. Ou o gozamos bem, ou corremos o risco de jogar tudo fora!
Assim, morrer é uma tarefa que se constrói vivendo. A exemplo do que ocorre com a natureza – na medida que começamos a morrer no dia que nascemos, dada a provisoriedade dos sistemas vitais do corpo humano – importa-nos afinar nossa conduta de modo que cada dia vivido seja experimentado com a possibilidade de ter sido o último, sem que haja necessidade de um seguinte para corrigir alguma coisa. Quando isso ocorre, a morte ganha uma outra conotação: deixa de ser uma tragédia inevitável que nos toma de surpresa, e passa a ser uma amiga de todos os dias que nos lembra da fragilidade da vida e da importância de sua experiência radical, tanto no aspecto pessoal, como nas questões de natureza convivial.
Nesse sentido, a morte dos outros pode nos ajudar a morrer melhor! Os que amamos e já se foram podem nos servir de alerta sobre a provisoriedade da existência e, dessa forma, contribuir para que ousemos viver com mais radicalidade. Que bom seria se pudéssemos desde bem cedo enxergar a morte dessa forma e com ela nos relacionarmos sem muitos traumas. Seríamos mais sensatos e mais corajosos! Os mortos não podem ser relegados ao esquecimento dos CTIs, dos necrotérios e dos cemitérios. Precisam fazer parte de nós e conosco conviverem. Não numa relação de luto constante que deprime e impede a vida, mas como alimento antropofágico que nos dá força e ressignifica nossa existência.
Por fim, devo resgatar um exemplo bíblico que ilustra com radicalidade o significado profundo da morte. A cruz e a morte experimentada nela por Jesus não foram acidentes de percurso. A morte de Jesus de Nazaré foi conseqüência de sua vida. Sua intransigente opção pelo bem e pelo amor o fizeram ter que encarar as ameaças da cruz. Como não recuou um milímetro em sua opção, a morte levantou-se como inevitável e é exatamente nesse sentido que a morte passou a fazer parte de sua vida; e, mais ainda, a morte deixou de ser fim e passou a ser inauguração de uma nova dimensão da caminhada: a ressurreição. O Cristo ressuscitado é o mesmo Jesus crucificado; carrega as mesmas chagas. A vida, porém, ascendeu a um novo patamar onde as fronteiras entre vida e morte ruíram e um Ser Humano novo, recriado, passou a viver plenamente!
É isso – Tempus Fugit! Carpe diem!
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:46 PM
Produção acadêmica e conhecimento relevante.
Nos últimos anos, a escola tem sofrido uma pressão instigante, mas, por vezes, injusta e descabida. Com a emergência das novas tecnologias de informação, sobretudo a internet, professores e alunos têm experimentado novos desafios, especialmente o de acompanhar a velocidade com que as informações são produzidas, sem, forçosamente, que essa dinâmica tenha relação com princípios ou valores de natureza ética.
Está claro que a escola anda vagarosamente, se comparada ao ritmo frenético da sociedade de consumo, e, mais claro ainda, que jovens têm maior intimidade com as máquinas que os adultos, dentre os quais, destacam-se professores e professoras. Mas é importante fazer justiça: acionar botões e softwares não significa, necessariamente, competência, sobretudo, se pensarmos em competência acadêmica.
Muito se diz sobre o descompasso existente entre as propostas colocadas pela escola e as demandas reais do mundo contemporâneo. De um lado, a tradição firmada no que já existe e que deve ser, mimeticamente, repetido; de outro, a exigência de uma sociedade sedenta por novidades. Entre os extremos, pessoas: alunos e professores. A escola, lamentavelmente, tem dificuldades profundas com mudança; tem receios imensos com a ousadia. A sociedade hodierna, por seu turno, exige ineditismo todos os dias; daí sua superficialidade. Ambas, porém, carecem de pensar mais seriamente sobre valores.
Um exemplo claro disso é a desenvolvida habilidade dos jovens com os computadores e a atrofiada exigência escolar com relação a esses novos recursos no cotidiano acadêmico. De um lado, a rapidez e perspicácia jovem com os botões e ferramentas virtuais; de outro, a morosidade de uma escola que ainda pensa sobre papel.
Mas uma ressalva importante deve ser feita. Por uma lacuna deixada pela escola – que não se “ligou” nas novas tecnologias e suas potencialidades – e pela responsabilidade da exigência contemporânea por novidades – ainda que superficiais e improdutivas – a relação íntima de jovens, computadores e internet não resulta em pesquisa e aprendizado relevantes. Ao contrário, redundam em mesmices, cópias e, muitas vezes, fraudes.
Qual é o professor que nunca se deparou com cópias inteiras de textos disponíveis na rede? Qual é o docente que nunca se perguntou o que fazer com belos trabalhos escolares, formatados com a beleza das novas ferramentas, mas desprovidos de qualquer lampejo de criatividade e rigor acadêmicos?
Pois bem, o que se desenha é, mais ou menos, o seguinte: jovens hábeis com mouse e teclado; computadores com acesso a um mundo cada vez mais vasto de informações; professores nem sempre competentes com tais ferramentas; trabalhos escolares sem pertinência pedagógica e com discutível valor acadêmico. De uma vastidão de opções, resultam pesquisas, trabalhos, textos e tarefas escolares de valor absolutamente questionável!
Creio que a responsabilidade sobre tal discrepância tenha dois sentidos. De uma ponta, está a inabilidade da escola com a produção de conhecimento. Mas isso não é de hoje. Mesmo nos tempos em que livros e bibliotecas imperavam na hora das pesquisas, a cópia e a repetição de idéias já acontecia. Quem não se lembra de ter visitado uma biblioteca buscando por um assunto e recebeu como orientação um ou dois livros marcados em determinadas páginas onde se encontravam as informações desejadas? Lembro-me, até, de uma biblioteca em que o acesso às prateleiras de livros era vedado aos alunos. Havia funcionários para isso! O que se faz hoje, com a internet, é semelhante. Busca-se por um assunto, recorta-se e cola. Pronto, o “trabalho” está pronto!
Por outro lado, há uma responsabilidade que não deve ser desprezada. A referente às demandas esperadas de todos e por todos com relação a sua produtividade. Mais importante do que a relevância é a quantidade do que se produz e a velocidade com que se realiza. O que resulta em mediocridade e superficialidade. Se isso não é necessariamente responsabilidade da escola, é preciso que essa rompa com esse círculo vicioso e espere mais de seus alunos, do que simplesmente tarefas a serem cumpridas.
O que vejo é bem claro. Temos acesso a tecnologia de informação mais barata e mais eficiente do que em qualquer outro momento da história. Temos condições de pensar os programas escolares e ousar com relação a metodologias como em poucos outros momentos da legislação educacional brasileira. Mas ainda repetimos os erros de sempre, tornando a escola mais um compromisso da vida social de cada indivíduo que se encerrará com um canudo de papel e uma festa com fotografias. Talvez fosse o tempo de coadunar a inteligência jovem “antenada” com as novas tecnologias com exigências de aprendizado e construção de conhecimento verdadeiramente novo que fossem mais pertinentes com aquilo que produz solidariedade, ética e justiça.
Se a escola não conseguir, ao final de seu trabalho, produzir conhecimento que ajude a sociedade contemporânea a ser melhor do que está, ela terá fracassado e será co-responsável pelos descaminhos que temos testemunhado. Não bastam habilidade com computadores e saúde produzida em academias, o que realmente fará nosso mundo mais digno será competência acadêmica que transborde em valores éticos e que consiga nos abrir os olhos para enxergarmos a nós mesmos e aos que nos cercam.
postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 5:45 PM