Ricardo Lengruber Lobosco

Artigos do Prof. Ricardo Lengruber Lobosco docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo e-mail: ricardo@lengruber.com



Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Sobre ser professor ...

Para refletir sobre temas, gosto de pensar sobre as palavras que melhor dizem sobre o assunto.
Para pensar, por exemplo, sobre saúde, gosto de indagar sobre “médico”, “hospital”, “saudar”, “salvar” etc. As palavras têm o poder de fazer pensar para além do tema em si; ajudam a ver as conexões que a um primeiro olhar não são óbvias. Isso faz com que os temas frutifiquem e, uma vez amadurecidos, espalhem sementes férteis sobre o terreno.
Por isso, ao pensar sobre a tarefa de professores, não posso deixar de me indagar sobre seu vocabulário. Por exemplo: “educação” é, segundo os dicionários, o ‘processo de desenvolvimento da capacidade física, mental e moral da criança’; educação é, também, sinônimo de polidez. Educadores são os que promovem tal desenvolvimento. É preciso mais que conhecimento intelectual para tanto; importa haver habilidade para despertar tais capacidades nos estudantes.
Quando se pensa assim é-nos possível pensar também na relação entre educadores e educandos. A ideia é simples: há os que educam e os que são educados. De um lado, inspiradores do processo, de outro, os que se favorecerão do mesmo e crescerão. Obviamente que, como em toda relação, há reciprocidade. Educadores se veem como educandos; educandos funcionam espontaneamente como educadores. É como se houvesse uma relação de ensino e de aprendizagem em que ambos os lados do processo agem, reagem e refletem-se mutuamente.
Nada de errado com isso! Em educação, poucas coisas funcionam tão bem como trocas e intercâmbios.
Porém, há mais sobre educação. Educadores são facilitadores do processo. Podem ser qualquer pessoa. Importa apenas que estejam abertas ao processo. Assim, um pipoqueiro ancião na esquina de uma rua por onde passaram gerações, ajuda aqueles que se dão ao tempo de encostar na parede da esquina para conversar. Felizmente, aprendemos dentro e fora das salas de aula!
Diferentes dos educadores são os professores. “Professor” é aquele que professa; professar é dizer publicamente quem somos, no que cremos, porque agimos assim, pelo que esperamos! Profissionais são os que atuam publicamente a serviço da coletividade. Professores são, antes de tudo, profissionais que se colocam perante os demais e arriscam suscitar nos demais que descubram suas profissões. Não digo, todavia, que ser professor é, simplesmente, descobrir talentos profissionais. Ser professor é despertar nos demais a vontade de se descobrir e, por conta da descoberta, se professar.
Creio que por causa das inúmeras forças que desmereceram e desvalorizaram a profissão professor é que teóricos optaram por substituir a palavra. Em lugar de professor, se diz com muito mais veemência educador. Não gosto dessa substituição. Palavras não se substituem como se muda de roupa ou de canal de televisão. Palavras têm história e, como tal, são herdeiras de seus usos e abusos nas ruas e nos livros.
Educador é quem exerce uma função. Professor é o que vive uma vocação. Não são professores os que, simplesmente, ensinam. Professores mergulham mais profundamente. Os professores vivem o que professam!
Com tudo isso, porém, não é possível permanecer com o termo do outro lado da história. Se professores são distintos de educadores, estudantes são muito diferentes de alunos. Alunos são, etimologicamente, os “sem luz”, os desprovidos de luz própria. Aluno casa bem com educador. Se esse é o que desenvolve habilidades, aquele é que tem desenvolvida sua luz ainda apagada. Faz todo sentido. Mas aluno é ma palavra carregada de um preconceito perverso. Pessoas sempre têm luz! Com isso, não é possível negociar.
O vocábulo estudante, entretanto, é mergulhado em uma história muito mais interessante. Estudar é aplicar o espírito com vistas ao aprendizado e crescimento. Estudo é irmão de estúdio. Estúdio é onde artistas se aplicam na tarefa de criar. Estudar e criar são ideias muito próximas. Não há estudo verdadeiro se não houver um mínimo lampejo de criação. Lampejo só há onde há luz nascendo. Estudantes são visceralmente diferentes de alunos. Alunos são desprovidos de luz; estudantes são fagulhas de luz nova desejosa de iluminar tudo a sua volta.
E quanto à relação entre os verbos “ensinar” e “aprender”? É interessante notar que não existe essa distinção no inglês, por exemplo. O verbo to learn pode ser usado tanto para o estudo, quanto para o ensino e a aprendizagem dele resultante. Aliás, learning é sinônimo de knowledge, (conhecimento), erudition (erudição), information (informação), education (educação), science (ciência), wisdom (sabedoria), scholarship (ser acadêmico), lore (lição), understanding (compreensão). "Aprender" em português é, no máximo, sinônimo de estudar, conhecer e instruir-se.
Se essa linha de raciocínio funciona, e se aluno casa bem com educador, estudante casa bem com professor. Eis o par sobre o qual é possível pensar com chances de, ao final da meditação, se encontrar com novidades.
Dito de forma sintética: professores são os que têm algo a dizer e a mostrar, embora não se deixem de abrir o coração para aprender; estudantes são os que se aplicam a aprender, sem, todavia, insistirem em iluminar quem os circunda. Há relação, mas há, contudo, papéis bem definidos.
Professores são exemplos. Sem cair no romantismo pobre do guia moral que impecavelmente conduz um rebanho, não é possível abrir mão da postura professoral. Como qualquer profissional, professores têm sua postura esperada por todos.
Professores exercem autoridade, que é bem diferente de poder. Poder é o que se exerce pela força. Autoridade é que se tem pela postura. Professores são ouvidos. Professores são aguardados. Professores são estimados. E o são porque gozam de autoridade. Os estudantes os veem como quem tem algo a dizer-lhes. Como quem precisa ser ouvido. Professores não gritam. Professores não ameaçam. Professores não discutem. Gritos, ameaças e discussões são mecanismos de poder. Ao contrário destes, serenidade, reconhecimento e diálogo são próprios da autoridade. Professores não gritam porque, sem pedir, são ouvidos – estudantes esperam pelo que ele tem a dizer serenamente. Professores não ameaçam porque sabem reconhecer os valores de seus estudantes e esses, por sua vez, querem mostrar o que tem a ser valorizado. Professores não discutem porque sabem ouvir na hora necessária e dizer na hora devida – sabem dialogar de modo que todos tenham espaço para falar e para ouvir.
Professores são bem humorados, mas não são tolos nem inconvenientes. Seres humanos como todos os profissionais, os professores transpiram humor. Deixam-se sentir pelos humores da vida – trágica e cômica, alegre e entristecida, otimista e resignada, esperançosa e soterrada. Estudantes não acreditam em seres especiais, imunes a tudo. Estudantes sentem a vida e talvez ainda não saibam o que realmente experimentam; esperam encontrar essas pistas naqueles em quem confiam. Nada de errado em estar triste, mas equivocada é a postura dos que maldizem tudo e todos a sua volta por causa de suas desventuras. Professores são profetas. Dizem o que dizem em lugar de muitos outros. Professores são de tudo um pouco: pais, avós, sacerdotes, conselheiros, amigos, terapeutas, policiais, juízes ...
Professores são sérios e exigentes, mas não são carrancudos nem intransigentes. Autoridade se exerce porque há seriedade no que se faz e não há transigência naquilo do qual se exige negociação espúria. Professores não deixam de avaliar porque querem ser amigos de seus alunos. Estudantes se tornam alunos quando professores negociam e transigem com o que lhe é próprio e exclusivo. Professores deixam de ser quando cedem ao caminho mais fácil em detrimento do rigor e da seriedade do seu trabalho.
Professores são polidos e esperam que seus estudantes também o sejam. Polidez significa compostura, responsabilidade, pontualidade, esmero, atenção, serenidade, organização. Mas professores rompem com a falsa polidez porque sabem sentar no chão em roda com seus alunos e cair numa boa gargalhada; conseguem negociar os prazos do que é transigível; passam por cima da falta de capricho naquilo que não conseguiu encantar; relevam os devaneios dos que veem mais beleza pelas janelas do que pelas apostilas; proferem e admitem as palavras duras quando os temas exigem, mais que compreensão, adesão ou rejeição; enfim, toleram desorganizações em nome das criações.
Professores, antes de mais nada, são estudantes que aspiram por saber e não abrem mão do conhecimento por nada aparentemente mais sedutor. Vídeos, textos, apresentações, laboratórios, experiências são re-cursos. Professores são os cursos, propriamente ditos. Para além do que ensinam, os que ensinam ficam preservados na memória dos que aprenderam.
Professores são educadores porque se esmeram em ajudar no “crescimento físico, mental e moral” das pessoas. Professores estimulam hábitos saudáveis; professores ajudam a criar a disciplina do estudo; professores contribuem para que valores positivos sejam regados no espírito humano.
Educadores não são necessariamente professores, porém. E não o são porque educadores só ajudam no “crescimento físico, mental e moral” das pessoas. Professores, mais do que isso, exercem autoridade, são bem humorados, sérios, exigentes e polidos.
Dizia o escritor e pastor inglês William Arthur Ward, no começo século XX, que há quatro tipos de professores: o professor medíocre, que expõe; o bom professor, que explica; o grande professor, que demonstra; o professor excepcional, que inspira.
Por fim, recorro ao Guimarães Rosa: “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente, aprende”.

