Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Quarta-feira, Abril 23, 2008

Quero me aposentar!

Há uma questão que, seguramente, atormenta jovens da classe média brasileira: por volta dos seus 17 anos, são pressionados a sair de casa e escolher uma carreira universitária com vistas à formação profissional daí decorrente.
É como se o período escolar básico se organizasse de modo a formar os alicerces necessários à educação superior e essa, por sua vez, se modelasse para assegurar subsídios técnicos e teóricos para a profissionalização.
A idéia é relativamente simples: até os 18 anos, se estuda para “ter base”; dos 18 aos 22 (23), se estuda para “ser alguma coisa”; depois se envereda no “mercado de trabalho”, até a aposentadoria.
Do ponto de vista de um planejamento, a linearidade do processo parece, mais que necessária, o ideal. O problema é que a vida não obedece a linhas retas e direcionadas a um único ponto. A vida é teimosa e impertinente!
Primeiro porque jovens em idade escolar não devem ser submetidos tão precocemente a uma escolha que – de alguma forma – imprimirá a direção de toda uma vida. Segundo, porque a Universidade não pode ser reduzida ao espaço para formação profissional. Terceiro, porque o trabalho é muito mais do que meio de subsistência. Por último, porque o sentido e o anseio da vida não são, simplesmente, a aposentadoria!
Parece-me absurda a pressão irresponsável que família, escola e sociedade exercem sobre os adolescentes. Escolher uma carreira aos 17/18 anos de idade é, no mínimo, um contra-senso. Até porque as experiências na vida escolar pregressa são circunscritas quase que exclusivamente ao universo das carreiras tradicionais que – já não sem tempo – não dizem muito aos jovens, tampouco às demandas reais da sociedade. Esperar que a escolha seja acertada é contar demais com a sorte. Todavia, exatamente por causa da limitação que envolve uma escolha tão precoce, a escola deve olhar mais para fora de si em busca de alternativas verdadeiramente contemporâneas.
É lamentável que, no Brasil, a Universidade tenha raízes ainda tão superficiais. Convivemos com uma crise constante: do espaço privilegiadamente dedicado à pesquisa e a construção do saber novo e instigante se espera que haja formação profissional técnica e voltada a fazer girar a economia nacional. Se radicalizarmos as experiências de faculdades como “cursos preparatórios” para uma função profissional e, com isso, se perdermos a chance de preservar o espaço universitário como oportunidade de fomento à pesquisa, talvez tenhamos sérias dificuldades em encontrar, historicamente, espaço que o substitua. Formação profissional e pesquisa não são, entre si, excludentes, mas seguem caminhos próprios, que devem ser preservados, sob pena de, empobrecendo a pesquisa, estrangular, em breve espaço de tempo, a formação profissional qualificada.
Por outro lado, é curioso que o trabalho profissional em si seja tão penoso para muitas pessoas. É raro encontrar quem seja, realmente, feliz na sua ocupação profissional; alguém que consiga compartilhar a alegria de fazer o que ama e, dessa atividade cheia de realização pessoal, conseguir subsidiar com dignidade os proventos indispensáveis à vida. Parece que a escolha precoce induz, quase que necessariamente, a erros graves no início da jornada; um curso superior mal escolhido concorrerá numa carreira profissional infeliz; e, por fim, como tal carreira foi forjada num curso meramente “profissionalizante”, a chance de repensá-lo será praticamente nula; daí, só restará, infelizmente, esperar com ansiedade o tempo para a aposentadoria! A beleza do trabalho humano e todas as suas implicações na própria dignidade do ser humano ficam, por causa de tudo isso, ofuscadas. O trabalho deixa de ser componente intrínseco à vida e assume papel de ocupação passageira.
Ao fim de tudo, estará a aposentadoria. O problema é que, quando ela chegar, trará consigo um mar de frustrações e decepções. No fim, o balanço da vida será triste. Se aposentar é se recolher no aposento; e se aposento é onde temos a chance de pousar e descansar; aposentar é, em algum sentido, voltar para casa, estar em casa. Assim, ao fim, não estará a verdadeira aposentadoria, antes uma espécie de prisão dentro de si mesmo. Estar em casa é ter a liberdade de encontrar-se consigo mesmo e, desse movimento para dentro, jorrar uma extrema sede de diálogo com quem nos cerca. Algo que não ocorre depois de uma vida inteira, mas que deve ser descoberto a cada dia.
Por isso, parece-me que a tarefa mais urgente da escola não é ajudar a escolher a profissão certa, mas contribuir para que nossos jovens encontrem nos estudos seu aposento, e ousem fazer dele um trabalho, que, por força da transformação dele decorrente, imprima rumos próprios à experiência de cada indivíduo. Nesses termos, estudo e trabalho são correlatos, interdependentes.
É por força dessas convicções que quero, sim, me aposentar. Quero, hoje, ter a certeza de que amo o que faço, porque o produto do meu trabalho é, antes de tudo, algo que enche de brilho o meu olhar e ajuda-me a encontrar o sentido da minha existência. Ainda que distante, quero conseguir me sentir em casa todos os dias.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:32 PM



Sonhar não custa nada ...

