Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Segunda-feira, Agosto 17, 2009

“Nova” Gripe – “Velhos” Esquemas

O alvoroço e medo causados pelas notícias a respeito do novo vírus Influenza A (subtipo H1N1) responsável pela infecção respiratória aguda grave, popularmente conhecida como gripe suína, revelam também outras questões sérias da sociedade brasileira que me perturbam bastante.
Sinto-me incomodado com o fato de não haver – no caso das escolas particulares, por exemplo – nenhuma deliberação oficial que determine o fechamento das mesmas por um período maior de tempo do que as férias de julho. A decisão pelo retorno somente na segunda quinzena de agosto foi tomada pelas direções de escolas que, perdidas em meio a informações desencontradas, preferiram se resguardar e não submeter os estudantes a uma eventual ameaça causada pelas aglomerações. Nenhum órgão público que teoricamente deveria ser responsável por tal determinação (tanto na área de saúde como na de educação) se pronunciou consistentemente. A palavra recorrente foi “recomendação”. Em lugar disso, me pareceria mais apropriado “determinação”!
Uma outra questão tem a ver com as declarações de “especialistas” na imprensa. Curiosamente, surgiram entendedores em vírus por todos os cantos. Mas ainda assim ninguém fez afirmações seguras sobre os verdadeiros riscos. A ideia que se passa é de que ninguém quer efetivamente “assinar” nada. Diante do desconhecido, melhor é o silêncio. Mas como uma matéria jornalística pode ser sinônimo de notoriedade, melhor então é o discurso empolado dos “cientistas” de fim de semana que nada dizem de concreto.
Mais estranho ainda são decisões judiciais que “determinaram” o uso de máscaras faciais em estádios de futebol e shows musicais! É complicado compreender porque é “recomendada” a suspensão de aulas para milhões de jovens brasileiros, mas não é “determinada” a proibição de aglomeração em jogos e shows. Que país é esse que não “abre mão” de um jogo de futebol, mas concorda em suspender atividades de educação? Isso é incompreensível!
Também não consigo engolir algumas informações “científicas” sobre o tema. Causa-me estranheza saber que “descobriram” uma nova variante do vírus Influenza em tão pouco tempo! Há tanta dificuldade em outras questões sérias. Essa me pareceu eficiente demais! Além disso, a cada ano, no mundo, morrem milhões de pessoas vítimas de malária, que se poderia prevenir com um simples mosquiteiro. Morrem 2 milhões de crianças com diarreia, que se poderia evitar com soro, que custa 25 centavos. Doenças como o sarampo, que podem ser evitadas com vacinas baratas, provocam em torno de 10 milhões de mortes de pessoas por ano. Por que tanto interesse em Gripe, se não parece ocorrer o mesmo com diarreia, sarampo e malária? Ou, por que tanto interesse com a “nova” gripe, se a “antiga” permanece matando tanto?
Isso sem entrar nas questões dos medicamentos. O Brasil tem, em estoque, mais de 11 milhões de doses. Admira-me tanta rapidez e eficiência! Risível, também, é a recomendação do álcool (em gel!). Será mesmo que água e sabão não são suficientes? Quantos usineiros felizes!
Não sou de enveredar por teorias da conspiração e coisas do tipo. Mas também não sou de acreditar cegamente nas unanimidades. Elas não são as opiniões mais inteligentes.
Concordo que devamos nos prevenir, sim. Mas devemos, também, exigir um posicionamento concreto das autoridades competentes. Se isso não ocorrer, responsabilidades serão depositadas nas costas de todos, menos dos verdadeiros detentores de tal prerrogativa.
O que vejo é simples: há muita informação desencontrada; ninguém está disposto a se responsabilizar por nada; alguns aproveitam para aparecer; todos, então, se escondem na precaução; com isso, quem pode, ganha muito dinheiro com o medo.

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 11:34 AM




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