No silêncio da noite, caminhei em vossas ruas, e meu espírito entrou em vossas casas,
E vossos corações bateram em meu coração, e vosso hálito soprou sobre a minha face, e eu conheci todos vós.
Sim, conheci vossa alegria e vossa dor, e em vossos sonos, vossos sonhos foram meus sonhos.
E muitas vezes estive entre vós, como um lago entre as montanhas.
Refleti os picos em vós, e as encostas íngremes, e até mesmo os rebanhos de vossos pensamentos e vossos desejos.
E ao meu silêncio, chegou o riso de vossos filhos em riachos, e o desejo de vossos jovens em rios.
E quando chegaram a mim, os riachos e os rios não cessaram de cantar.
Mas ainda mais doce que o riso e maior que o desejo, veio a mim
O que era ilimitado em vós;
O vasto homem, dentro do qual sois apenas celas e força;
Ele, em cujo cântico todo o vosso cantar é apenas pulsar silencioso.
É neste vasto homem que sois vastos,
E foi contemplando-o que contemplei a vós e vos amei.
(...)
Dei menos que uma promessa, mas vós fostes ainda mais generosos.
me destes minha profunda sede de vida.
Certamente, não há presente maior para um homem do que aquele que transforma todos os seus objetivos em lábios sedentos e toda a vida em uma fonte.
E nisto está minha honraria e minha recompensa –
Quando venho à fonte para beber, encontro a própria água, viva e sedenta:
E ela bebe a mim enquanto eu a bebo
Gibran Khalil Gibran, O profeta

postado por: RICARDO LENGRUBER LOBOSCO 12:03 PM




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