No dia 11 de fevereiro de 2008, reuniram-se docentes de inúmeras instituições privadas de ensino para uma palestra com o Prof. José Pacheco, patrocinada pelo Sindicato das Escolas Particulares do Rio de Janeiro, por intermédio de sua delegacia em Nova Friburgo. O objetivo foi refletir conjuntamente sobre práticas pedagógicas, bem como ampliar os horizontes nas discussões sobre temas relevantes da vida escolar.
O palestrante fez uma afirmação sobre a qual gostaria de refletir mais detidamente. Disse que, consultado por autoridades brasileiras acerca de propostas para melhoria no ensino nacional, sugeriu a extinção do Ministério da Educação, bem como de todas as secretarias estaduais e municipais! Acreditava, dizia o palestrante, que não passavam de desperdício de recursos públicos sem a mínima coerência na utilização dos mesmos.
Não pretendo discutir o assunto sob o ponto de vista da administração pública, mas ensaiar umas idéias muito genéricas sobre possibilidades decorrentes de uma eventual extinção do Ministério.
1. Sem um órgão controlador, as escolas teriam mais liberdade no trato de suas questões internas e prestariam contas à sociedade por sua excelência em qualidade. Pais não matriculariam seus filhos nessa ou naquela escola porque cumpre ou descumpre um programa predeterminado. Matriculariam porque acreditariam numa filosofia de trabalho proposta por essa escola. Haveria escolas dedicadas mais proximamente a questões ecológicas; outras, a assuntos de natureza sócio-econômica; outras ainda, teriam liberdade para manter suas convicções confessionais etc. Sem uma diretriz nacional – que só serve para estreitar horizontes – as escolas teriam autonomia e, com tal liberdade, gozariam de credibilidade junto à sociedade na medida que atuassem com fidedignidade à proposta enunciada por si mesma, bem como pela excelência da educação ali cultivada. Os programas de conteúdos hoje existentes, impostos e desnecessários, cederiam espaço a demandas reais da sociedade adequadas a seu tempo e lugar.
2. Sem um órgão gestor central, as escolas públicas, por exemplo, seriam iniciativas de grupos de profissionais que – ao invés de prestarem um concurso público que lhes garante estabilidade para (às vezes) manterem as coisas exatamente como estão – proporiam projetos de educação afinados com a realidade social, política, econômica, cultural e ambiental que os cerca. Em lugar de buscarem emprego, requisitariam verbas públicas para empreenderem por iniciativa própria tais projetos. Haveria muito mais engajamento profissional numa escola cuja filosofia não tem a ver com esse ou aquele momento político, mas com ideais nascidos do coração de educadores que pisam o chão das salas de aula, e não dos gabinetes refrigerados do planalto central.
3. Sem um ministério, caberia as administrações locais a garantia da qualidade. Nesse caso, os conselhos comunitários (com administradores, docentes, familiares, discentes, representantes dos segmentos da sociedade civil etc) ficariam incumbidos não apenas de propor, mas gerir recursos junto ao poder público e a iniciativa privada para prover seus projetos. Ainda que deva ficar mantida a responsabilidade dos órgãos públicos para providenciar, controlar e fiscalizar recursos, não devem estar restritas ao Estado tais atribuições.
4. As universidades teriam liberdade para admitir seus alunos por critérios mais legítimos do que o famigerado vestibular. Em lugar de uma prova de conhecimentos absolutamente anacrônicos e inúteis, haveria espaço para projetos pessoais. Imagino uma banca de professores universitários investigando memoriais e currículos de estudantes que se candidatam a projetos propostos por cursos e setores das faculdades. As pessoas integrariam grupos de pesquisa não porque passaram numa prova, mas porque seu histórico de interesses e suas habilidades reais se coadunam com o proposto num determinado plano de estudos e pesquisa.
Resumindo: currículo seria sinônimo de horizontes e não de grade; avaliação seria equivalente à oportunidade e não prova; disciplina seria sinônimo de discipulado e não de controle; escolas seriam sinônimo de horizontes, linha em que céu e terra se tocam e nos inspiram a caminhar para mais adiante.
São apenas idéias ... porque, afinal de contas, além de não ser proibido nem nocivo, sonhar não custa nada!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 4:31 PM




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