Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Quarta-feira, Abril 29, 2009

Vestibular – Tudo (de) novo!

Vestibular é um jeito brasileiro de se nomear a bateria de testes que em Portugal costuma ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular. O exame vestibular, de tão conhecido e temido por gerações de estudantes brasileiros, acabou se tornando, somente, vestibular.
Vestíbulo (do latim, vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que significa pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma antessala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta de entrada e o corpo principal de uma casa, apartamento, palácio ou prédio público. A ideia por traz de “exame vestibular” é a de que o exame em questão seleciona quem fica por fora e quem é capaz de entrar numa Universidade.
Nos últimos dias, o Ministério de Educação lançou uma série de propostas para mudar o formato do exame. A ideia matriz é que as Universidades possam utilizar o ENEM como sua forma de seleção dos estudantes. O documento Termo de Referência – Novo Enem e Sistema de Seleção Unificada, assinado em 08/04/2009 pela Secretaria de Educação Superior (MEC) expressa que “a modificação do formato do Exame Nacional do Ensino Médio (novo ENEM) – com a realização das provas de Linguagens (incluindo redação); Ciências Humanas; Ciências da Natureza e Matemática – e a consequente valorização dos conteúdos acadêmicos próprios do ensino médio, gera a possibilidade de utilização dos resultados desse exame para a seleção dos ingressantes no ensino superior. A opção pela utilização do novo ENEM não implica abdicar de outros mecanismos de seleção, (...), observado, naturalmente, o total de vagas regularmente oferecidas pela Instituição de Educação Superior (IES)”.
Para o MEC, no mesmo documento, “essa utilização pode se dar de duas formas. A primeira, mediante simples informação, pelo INEP, à IES, dos boletins de resultados dos candidatos que tiverem realizado o novo ENEM, adotado como prova de seleção (...). A segunda forma de utilização do novo ENEM consiste na adesão ao Sistema de Seleção Unificada, sistema informatizado do Ministério da Educação apto a processar o registro das vagas especificamente oferecidas pelas IES, em confronto com as listas ordenadas de candidatos, em ordem decrescente, por curso, segundo a pontuação no Exame. O pressuposto da adesão ao Sistema de Seleção Unificado é a utilização do novo ENEM como fase única, sem prejuízo de eventual realização de exame de aptidão para áreas específicas”.
O ENEM nasceu com o objetivo de diagnosticar habilidades gerais do jovem estudante. Segundo o INEP, “para a elaboração da prova do Enem, constituída de uma parte objetiva e uma redação, é utilizada uma matriz de competências. Neste caso, a palavra competência está ligada à capacidade do estudante, entre outras coisas, em dominar a norma culta da Língua Portuguesa, compreender fenômenos naturais, enfrentar situações-problema, construir argumentações consistentes e elaborar propostas que atentem para as questões sociais. A cada competência corresponde um conjunto de “habilidades”, que seriam a demonstração prática dessas competências”.
Ao que tudo indica, o ENEM – que não nasceu para ser exame de seleção, e sim com o mérito de estimular raciocínio, competências e habilidades, alem de promover uma mudança de mentalidade nas propostas pedagógicas das escolas, já que prescinde da velha “decoreba” – será transformado em exame vestibular.
Segundo o MEC, tal exame cobrará do aluno o conteúdo das matérias do Ensino Médio que são pré-requisito para se conseguir acompanhar o Ensino Superior. Isso era e é a função do vestibular. Fazer o ENEM cumprir essa função é perder o ENEM como mecanismo de averiguação para o qual ele foi criado, e é dar sinais, de uma vez por todas, de que não há interesse em modificar o Ensino Médio. Em outras palavras: antes tínhamos o ENEM e o vestibular, cada qual com a sua função, de agora em diante teremos somente o vestibular, com nome de ENEM.
Na prática, o que está para ocorrer são dois erros, com duas conseqüências graves: uma primeira é o da perda do próprio ENEM; a segunda é que a escola brasileira de ensino médio ainda não sabe bem (e será que saberá?) o que ensinar claramente!
Acredito que três reflexões precisam ser feitas nesse momento:
1. Está claro que o vestibular tem limitações imensas. Sua forma mais exclui que inclui. O que se estuda para uma classificação razoável é, além de incrivelmente volumoso, suspeito de desnecessário, enfadonho e superado. Para se dar conta da “matéria”, professores têm que criar “musiquinhas”, macetes, fórmulas de “decoreba” etc. É a perfeita banalização! E mais sério: numa etapa tão crucial na vida escolar – momento da adolescência psicológica e da consolidação de valores e habilidades – a escola resume-se a se debruçar sobre banalidades. Mas não se pode perder de vista que estudar é algo que requer disciplina, empenho, renúncias! Nesse sentido, os preparativos para o vestibular podem criar um clima propício para o bom estudo e, consequentemente, para o bom crescimento intelectual. É uma pena que isso aconteça apenas ao final da etapa básica da Educação. Talvez as escolas devam se empenhar mais na construção da disciplina de estudo desde as sérias iniciais do Ensino Fundamental. Crianças e jovens devem ter claro os limites entre brincar e estudar. É lamentável que alguns jovens só encontrem a primeira frustração acadêmica quando se deparam com o vestibular, mesmo não tendo levado à sério seus estudos pregressos.
2. O atual Enem é uma avaliação diferente da maioria dos vestibulares. Isso porque as 63 questões do Exame não favorecem a decoreba, não oferecem pegadinhas, nem exigem macetes.
A prova do Enem é interdisciplinar, ou seja, procura reunir conhecimentos de diversas áreas em uma mesma questão, relacionando-os. O Exame avalia a sua capacidade em resolver situações-problema. O que conta é o conhecimento adquirido na vida escolar e no dia-a-dia. A proposta de redação do Enem é baseada em diferentes textos e linguagens que tratam de temas atuais e nacionais. Estes textos estimulam a reflexão e a avaliação a respeito dos argumentos, informações, fatos e opiniões que apresentam. A partir dessa análise, o participante do Enem deve criar um novo texto argumentativo-dissertativo, onde apresente seu ponto de vista. Utilizar esse tipo de exame para selecionar somente os mais bem classificados é correr o risco de se perder a essência que lhe é específica.
3. Uma questão final tem a ver com uma frase quase despercebida pela maioria dos leitores das novas orientações do MEC. Depois de expressar-se sobre o novo formato do ENEM, o termo de referência salienta que: “observado, naturalmente, o total de vagas regularmente oferecidas pela Instituição de Educação Superior”. Eis o nó! Por que os vestibulares são tão concorridos? Porque não há vagas em número razoável. Para se ter uma ideia do problema, na USP, a relação candidato-vaga no curso de Medicina foi, em 2003, de 31,07. Ou seja, para cada vaga disputada, havia mais de trinta concorrentes! Os vestibulares são cada vez mais “difíceis” porque somente assim é possível eliminar 30 em cada grupo de 31 jovens lutando por uma vaga. O problema não é passar no vestibular! Estudantes com 70%, 80% ou 90% de acerto – que claramente estão aptos – não conseguem a classificação. O problema não é educacional, é político! Faltam vagas! E isso não parece ser contemplado na mudança no formato do sistema de exames para ingresso nas Universidades. Pode-se modificar tudo, mas enquanto não se ampliarem as vagas, nada mudará! O Ensino Médio continuará a ser uma etapa de triagem dos mais afeitos aos macetes e melhor condicionados à decoreba em detrimento dos que, talvez, estejam mais bem preparados efetivamente para a educação superior.
Em suma, vestibular ainda não é problema de educação. É uma questão política! Depois que houver mais vagas e a relação candidato-vaga for humanamente justa, os educadores poderão honestamente se debruçar sobre a questão e pensar um exame que mescle a competitividade dos atuais vestibulares com as estimulantes propostas do ENEM para formatar um exame de seleção que cumpra dois ricos propósitos: primeiro, pautar a educação básica em formar pessoas verdadeiramente estudiosas, compenetradas, conscientes dos seus objetivos; segundo, selecionar os estudantes que objetivamente se adequam às carreiras universitárias pretendidas!
Enquanto não houver vagas na Universidade pública que atendam as demandas da sociedade brasileira, haverá espaço fecundo para os cursinhos encontrarem caminhos criativos (nem sempre louváveis) para os jovens aprenderem a se acotovelar na multidão e conseguirem um lugar ao sol. E pior: as mais profundas marcas de desigualdade social permanecerão: os mais ricos conseguirão, os mais pobres permanecerão como tal!
É lamentável, no Brasil tudo se muda, para nada mudar!

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 9:16 AM




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